UOL Notícias Internacional
 

11/02/2008

Fé em Chavez começa a diminuir na Venezuela

The New York Times
Simon Romero*
Em Caracas, Venezuela
Este deveria ser o melhor período para a Venezuela, abençoada com a maior reserva de petróleo fora do Oriente Médio e com os preços do produto próximos de uma alta recorde. Mas os problemas econômicos e sociais do país se tornaram tão graves nos últimos tempos que o presidente Hugo Chaves está enfrentando um inesperado ataque de críticas em relação à sua administração, inclusive por parte de seus próprios aliados.

Em uma reviravolta rara na política, agora são os oponentes de Chavez que parecem estar de vento em popa enquanto revertem a política de abstenção de seus simpatizantes e preparam dezenas de candidatos para as eleições regionais importantes. Chavez, talvez pela primeira vez desde o referendo de 2004, está cada vez mais na defensiva enquanto muitos vêem sua tentativa de implementar o socialismo na Venezuela como incapaz de resolver uma crescente lista de preocupações como a violência e a falta de alimentos básicos.

Apesar de Chavez continuar sendo a figura política mais poderosa da Venezuela, sua antes inquestionável autoridade está mostrando sinais de erosão. Algo impensável há alguns meses, pixações dizendo "Diosdato Presidente" começaram a aparecer na capital do país em janeiro, um sinal de apoio para uma possível tentativa de concorrer à presidência por parte de Diosdato Cabello, aliado de Chavez e governador do populoso Estado de Miranda.

Tyler Hicks/The New York Times 
Policial detém suspeitos para serem revistados no bairro de Patare, em Caracas

Surtos de dengue e doença de Chagas assustaram as famílias que vivem no centro de Caracas. O medo de uma desvalorização da nova moeda, chamada de "bolívar forte", está espantando os investimentos de capital. Apesar de a economia ter crescido 6% este ano, apoiada nos altos preços do petróleo, a produção dos poços controlados pela estatal Petroleos de Venezuela caiu. A inflação subiu 3% em janeiro, atingindo a mais alta taxa mensal dos últimos dez anos.

De fato, alguns economistas vêem uma lenta crise econômica se desenrolando num país inundado por lucros de petróleo. Mas à medida que Chavez embarca em seu décimo ano no poder, fica cada vez mais difícil para ele culpar os governos anteriores pelo problema.

Isso é verdade principalmente nas áreas pobres do país, em que os eleitores não compareceram às urnas para apoiar o presidente no referendo feito em dezembro. A votação, que proporcionaria uma revisão constitucional capaz de aumentar em muito os poderes de Chavez, foi uma derrota dolorida da qual o presidente ainda não se recuperou.

"Não consigo encontrar feijão, arroz, café e leite", diz Mirna de Campos, 56, assistente de enfermagem que mora no perigoso bairro de Los Teques, na periferia de Caracas. "A única coisa que tem para vender é uísque - aos montes."

O contraste entre a retórica revolucionária e o consumo de ítens importados luxuosos por parte de uma nova elite alinhada com o governo Chavez, conhecida como "burguesia bolivariana", levou a um amplo questionamento sobre as prioridades de seu movimento político. "A revolução de Chavez atolou, mas pode voltar a andar se ele resolver alguns problemas", diz Daniel Hellinger, cientista político da Webster University, em St. Louis, que acompanha a Venezuela. "Não queria estar no lugar dele, com o desafio de fazer com que o governo seja mais efetivo na vida cotidiana das pessoas."

Chavez enfatizou esse desafio depois de sua derrota nas urnas, quando anunciou um ano de "revisão, retificação e recomeço". Ele lançou um decreto de anistia aos adversários políticos que haviam sido acusados de apoiar um golpe em 2002 e movimentou sua equipe de governo, substituindo o vice-presidente e os ministros responsáveis pelas pastas da economia e luta contra o crime.

Mas para cada mudança política ou estatística econômica positiva, Chavez provocou uma grande ansiedade intensificando as ameaças de expandir o controle do Estado sobre a economia e a sociedade. Entre outras coisas, ele avisou nesta segunda-feira que vai estatizar os grandes distribuidores de alimentos que forem pegos estocando produtos.

Pedro E. Pinate, consultor em agribusiness na cidade de Maracay, disse: "vivemos em dois países, um habitado por autoridades que pensam que podem alterar a realidade usando soldados para intimidar os cidadãos. O outro país é onde o resto de nós vive com medo de ser morto ou seqüestrado, ou de que nosso negócio seja confiscado."

O medo se reflete em uma estatística proibida de ser divulgada na Venezuela: o valor do bolívar forte no mercado negro, colocado em circulação no começo do ano para substituir o antigo bolívar. Seu valor flutua em torno dos 5,2 para cada dólar, de acordo com os cambistas, mais do que o dobro da taxa oficial de 2,15.

Em relação a outros problemas domésticos, a abordagem de Chavez tem sido igualmente errática. Depois de um surto recente de dengue, que atingiu até seu gabinete e infectou o ministro da cultura Francisco Sesto, o presidente não sacudiu o sistema público de saúde, como era de se esperar. Em vez disso, ele pediu uma investigação das suspeitas de que o vírus havia sido alterado para uma forma mais contagiosa como parte de um ataque à Venezuela por inimigos não-identificados.

Os inimigos da Venezuela raramente foram mais ameaçadores do que nos anos recentes, de acordo com Chavez, que acirrou a briga com o presidente da Colômbia Alvaro Uribe a ponto de mobilizar tropas para a fronteira de 2 mil quilômetros entre os países.

No mês passado, Chavez acusou os militares colombianos de conspirar com oficiais americanos em Bogotá para matá-lo. Foi a 25ª vez que o governo da Venezuela disse que Chavez estava sendo alvo de assassinato desde 2002, de acordo com o jornal Tal Cual.

Enquanto esses problemas domésticos e econômicos se acumulam, Chavez enfrenta um novo teste esse ano nas eleições municipais e estaduais, com uma oposição revigorada lançando candidatos por todo o país. Chavez pode perder autoridade se seus oponentes ganharem umas poucas cidades e Estados importantes, hoje quase que completamente controlados por seus aliados.

Ainda mais imprevisíveis são as dinâmicas dentro do próprio movimento comandado pelo presidente, com candidaturas insurgentes bradando para desafiar o status quo.

"O chavismo é mais vulnerável na esfera local e estadual", diz Steve Ellner, cientista política da Universidade Oriente, na Venezuela. "Isso abre uma grande oportunidade para que a oposição mine o poder e a influência de Chavez, começando com grandes vitórias nas eleições que acontecem no fim do ano."

Entre crescentes pedidos de abertura para o debate e tentando agradar os novos líderes do Partido Socialista que ele criou no ano passado para abrigar seus aliados, Chavez está tentando impor disciplina dentro de suas bases. Ele ameaçou de expulsão os membros do partido que lançassem candidaturas muito cedo para as próximas eleições.

A regra aparentemente não vale para o próprio Chavez, cujo referendo para remover a restrição de tempo para seu mandato como presidente, juntamente com uma série de outras propostas para transformar a Venezuela no segundo Estado socialista depois de Cuba, foi rejeitado pelos eleitores em dezembro.

No mês passado, Chavez mencionou uma proposta de realizar um plebiscito em 2010 para permitir que ele concorra à reeleição em 2012, quando termina seu mandato atual. Cartazes proclamando "Por Ahora" - "Para Já" - foram espalhados por toda a capital, lembrando aos venezuelanos que Chavez não vai desistir de sua missão de reconfigurar a sociedade.

Chavez também não desistiu do seu esforço em aprofundar as alianças internacionais com líderes afins. Entre outras coisas, mesmo com a Venezuela enfrentando problemas com a falta de equipamentos para a perfuração de poços de petróleo, o governo enviou duas torres de extração para o Equador, país cujo presidente, Rafael Correa, é aliado de Chavez.

Essa ajuda externa, antes tolerada pelos aliados de Chavez, está se tornando uma fonte de desentendimentos entre os que ficaram de fora dos lucros com o petróleo do país. "Vejo Chavez viajando e viajando para o exterior, e o dinheiro vai parar em outro lugar", disse Jesus Camacho, 29, vendedor ambulante de café nas ruas de Catia (uma favela de Caracas), que ganha cerca de US$ 8 por dia.

Camacho diz que sempre votou para Chavez, mas recentemente perdeu sua fé na política. "Essa situação não pode ser corrigida por nenhum homem", disse ele. "Só Deus."

* Colaborou Sandra La Fuente P. Eloise De Vylder

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