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11/02/2008

Hemingway, sua carta chegou

The New York Times
Charles McGrath
Apesar de não serem muito conhecidas, Ernest Hemingway escreveu duas peças de teatro. A primeira, concluída em 1926, se chamava "Hoje é Sexta-Feira", uma esquecível peça de um ato sobre a Sexta-Feira Santa original, em que três centuriões romanos se reúnem em uma taverna para discutir as crucificações memoráveis que já haviam presenciado, incluindo a daquela tarde. O fato de que eles soam como o personagem de Nick Adams de Hemingway não surpreende. "Pra mim ele parecia estar muito bem lá hoje", diz um deles, admirando o estoicismo de Jesus na cruz.

A outra peça, "A Quinta Coluna", que agora foi montada pela Mint Theater Company em Manhattan e estréia em 26 de fevereiro, é um drama completo escrito em 1937, quando Hemingway trabalhava como correspondente na Guerra Civil espanhola. A peça recebeu esse nome em alusão à declaração do general Franco de que ele tinha quatro frentes de combate avançando em direção a Madri e uma quinta coluna de partidários seus dentro da cidade, pronta para um ataque pelas costas. Todavia, "A Quinta Coluna" não fala sobre os simpatizantes de Franco, mas sobre um correspondente de guerra americano que trabalha como agente secreto para os republicanos, e foi escrita por Hemingway durante o período em que ele viveu enfurnado no Hotel Flórida com todos os demais correspondentes de guerra.

Halekulani Hotel/The New York Times
Ernest Hemingway e Martha Gellhorn Hemingway durante lua de mel no Hotel Halekulani, no Havaí, em 1940
Em uma carta, descoberta recentemente, ele conta: "naquela época", Herbert Matthews do New York Times, Henry T. Gorrell da United Press, "Sefton Delmer do Daily Express, Martha Gellhorn do Colliers, Virginia Cowles, então do Hearst e agora do London Times, Joris Ivens, que fez o filme 'Spanish Earth', Johnny Ferno, que fez a fotografia do filme, Josephine Herbst, que trabalhava para vários semanários americanos e para a humanidade em geral, Sidney Franklin, que trabalhava para mim, todos os homens licenciados da Brigada Internacional e a maior e mais variada coleção de mulheres da noite que eu já vi, todos viviam no Hotel Flórida."

Numa introdução a "A Quinta Coluna", Hemingway escreveu que o hotel havia sido bombardeado inúmeras vezes, acrescentando: "então, se a peça não for muito boa talvez tenha sido por causa disso. Se a peça for boa, talvez todas as trinta explosões tenham ajudado a escrevê-la."

Na carta, ele conta mais detalhes: "no outono de 1937, quando comecei a escrever a peça, nenhum dos andares superiores do hotel existia mais. Ninguém, a não ser um louco, subiria lá durante um bombardeio. Mas os dois quartos em que nós vivíamos eram, do ponto de vista da artilharia, um ângulo morto. Qualquer outro lugar do hotel poderia ser atingido, como de fato aconteceu. Mas a menos que a posição dos canhões no monte Garabitas mudasse, ou então que eles substituíssem os obuzes por armas; os quartos 112 e 113 não poderiam ser atingidos por causa da posição de três casas que ficavam do outro lado da rua e do outro lado do quarteirão.

"Eu tive certeza absoluta disso depois de presenciar 22 bombardeios pesados ao hotel em que outras partes da construção foram atingidas. Parecia eminentemente mais sensato viver em uma parte do hotel que sabíamos que não seria atingida pelo fogo dos canhões, uma vez que sabíamos de onde eles atiravam, do que ir para outro hotel mais distante das linhas de ataque, onde não teríamos dados para descobrir os ângulos de artilharia e onde poderíamos acabar com uma bomba no telhado.

"Bem, eu tinha muita confiança no Hotel Flórida e quando Franco finalmente entrou em Madri, os quartos 112 e 113 ainda estavam intactos. Diferentemente do resto do hotel."

A Mint Theater Company freqüentemente faz remontagens de peças caídas no esquecimento, mas sua produção de "A Quinta Coluna" é de fato uma estréia, disse recentemente Jonathan Bank, diretor artístico da companhia. "Para ser mais preciso a esse respeito, devo dizer que é a primeira vez que a peça de Hemingway é montada profissionalmente nos Estados Unidos", explicou. "Pode ser que tenha existido alguma produção amadora. Sei que ela foi montada na União Soviética em 1963. E por causa de uma referência que encontrei em uma biografia de Michael Powell, também sei que ele dirigiu a peça na Escócia, nos anos 40."

O texto que foi considerado uma "adaptação" de "A Quinta Coluna", escrito por Benjamin Glazer, foi dirigido por Lee Strasberg e encenado pelo grupo Theater Guild em 1940, recebendo críticas boas e ruins. Hemingway naquele ponto havia lavado suas mãos, e por uma boa razão, diz Bank. "Eu diria que o texto é 80% Glazer e 10% Hemingway fora do contexto", diz ele. "Foi completamente reestruturado e, bem... é horrível."

Na versão de Hemingway, que foi publicada na coleção "A Quinta Coluna e as Primeiras Quarenta e Nove Histórias", de 1938, o protagonista Phillip Rawlings e seus colegas são comunistas orgulhosos que chamam uns aos outros de camaradas. Essas referências estão ausentes da adaptação de Glazer. Bank disse que a princípio pensou que todas as mudanças feitas pela produção do Theater Guild haviam sido feitas em 1940 por razões políticas. O que ele descobriu, entretanto, foi que as mudanças haviam sido feitas antes disso, e as alterações mais desastrosas eram fruto da estranha veia de puritanismo de Glazer.

Glazer, que havia escrito e produzido a bem sucedida versão para o cinema de "Adeus às Armas" (1932), era cunhado do advogado de Hemingway, Maurice Speiser, que sugeriu a ele para dar uma olhada na peça, ainda não produzida. Depois de Glazer ter dito que "A Quinta Coluna" precisava de uma "injeção dramática", ele e Hemingway fizeram um acordo pelo qual ele iria reescrever a peça em troca de 50% dos direitos autorais. Se Hemingway gostasse da peça, ela seria produzida com a assinatura de Hemingway; se não, seria considerada uma adaptação.

"Especulo que Hemingway pensasse que, de certa forma, a relação entre uma peça publicada e uma peça produzida era a mesma que existe entre um livro e um filme feito a partir dele", disse Bank. "Nunca ocorreu a ele se reservar o direito de cancelar a coisa toda."

O que Glazer menos gostou a respeito da peça veio a ser afinal o principal papel feminino, Dorothy Bridges, inspirado fortemente na jornalista Martha Gellhorn, amante de Hemingway na época e eventualmente sua terceira mulher. Assim como Gellhorn, Dorothy tem um longo histórico de amantes, na maioria glamourosos, e, durante o primeiro ato, ela se separa culposamente de um homem casado com quem tinha um affair e se envolve com Rawlings.

Glazer considerou a personagem como sendo uma ninfomaníaca e reescreveu o primeiro ato. Em sua versão, um Rawlings perturbado pela guerra estupra Dorothy - ele aparentemente acreditava que isso tornaria o personagem dela mais simpático.

"Acho que ele falhou completamente em apreciar Dorothy, que é um personagem delicioso e complicado", disse Bank, e acrescentou que boa parte da peça é sobre a pequena comunidade que os moradores do hotel formaram sob os bombardeios. Uma coisa que as pessoas não fazem em circunstâncias como essa, Hemingway escreveu posteriormente, é estuprar umas às outras.

A carta de sete páginas foi descoberta por Bank quando ele estava pesquisando o arquivo do Theater Guild, na biblioteca de Beinecke em Yale.

Hemingway esperava que ela fosse publicada no New York Times. Portanto, agora, passados 70 anos, aí vão mais alguns trechos:

"A comida era muito ruim e escassa então costumávamos cozinhar no meu quarto. Sidney Franklin fazia o café da manhã e qualquer um era bem-vindo desde que trouxesse algo para contribuir com a refeição. Se não trouxessem nada, Sidney os alimentava uma vez, mas os insultava tanto que eles raramente voltavam.

"O mau-humor de Sidney chegou ao seu ápice quando a senhorita Gellhorn pediu um pouco de geléia para levar para o seu quarto no caso de não tomar café da manhã junto com os demais."


Hemingway tinha o apelido de Pop naquela época, e seu chefe era John Wheeler da North American Newspaper Alliance, que pagava a ele um dólar por palavra, muito mais do que os outros correspondentes ganhavam.

"Quem essa mulher pensa que é?" Sidney perguntava para nós todos. "Aposto que ela não consegue fazer em um mês o dinheiro que Pop consegue em um dia." "Se Pop pudesse trabalhar mais", dizia ele tristemente. Sidney era dono de 10% de mim naquela época e a maior tragédia que enfrentamos foi uma ordem de contenção de Jack Wheeler. Sidney é um grande e velho amigo e, tendo sido toureiro profissional durante anos, ele sabia exatamente quanto dinheiro alguém deveria receber em troca de se expor à morte.

Hemingway descreveu um dos bombardeios dessa forma:

"Uma coisa que não dá para levar ao palco mas que ficaria bem numa foto foi o primeiro bombardeio no Flórida. O hotel estava lotado quando o ataque começou em pleno dia, e, depois que a primeira bomba atingiu a frente do prédio (outras sete atingiram o hotel naquele dia e mais de mil foram atiradas na cidade), houve uma espécie de migração em massa por parte dos moradores dos quartos que davam de frente para as linhas de artilharia. Em todos os andares, casais carregando seus colchões nas costas corriam pelos corredores como roedores. Então, em meio à quebradeira e às nuvens de poeira, Antoine de Saint Exupery começou a distribuir toranjas. Ele havia comprado uma grande quantidade em Valência; esse era o seu primeiro bombardeio e ele lidava com isso distribuindo toranjas.

'Est-ce-que vous voulez une pamplemousse?'

Som de bombardeio. Mais poeira. Pessoas deitadas sob colchões. Gritos de mulheres que haviam sido despertadas cedo demais e abruptamente.

'Est-ce-que vous voulez une pamplemousse?'

Outra bomba. Mais poeira. Um cheiro forte de explosivo e granito aos pedaços. Alvenaria caindo do céu. Sob os colchões, mulheres que não haviam pensado em encarar a eternidade até antes de acordar, consideravam seriamente o assunto."


A carta termina com Hemingway descrevendo como era diferente escrever uma peça:

"Sobre escrever a peça: eu estava excitado e feliz por poder escrever os diálogos sem ter de escrever sobre os lugares. Isso significa que (ao escrever uma peça), você pode simplesmente dizer que um lugar é assim ou assado. Você não tem que criá-lo como num romance, para que o leitor possa entrar lá e saber que é real. Um cenógrafo vai ter que construí-lo a partir do que você disse.

Posso escrever os diálogos na máquina de escrever porque é mais rápido do que quando escrevo a lápis. Mas quando coloco um país, ou uma cidade, ou um rio num romance, é um trabalho lento porque tenho que criar tudo, para que ganhe vida. Mas ninguém consegue fazer nada com mais rapidez e facilidade se isso não for bom.

A parte de confecção da peça vem depois que ela é escrita. Outras pessoas criam todos os detalhes daquilo que você simplesmente indica quando escreve. Agora faz exatamente um ano e um mês que venho trabalhando sem cessar em um romance. Nisso ninguém pode me ajudar. Mas, numa peça, o crédito por todo o trabalho pesado vai para quem monta, dirige e atua. Eu tive toda a diversão. Eles têm todo o trabalho. Bem, é uma boa troca a ser feita de vez em quando.

Uma sorte que tive foi a de estar num quarto no Hotel Flórida entre março de 1937 e maio de 1938, em uma época em que você podia aprender tanto dentro do hotel quanto em qualquer outro lugar do mundo. Não passei todos os meses dentro daquele quarto. Mas toda vez que voltava para ele, havia aprendido algo novo. E os bombardeios e tudo mais foram ótimos para fazer com que nós não deixássemos iludir em relação muitas coisas."
Eloise De Vylder

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