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09/02/2008

Ele leva música aos sinos da Notre Dame, mas não é corcunda

The New York Times
John Tagliabue
Em Paris
Stephane Urbain estava encostado contra uma moldura pesada, de madeira, no alto da torre norte da Catedral de Notre Dame, embrulhado em um casaco de lã azul contra o vento, enquanto esperava os sinos soarem.

Então, três de quatro imensos sinos tocaram, fazendo tremer a enorme moldura de carvalho, que pesa mais de 187 toneladas.

"Dó, Ré duas vezes e Fá", disse Urbain, com um amplo sorriso abrindo seu rosto, mesmo na escuridão da sala dos sinos.

Urbain, 40, estudou química, mas é o principal sacristão da catedral. Como tal, ele é também o chefe dos sinos. Seu papel freqüentemente leva a menção de Quasimodo, o "Corcunda de Notre Dame", de Victor Hugo, que ficou surdo por tocar os sinos.

Nigel Dickinson/The New York Times 
Stephane Urbain na torre dos sinos da Catedral de Notre Dame, em Paris

Urbain rejeita a comparação. "Sou pouco musical", disse ele, com modéstia característica, recebendo o visitante em meio a roupas e vasos litúrgicos dourados da sacristia. Sua musicalidade levou a uma pequena revolução na forma como os sinos são tocados desde que se tornou diretor-sacristão, há três anos.

Isso, às vezes, o colocou em conflito com os responsáveis pela manutenção dos sinos. Estes fazem vistorias seis vezes ao ano para verificar a condição do bronze; examinam os motores elétricos, as correntes intrincadas que agora balançam os sinos e inspecionam a moldura de madeira da qual são suspensos.

Os responsáveis pela manutenção querem menos música, para diminuir o desgaste dos sinos de séculos. Urbain quer mais, para restaurar a arte ao que deveria ter sido quando os sinos eram jovens.

Apesar de Victor Hugo e Walt Disney, é possível que nunca os sinos tenham sido soados por alguém puxando uma corda. Os sinos -quatro menores na torre norte da catedral e o grave, ou "bourdon", no sul- ainda apresentam os restos das plataformas de madeira e barras de metal que eram usadas para balançar os enormes sinos com os pés. Eles foram eletrificados em 1930 e agora são controlados eletronicamente por computador. Urbain também é mestre de programação de software.

Ainda assim, há os problemas ocasionais. Em 2004, durante a Semana Santa, uma falha mecânica silenciou os sinos por vários dias. "O cardeal Lustiger ficou furioso", disse Urbain, referindo-se ao falecido Jean-Marie Lustiger, que na época era arcebispo de Paris. Urbain tornou-se responsável pelos sinos da Notre Dame praticamente por acidente. Ele estudou química, mas trabalhou na faculdade com o homem que cuidava do famoso "carrillon" em Lourdes, templo nos Pirineus, perto de onde Urbain morava. Incapaz de encontrar trabalho em seu campo, veio para Paris há 10 anos e pôde usar sua experiência para entrar na equipe da catedral. Em 2005, quando o diretor-sacristão mudou-se para se tornar guardião da catedral, Urbain substituiu-o.

Com uma equipe de quatro sacristãos, ele é responsável pela organização dos serviços litúrgicos, desde missas simples pelo clero da catedral até serviços elegantes envolvendo o cardeal. Sua verdadeira paixão, contudo, são os sinos. A Notre Dame tem 11 sinos. Os quatro da torre norte foram fabricados em 1856 para substituir os mais antigos, que foram derretidos durante a Revolução Francesa para fazer canhões e moedas. O sino de 14 toneladas grave, na torre sul, foi fabricado em 1680 e é sustentado por uma grande gaiola de madeira que data da Idade Média. Seis sinos pequenos foram instalados no século 19 acima do transepto da igreja. Os sinos, como são instrumentos sagrados, são todos batizados: o baixo é Emmanuel, o maior dos pequenos é Angelique Françoise; o menor, Denise David.

Pouco depois de assumir o cargo, Urbain começou a mudar a forma como os sinos eram tocados, usando sua experiência em Lourdes. "Não havia plano, a forma de tocar era sempre a mesma", disse ele.

Os sinos eram tocados com golpes simples no Angelus, três vezes ao dia, e nas missas de domingo. Urbain, contudo, percebeu que poderia programar os quatro sinos da torre norte de forma que tocassem notas de músicas conhecidas, inclusive o coral de Bach "Nun Komm, der Heiden Heiland", ou na Páscoa o hino "Regina Coeli Laetare". O grave era um desafio maior. Raramente era tocado, exceto em festas solenes como Páscoa ou para marcar a morte de um papa o arcebispo de Paris. Urbain, entretanto, criou programas combinando o grave e os quatro sinos menores.

Urbain admite que suas mudanças causaram problemas. "Quanto mais os usamos, mais eles se desgastam", diz ele. Para reduzir o desgaste, o badalo do sino grave, que pesa mais de 450 kg, agora é feito de aço, mais suave. O uso também desgasta os motores elétricos que puxam as correias para soar os sinos.

Nicolas Gueury concorda. Gueury é vice-diretor do Mamias, do grupo Biard-Roy, que se especializa no cuidado de sinos, inclusive estes. Durante recente inspeção, apontou para manchas de desgaste na beirada do grave, onde o badalo bate, e disse que, se continuasse sendo usado como é hoje, o sino partiria, como o Liberty Bell na Filadélfia. "Um sino é uma nota, como a corda de um piano", disse ele. O grave, em sua opinião, "é o mais belo dos sinos".

"Por seu peso, antiguidade e qualidade musical, é o mais puro", disse ele.

Os responsáveis pela manutenção ocasionalmente viram os sinos de forma que o badalo bata em uma área diferente da beirada, reduzindo o desgaste. Dois especialistas subiram nos sinos. Roger Lucto, 48, subiu no badalo de um e o girou, como Tarzan, até que tocasse na borda. Eles azeitaram as partes móveis e testaram os motores e correias. Uma corrente precisava ser substituída.

"Aqui na Notre Dame, temos um sistema preventivo", disse Gueury. "Esperamos pegar antes que quebrem". Urbain concorda que a meta deve ser não somente usar, mas também preservar os sinos. "Tenho mais idéias", disse ele. "Teremos menos sinos na quaresma" disse ele. "Mas teremos um programa completo, particularmente na Páscoa."

Urbain ama os sinos, mas como parte de toda a catedral. "E ela é uma mulher muito ciumenta e possessiva", disse ele. Deborah Weinberg

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