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05/02/2008

Japão protege um gato selvagem tão raro que alguns negam sua existência

The New York Times
Norimitsu Onishi

Na ilha Iriomote, Japão
O gato de Iriomote supostamente perambula por esta pequena ilha subtropical no Mar do Leste da China há 200 mil anos, mas provou ser tão esquivo que só foi descoberto em 1967. Até hoje, muitos moradores da ilha dizem nunca ter visto o animal e alguns até negam teimosamente sua existência.

Um dos gatos selvagens mais raros do mundo, ele sobrevive apenas aqui em Iriomote, uma das ilhas mais distantes do Japão. Quase indistinguível de um gato doméstico, o gato selvagem de Iriomote está supostamente relacionado ao gato-leopardo encontrado no continente asiático, ao qual esta ilha já esteve ligada.

Ko Sasaki/The New York Times
Gato selvagem de Iriomote empalhado é exibido no centro de conservação da vida selvagem na ilha Iriomote, Japão
Em um país onde políticas oportunistas pavimentaram o país e o cobriram de aeroportos, o acesso a Iriomote só se dá por meio de uma viagem de balsa de 35 minutos saída da vizinha ilha Ishigaki, e que conta com apenas uma única avenida principal que abraça quase metade de sua costa. O interior montanhoso e envolto em neblina de Iriomote, coberto por florestas primitivas e repleto de rios margeados por mangues, continua quase tão impenetrável quanto sempre.

Ainda assim, moradores e turistas aumentaram em número nos últimos anos, atraídos pela natureza selvagem da ilha e pelo gato selvagem, conhecido aqui como "gato da montanha". O desenvolvimento ao redor tornou urgente os esforços para salvar a população de gatos selvagens, com as autoridades ambientais do Japão a elevando uma posição na lista de espécies ameaçadas.

Os pesquisadores que realizam um levantamento temem que a população do gato selvagem esteja abaixo dos 100 estimados há uma década.

"Ele está enfrentando sua maior crise", disse Masako Izawa, uma especialista em gato selvagem da Universidade de Ryukyus, na principal ilha de Okinawa. Como outros pesquisadores, Izawa, 53 anos, passou anos estudando o animal sem de fato conseguir vê-lo, dependendo de fotos, vídeos e outras evidências de segunda mão.

Apesar do gato selvagem ser raramente visto, sua presença é sentida em toda parte nesta ilha, incluindo ônibus, restaurantes e pontes, todos contendo imagens ou esculturas do animal. Placas na única avenida da ilha, alertando para a travessia de gatos selvagens, são onipresentes e numerosas, superando enormemente as placas de travessia de crianças.

"Atenção à travessia de gatos de Iriomote", diz uma placa com o desenho de um gato selvagem mosqueado. Outras mostram o desenho de um gato selvagem saltando ou uma foto com a exortação "dirija lentamente, Iriomote". Mas outro tipo de sinalização de trânsito, com duas luzes vermelhas no topo, exibe um desenho rudimentar, mas instantaneamente identificável, de um gato selvagem, como o aviso de que "há gatos da montanha à frente -cuidado!"

Com a média de três gatos selvagens morrendo atropelados por ano, a pista de duas mãos da ilha -progressivamente alargada para acomodar o crescente número de carros- se tornou a maior ameaça ao gato selvagem. A estrada serpenteia pelas terras baixas desabitadas da ilha, que por acaso são o território preferido do gato selvagem.

As autoridades conceberam métodos elaborados para ajudar os gatos selvagens a atravessarem ilesos. Mesmo em zonas que foram alargadas para permitir um maior tráfego e velocidade, novas faixas de borracha chamadas "zonas de zebra" induzem os motoristas a desacelerarem e alertam os gatos selvagens sobre os carros que se aproximam.

Oitenta e cinco "estradas ecológicas", ou passagens subterrâneas para animais, foram cavadas sob a via principal. Câmeras de vigilância montadas em 19 das passagens confirmam que os gatos selvagens as estão usando, apesar de não na mesma freqüência que outros animais e talvez não o suficiente para compensar outras mudanças nos últimos anos.

Com grande parte dos 285 quilômetros quadrados de Iriomote inacessíveis aos seres humanos, apenas 2.325 pessoas vivem aqui. Mas apesar da diminuição da população do Japão rural na última década, a de Iriomote aumentou 22%. Além disso, o número de turistas aumentou 33% nos últimos cinco anos, atingindo 405.646 no ano passado.

"O tráfego humano em áreas às quais seres humanos não entravam antes está mais intenso", disse Chieko Matsumoto, 62 anos, líder de um grupo privado que busca controlar a população de gatos domésticos de rua, que podem transmitir doenças para o gato selvagem.

Em sua longa história aqui, o gato selvagem permaneceu no topo da cadeia alimentar em um ecossistema pequeno e frágil, cujo isolamento e rica biodiversidade valeram a Iriomote comparações a Galápagos. Em uma ilha sem ratos, o gato selvagem come de tudo, de javalis a camarões.

"Muitos acreditam que Iriomote é uma ilha pequena demais para sustentar a presença de tal animal carnívoro", disse Maki Okamura, uma especialista em gato selvagem do Centro de Preservação da Vida Selvagem de Iriomote. "É amplamente considerado um milagre que um gato selvagem tenha conseguido sobreviver como espécie nesta ilha por 200 mil anos."

Foram encontrados aqui traços humanos que remontam séculos. A extração de carvão trouxe colonos para cá há um século, apesar da malária ter mantido a população pequena. Antigos moradores, como Kimiaki Fujiwara, 78 anos, vieram para cá quando eram pequenos e tendem a ser céticos diante de toda a atenção dedicada ao gato selvagem.

Fujiwara disse que nunca viu um gato selvagem em seus 68 anos aqui e que duvida de sua existência. "Eu acho que são apenas gatos domésticos que fugiram e estão vivendo nas montanhas", ele disse.

"Eu acho que não tem problema proteger os gatos selvagens ou que quer que seja, mas também gostaria que protegessem as pessoas", ele disse, acrescentando que a maioria de seus vizinhos vive de aposentadoria. Ele expressou uma opinião ouvida com freqüência em seu bairro, na costa norte da ilha.

A ambivalência dos moradores mais antigos, e às vezes uma clara antipatia, em relação aos gatos selvagens pode ser traçada à visita de um especialista alemão em felinos logo, após a descoberta dos gatos selvagens, em 1967. Para salvar o gato selvagem, o alemão sugeriu forçar os seres humanos a deixarem Iriomote.

O boom turístico mais recente expôs novas tensões, Os antigos moradores tendem a ser agricultores e têm pouco interesse no gato selvagem. Os recém-chegados operam negócios ligados ao turismo que dependem, em parte, da sobrevivência do gato selvagem, mas podem também ameaçá-lo.

Como um indicador da fragilidade do equilíbrio, um gato selvagem macho que atravessava a via principal da ilha foi atropelado e morto por um carro, em uma noite chuvosa, poucos dias depois da entrevista com Okamura. O centro tinha rastreado o gato selvagem por três anos e o chamado de Googoo. George El Khouri Andolfato

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