UOL Notícias Internacional
 

06/02/2008

Estresse para encontrar escola para os filhos é sintoma do crescimento econômico da Índia

The New York Times
Somini Sengupta
Em Nova Déli
Eles oferecem orações. Reservam dinheiro para o pagamento de propinas. As suas noites são mal dormidas.

Este é o inverno da inquietação dos pais de crianças pequenas na Índia, especialmente aqui na capital próspera e de rápido crescimento do país, onde as demandas provocadas pela ambição e a densidade demográfica colidem com a falta de escolas de qualidade.

Neste ano, as admissões nos jardins de infância em Nova Déli teve início com crianças de apenas três anos, e acredita-se que a escola que essas crianças freqüentarem agora fará uma diferença no destino educacional desses alunos.

Tomas Munita/The New York Times 
Mulher confere lista com nomes de crianças aceitas em escola de Nova Déli

E foi assim que um empresário, que se inscreveu para tentar conseguir uma vaga para o filho de quatro anos em 15 escolas particulares, chegou ao portão da prestigiada Academia do Sul de Nova Déli, em uma manhã da semana passada, para verificar se o nome do filho fazia parte da lista de admissões.

O nome do garoto não estava lá, e, ao retornar ao seu carro, o pai desconsolado questionou se não seria melhor que os casais indianos só tivessem um filho após terem assegurado uma vaga na escola. "A pessoa tem um filho e não existe uma escola para onde mandá-lo", reclamou ele em voz alta. "Isso é uma loucura. Não dá para dormir à noite".

Em uma indicação da sua ansiedade, o pai, de 36 anos, que é dono da sua própria empresa, recusou-se a divulgar o nome completo com medo de prejudicar as chances de que o filho consiga uma boa escola. Ele concordou relutantemente em fornecer o seu primeiro nome, Amit.

A ansiedade quanto às matrículas escolares é uma parábola de desejo e frustração em um país que tem a maior concentração de jovens no mundo. Cerca de 40% dos 1,1 bilhão de cidadãos indianos têm menos de 18 anos, e muitos outros são pais entre 20 e 40 anos, com filhos em idade escolar.

Atualmente, para todos, com exceção dos muito pobres, as escolas do governo não são uma opção aceitável por serem consideradas fracas, e porque a competição pelas escolas particulares é feroz.

O problema é parte da grande corrida indiana à educação, que ocorre em todo o país e que se estende por todas as faixas do espectro sócio-econômico. As classes menos privilegiadas estão desembolsando grandes quantias ou contraindo dívidas para enviar os filhos a escolas particulares. Em alguns casos, crianças de pequenas cidades viajam mais de 65 km todos os dias para freqüentarem boas escolas. As novas escolas particulares estão surgindo por toda parte, à medida que os industriais, os agentes de imóveis e até mesmo algumas companhias estrangeiras se interessam pelo mercado educacional indiano.

Esse mercado é similar a várias outras coisas na Índia. A oferta fica bem menor do que a demanda à medida que as cidades crescem, os salários aumentam e os pais que lutaram por educação na infância desejam algo de melhor para os filhos.

O pai chamado Amit admite da seguinte forma esse desejo característico da sua classe social: "As marcas realmente tomaram conta de tudo. Todos observam que carro você está dirigindo, que roupas está usando e qual escola o seu filho freqüenta".

Funcionário público aposentado, Vir Singh, 68, reconhece essa mudança na sua própria família. Um dos seus filhos freqüentou uma escola pública e migrou para os Estados Unidos para trabalhar como engenheiro. Um outro estudou em uma escola particular decente de Nova Déli e foi trabalhar em uma companhia multinacional, mas atualmente se recusa a enviar a filha para a escola na qual estudou. Singh afirma que o filho só admite que a filha freqüente a melhor escola da cidade. "Agora todos querem escolas mais sofisticadas. É uma sociedade mudada".

Certa manhã, em busca de uma escola "sofisticada", Singh foi até uma filial da cobiçada Escola Pública Déli - aqui, como no Reino Unido, "pública" significa particular - para ver se o nome da neta estava na lista de admitidos. Mas ele não teve sorte. Singh resmungou a respeito do critério de admissão adotado pela escola. Ele ficou chocado com o fato do filho de uma mãe solteira ter tido preferência. "Vocês querem que os pais se separem?", perguntou ele, incrédulo.

O processo de admissão nunca foi fácil nas escolas indianas de elite. Antigamente as admissões às escolas particulares baseavam-se em uma mistura opaca de contatos, dinheiro e preferências de certos tipos de famílias por certos tipos de escolas. Atualmente, como resultado de litígios na justiça, foram criadas regras judiciais em Nova Déli para tornar o processo mais justo e transparente, pelo menos no papel.

As escolas têm permissão para formular os seus próprios critérios de admissão, mas tais critérios devem ser claramente expostos aos pais e precisam ser seguidos consistentemente. Neste ano muitas escolas criaram um sistema de pontos que recompensa as mulheres, os estudantes que têm irmãos mais velhos na mesma escola, filhos de ex-alunos e, a fim de encorajar as escolas de bairro, crianças que moram nas imediações.

Nas últimas semanas, era difícil encontrar pais que não reclamassem das novas regras.

Sridhar e Noopur Kannan, tentando obter uma vaga para o filho de 4 anos na Escola Pública Déli, acharam absurdo o fato de as meninas serem privilegiadas. Mas eles próprios contam com uma vantagem invejável: Sridhar Kannan foi aluno da escola, e nesta manhã um membro do comitê de seleção reconheceu-o, e recordou que ele foi um bom aluno.

A escola em que estudou Rumana Akhtar, e onde a sua filha contaria com uma vantagem no processo de seleção, é inviável por ficar muito longe da sua atual residência. A tentativa de Alok Aggarwal de usar a sua rede de contatos até agora não ajudou o seu filho a conseguir uma vaga. Ashok Gupta não possui tais contatos privilegiados, mas reservou mais de US$ 2.500 para o caso de aparecer uma brecha mediante uma "doação".

Muitos pais dizem que, apesar dos novos critérios, algumas escolas continuam abrindo exceções em troca de contribuições financeiras.

As pressões podem ser sentidas também do outro lado da porta.

Neste ano, Suman Nath, diretora da Escola Internacional Tagore, situada em um bairro de classe média populoso, recebeu 2.014 inscrições para 112 vagas de jardim de infância. Ela conta que certo dia um alfaiate que costura para a sua família veio pedir uma vaga para o filho.

Ministros do governo são solicitados a fazer lobby por certas crianças. Um diretor de uma outra escola recorda-se de ter recebido uma ligação telefônica da companhia de energia elétrica, que ameaçava cortar a eletricidade da instituição caso determinada criança não fosse admitida.

A mudança que diversos pais e administradores escolares receberam bem foi o fato de as crianças não serem mais submetidas a entrevistas de admissão. "Agora pelo menos as crianças não sentem-se rejeitadas", diz Nath.

Mas isso não lhe proporcionou muito conforto na tarde da última sexta-feira, quando a Escola Internacional Tagore divulgou a lista de crianças selecionadas para matrícula. Os pais se aglomeraram para olhar a lista. A maioria saiu de cara feia.

"Eles precisam abrir uma nova escola para as crianças que não conseguiram vagas em lugar nenhum", diz Sarika Chetwani, 28, que inscreveu a filha de quatro anos sem sucesso em 12 escolas. "Estou totalmente arrasada. Não sei o que fazer a seguir".

Shailaja Sharma, 26, disse que a sua única esperança é encontrar alguém influente que comova outra pessoa influente com dinheiro. Mandira Dev Sengupta, carregando o filho de três anos, Rio, nos braços, morde o lábio e luta para conter as lágrimas. Após 17 inscrições, Rio só foi aceito por uma escola, da qual ela particularmente não gosta.

Nesta semana, antes mesmo de acabar a corrida pelo jardim de infância, uma outra teve início. Estudantes do segundo grau de toda a Índia se preparam para as provas finais que determinarão quem conseguirá as cobiçadas vagas nas universidades.

Na segunda-feira, o jornal "The Hindustan Times" publicou uma lista de dicas para os pais desses alunos. "Não aborreça o seu filho", era um dos conselhos. "Lembre-se, ele não é uma máquina capaz de estudar quatro ou cinco horas seguidas". UOL

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