UOL Notícias Internacional
 

05/02/2008

Ex-rebelde, republicano McCain enfrenta novos desafios

The New York Times
Elisabeth Bumiller
Do New York Times
Em Boston
Ele diz que não é masoquista o suficiente para dar ouvidos a Rush Limbaugh. Faz piada sobre uma emergente crise de política exterior durante um jantar republicano: "Tenho um discurso de quatro horas sobre a ameaça nuclear da Coréia do Norte pelo qual eu sei que vocês estão esperando." E continua tratando a mídia como seu principal eleitorado, alimentando-a com um falatório incessante e contando histórias, inclusive sobre os seus tempos na Marinha, em que namorou uma moça que limpava as unhas com canivete.

Mas agora o dinheiro está correndo solto: mais de US$ 7 milhões somente no mês de janeiro. O candidato voa por todo o país em um jato digno de Casa Branca, com segurança, funcionários para carregar a bagagem e um serviço de bordo farto. Ele está se esbaldando com os fundos de campanha republicanos que logo deverão incluir, ele espera, o apoio da Associação Nacional de Rifle.

O senador John McCain, o "vira-casaca" republicano, está fazendo uma transição estonteante, tentando ganhar o apoio da base do Partido Republicano e explorar tudo o que possa vir com isso. Depois de ganhar as primárias em New Hampshire, na Carolina do Sul e na Flórida, o candidato cuja campanha consistia em um punhado de assessores sem salário, repentinamente tem alguma chance de ganhar na terça-feira, tornando-se o líder "de fato" de um partido que ele tem desafiado e enfurecido com freqüência.

Stephen Crowley/The New York Times 
McCain e sua mulher, Cindy, no avião usado pelo republicano durante campanha

Mas ao se cobrir com o manto republicano, McCain coloca em risco a imagem de rebelde que atrai os votos de independentes e democratas, dos quais ele talvez precise para vencer em novembro, conforme admitem seus assessores.

McCain aprendeu isso da forma mais difícil. O rebelde que concorreu contra George W. Bush em 2000 entrou na disputa de 2008 com todos os apetrechos caros de um vencedor, mas acabou perdendo sua identidade política quando aliou-se aos evangélicos e à ortodoxia republicana em relação ao corte de impostos, sem mencionar o apoio a uma guerra impopular. No verão passado a campanha de McCain havia quase que desmoronado, ele chegou a voar sozinho para New Hampshire para fazer comício para uns poucos gatos pingados.

Agora seu objetivo é apoiar-se com um pé de cada lado. Ele quer manter seu papel como um candidato independente, aberto aos repórteres e que fala direta e informalmente com os eleitores. Mas ao mesmo tempo, precisa consertar as profundas rachaduras dentro de seu próprio partido, convencer os conservadores mais desconfiados de que podem contar com ele em assuntos como questões judiciais e impostos, e fazer uma campanha nacional focada não somente na Casa Branca mas também em ajudar seu partido no Congresso.

"Ele está tentando fazer as coisas da mesma forma que fez em New Hampshire, mas em proporções maiores", disse Mark Salter, um dos assessores mais próximos de McCain, durante um vôo de campanha que levou o candidato para comícios em Tennessee, Alabama e Geórgia, sem sequer um encontro oficial com políticos locais. "O que ele vai fazer é evitar que isso se transforme em um problema."

Mas Salter e outros assessores de McCain reconhecem que não têm nenhum plano de como conduzir a campanha depois da Superterça. "Chegar até aqui exigiu muita energia e criatividade", disse Salter. "Vamos precisar de algumas semanas para elaborar uma nova estratégia."

A logística por si só já é desencorajadora, como ficou claro na sexta-feira quando McCain tentou recriar, no corredor estreito de seu jato particular, a coletiva de imprensa ambulante que fazia em seu ônibus de campanha. Durante o vôo de St. Louis para Chicago, enquanto uma multidão de repórteres subia pelas poltronas, num empurra-empurra para tentar chegar mais perto, McCain fez as vezes de assessor de imprensa e policial de trânsito. "Você pode levantar esse microfone por um segundo?", disse a um técnico de som de uma equipe de televisão.

"Esse é o problema de não estar em um ônibus", disse McCain. "Deveríamos ter ido a Chicago de ônibus."

Mas o desafio mais importante para McCain é como reter o apoio dos democratas independentes e moderados enquanto ele flerta com a direita para tentar reunir o partido em torno de sua candidatura. Na semana passada, ele levou ao ar seu primeiro programa eleitoral na televisão, "Verdadeiramente Conservador", em que ele aparecia num encontro com Ronald Reagan e declarava ser um "conservador com orgulho, e que nunca iria vacilar."

McCain, que sempre se opôs ao direito de aborto, tem anunciado o apoio de líderes conservadores quase que a cada hora - o ex-candidato à presidência Steve Forbes e Theodore B. Olson, um ex-auxiliar da promotoria geral, juntaram-se à campanha na sexta-feira - apesar de ainda enfrentar uma oposição intensa por parte de muitos conservadores, incluindo o âncora de rádio Limbaugh, um de seus opositores mais críticos. Ainda assim, os assessores de McCain acreditam que os eleitores sabem quem é o seu candidato e insistem que ele não vai pender para a direita para assegurar sua nomeação.

"Estamos bastante conscientes de que McCain tem uma marca única", disse Trey Walker, consultor político de McCain na Carolina do Sul. "Essa marca está funcionando no momento, e se tentarmos lançar uma nova Coca-Cola nessa disputa presidencial, vamos acabar perdendo para os democratas."

Com o país enfrentando a possibilidade de uma recessão, os assessores de McCain também reconhecem que ele terá que ser tão fluente em política econômica quanto é em política exterior, sua especialidade. Nas primárias em Michigan e na Flórida, no mês passado, McCain contou com Carly Fiorina, ex-presidente-executiva da Hewlett-Packard, a seu lado para responder às perguntas dos eleitores sobre a crise do mercado imobiliário. Num fórum econômico em Orlando, Flórida, Fiorina serviu como moderadora no lugar de McCain.

Mas mesmo num contexto como esse, McCain parece não conseguir evitar desviar o assunto para a política exterior. Quando perguntaram a ele em Orlando o que ele faria em relação à alta nos preços do petróleo, ele primeiro fez um discurso divagando sobre o confronto entre três navios americanos e cinco lanchas iranianas no Estreito de Hormuz no mês passado, e terminou falando sobre as evidências de que as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as Farc, estavam fornecendo armas para a Venezuela.

Charles Black, veterano das campanhas republicanas à presidência desde 1976 e um dos conselheiros mais experientes de McCain, diz que o candidato vai sentar com sua equipe econômica depois da Superterça e aprofundar os detalhes da política econômica. "Ele vai saber mais detalhes sobre os micro assuntos", disse Black.

McCain também viaja para a a Alemanha neste fim de semana, onde participa de um encontro anual da Otan sobre política de segurança, em Munique. Ele deve se encontrar com o primeiro-ministro britânico Gordon Brown e talvez com o presidente francês Nicolas Sarkozy.

Apesar de McCain comparecer à reunião todos os anos por causa de seu trabalho no Senado, este ano as atenções estarão mais voltadas para ele. Seus conselheiros já adiantaram que ele fará outras viagens ao exterior durante o ano para divulgar suas habilidades em política exterior aos eleitores que estão se ligando na disputa à presidência só agora.

Enquanto isso, McCain apareceu como um bom representante de partido no programa "Fox News Sunday" e também na sexta-feira à noite em Chicago, durante o jantar anual dos republicanos do condado de DuPage.

"A primeira coisa que temos de fazer depois da Superterça é unir esse partido", disse McCain a uma multidão eufórica em Chicago, mostrando a mesma emoção que ele cuidadosamente repetiu na Fox News. Eloise De Vylder

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