UOL Notícias Internacional
 

05/02/2008

Questão latina nos EUA provoca corrida dos imigrantes em busca da cidadania

The New York Times
Julia Preston
Do New York Times
Estimulados pela crescente repressão à imigração ilegal e pelo tom estridente do debate nacional sobre a imigração, os latinos estão se preparando para as eleições primárias de terça-feira com o olho voltado em transformar os hispânicos em um bloco eleitoral decisivo em todo o país em novembro.

Após décadas de participação eleitoral latina relativamente baixa, no ano passado mais de um milhão de imigrantes latinos legais requisitaram cidadania, com muitos dizendo que o fizeram para poderem votar. De lá para cá, os hispano-americanos recém-naturalizados e cidadãos desde o nascimento têm comparecido às feiras de registro de eleitores e grupos de discussão política, assim como pressionado parentes a se registrarem.

As eleições primárias na Flórida, o primeiro Estado com grande voto de população latina, deu uma demonstração de sua força potencial. Os eleitores latinos, que representavam 12% do eleitorado -um forte comparecimento para uma primária- concederam a John McCain, senador do Arizona, uma vantagem decisiva sobre Mitt Romney, o ex-governador de Massachusetts, segundo as pesquisas de boca-de-urna da Edison/Mitofsky.

Os dois candidatos basicamente empataram entre os eleitores brancos, com 33% para McCain e 34% para Romney. Mas os eleitores latinos, incluindo cubano-americanos e outros, votaram 54% em McCain e 14% em Romney. (McCain é conhecido entre os latinos pelo apoio ao projeto de imigração que oferecia status legal aos imigrantes ilegais, projeto que foi derrotado no ano passado pelos conservadores de seu partido.)

No lado democrata, os latinos também contribuíram para a vitória na Flórida da senadora Hillary Rodham Clinton, de Nova York, sobre o senador Barack Obama, de Illinois, por 16 pontos percentuais, com 59% dos latinos votando nela e 30% votando nele.

Votar neste ano é considerado pelos latinos como uma estratégia de autodefesa, disse Sergio Bendixen, um analista de pesquisa de Miami. Para muitos deles, disse Bendixen, "o debate da imigração não tem tratado de política de imigração. Tem sido sobre se os latinos pertencem à América".

Os latinos "sentem que precisam votar para mostrar que não são um grupo que pode sofrer abusos e discriminação", disse Bendixen, que realiza pesquisas entre latinos para a campanha de Hillary Clinton.

Na terça-feira, 24 Estados que incluem quase 60% do eleitorado latino, votarão em eleições primárias ou convenções. Na terça votarão sete dos 10 Estados com maiores percentuais de latinos entre seus eleitores, incluindo o Novo México, onde os latinos constituem mais de um terço do eleitorado (os democratas realizarão convenções lá), a Califórnia, onde são cerca de 23%, e o Arizona, onde são cerca de 17%.

A energia eleitoral foi canalizada por uma campanha de registro de eleitores, que formou novos elos entre as organizações latinas locais e a grande mídia de língua espanhola, liderada pela Univision, a rede nacional de televisão.

Tanto estrategistas republicanos quanto democratas disseram que a aplicação agressiva das leis de imigração e as manifestações duras contra a imigração ilegal por parte dos candidatos republicanos, com exceção de McCain, antagonizaram os latinos em geral.

"A retórica linha-dura contra a imigração está afastando todos os latinos", disse Lionel Sosa, um executivo de propaganda republicana em San Antonio, que cuidou da campanha para atrair os latinos para o presidente Ronald Reagan e ambos os Bush. "Quando os candidatos falam em construir um muro ou mandar as pessoas de volta para o México, elas passam um sentimento antilatino. Nós dizemos: 'Você está falando da minha família e eu não gosto'", disse Sosa.

Uma nova eleitora latina mobilizada é Silvia Benitez, 45 anos, que nasceu no México mas vive no Arizona há mais de uma década. Uma trabalhadora comunitária de um programa federal de pré-escola em Phoenix, Benitez não votou nas eleições de 2004 e 2006 na condição de imigrante legal.

Mas esta eleição será diferente, ela disse. Entre as várias medidas recentes para imigração adotadas pelo Arizona, se encontravam as sanções mais duras do país contra empregadores que contratam trabalhadores não autorizados, que entrou em vigor em 1º de janeiro.

"Nós não mais nos sentimos seguros como comunidade", disse Benitez. "Algumas pessoas julgam você por sua aparência, pela cor da sua pele, pelo seu sotaque em inglês."

Frustrada pelo fracasso do presidente Bush, segundo ela, em promover um projeto de lei dando aos imigrantes ilegais um caminho para se tornarem legais, Benitez pediu cidadania no ano passado e fez seu juramento como uma americana em outubro.

Com sua voz controlada e mãos juntas, Benitez não parece uma incitadora. Mas ela fala como uma. "Chegou a hora de nós agirmos e promovermos um grande movimento de mudança política para os latinos", ela disse.

Outra moradora de Phoenix, Silvia Trinidad, 20 anos, está entre o grupo que cresce rapidamente de jovens latinos que chegaram recentemente à idade de votação de 18 anos. Uma imigrante legal mexicana desde pequena, Trinidad está estudando justiça criminal na faculdade e trabalhando como oficial de detenção para o xerife do condado, na esperança de se tornar policial. Ele se inscreveu no ano passado para se tornar cidadã.

"Todo voto conta", disse Trinidad, "e poderei votar contra as leis que estão tentando impor contra os imigrantes".

Ricardo Tavizon, um cidadão recém-naturalizado de 29 anos que vende carros usados em South Phoenix, disse que queria votar contra a repressão aos imigrantes e para representar outros cidadãos que não são cidadãos.

Eliseo Medina, vice-presidente executivo da União Internacional de Funcionários do Setor de Serviços, disse ter ficado surpreso com a resposta à campanha de registro de eleitores, chamada "Ya Es Hora, Ve y Vota" (já é hora, vá e vote).

"Nos 42 anos da organização, nunca vi tamanho interesse em uma eleição", disse Medina, cujo sindicato participa da campanha. Após ajudar centenas de milhares de imigrantes ilegais a pedirem cidadania no ano passado, a campanha visa persuadir 6 milhões de latinos não registrados a se inscreverem até novembro. Cerca de 18,2 milhões de latinos estão aptos a votar.

Tal meta é plausível, disseram líderes latinos, graças à coordenação entre grupos comunitários e os jornais ImpreMedia, que inclui o "El Diario La Prensa" de Nova York e a Univision. A televisão está exibindo cinco propagandas de utilidade pública sobre registro de eleitores, enquanto os jornais imprimem guias para registro de eleitores. A campanha inclui grandes grupos como o Fundo Educacional da Associação Nacional das Autoridades Latinas Eleitas e Nomeadas, uma organização bipartidária, e o Conselho Nacional de La Raza.

Os eleitores latinos poderão dar votos decisivos novamente na terça-feira. Em todo o país, Obama está empatado com Hillary Clinton, em 41%, segundo uma pesquisa CBS News divulgada no domingo. No Arizona, Obama está à frente entre os latinos, com 53% contra 37% de Clinton, segundo uma pesquisa da Mason-Dixon para a McClatchy/MSNBC. Tanto Hillary quanto Obama apóiam a concessão do status legal aos imigrantes ilegais. Mas Hillary tem um reconhecimento de nome mais forte que o de seu rival, como indicam as pesquisas.

Nas disputas republicanas, McCain conta com ampla vantagem entre os latinos sobre Romney, que prometeu ser mais duro contra os imigrantes ilegais. Mas McCain pode pagar por seu apoio aos latinos ao perder terreno entre os conservadores. Na segunda-feira, Roy Beck, o presidente da NumbersUSA, um dos maiores grupos que combatem a imigração ilegal, enviou um e-mail de alerta para, segundo ele, 1,5 milhão de simpatizantes da organização, pedindo aos republicanos para votarem contra McCain.

Com base nas recentes tendências, um aumento no registro de eleitores latinos fortaleceria o Partido Democrata em novembro, já que 57% dos latinos registrados se identificam como sendo democratas, enquanto 23% se identificam como republicanos, segundo um estudo em dezembro do Pew Hispanic Center, um grupo de pesquisa de Washington. Apesar da imigração ser uma questão importante para muitos latinos, ela não é a única preocupação deles. As pesquisas mostram que a guerra no Iraque, a economia e o ensino público também estão em suas mentes.

Alguns latinos ficaram consternados com o fato de Hillary Clinton ter mudado de idéia sobre apoiar as carteiras de motorista para imigrantes ilegais em Nova York. Com a campanha de registro de eleitores ainda no início, sua força plena só será sentida em novembro. Mas as metas dos líderes latinos são claras.

"Não é inconcebível que os latinos venham a ter um papel chave na eleição do próximo presidente dos Estado Unidos", disse Cesar Conde, vice-presidente executivo da Univision. George El Khouri Andolfato

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