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12/02/2008

Krugman: disputa democrata mostra que os EUA ainda são a terra da política do ódio

The New York Times
Paul Krugman
Do New York Times
Em 1956 Adlai Stevenson, disputando contra Dwight Eisenhower, tentou questionar o estilo político do vice-presidente de seu adversário, um homem chamado Richard Nixon. O país, disse ele, corria o risco de se tornar "uma terra de perjúrio e falsidade; a terra da insinuação maliciosa, das cartas e telefonemas anônimos, do assédio, da prepotência; a terra do esmagar e agarrar e fazer qualquer coisa para vencer. Essa é a Nixonlândia".

A citação vem de "Nixonland", uma história política de 1964 a 1972 (a ser publicada em breve), escrita por Rick Perlstein, autor de "Before the Storm" (antes da tempestade). Como Perlstein mostra, Stevenson advertiu em vão: durante aqueles anos os EUA realmente se tornaram a terra do perjúrio e da falsidade, da política do ódio.

E ainda são. Na verdade, nestes dias até o Partido Democrata parece estar se transformando na Nixonlândia.

O acirramento da luta pela indicação democrata é, diante disso, bizarra. Os dois candidatos que continuam de pé são inteligentes e atraentes. Ambos têm agendas progressistas (embora eu acredite que Hillary Clinton seja mais séria sobre conseguir o seguro-saúde universal e que Barack Obama defendeu posições que vão minar seus próprios esforços). Ambos têm amplo apoio entre as bases do partido e são vistos favoravelmente pelos eleitores democratas.

Os seguidores de cada candidato não deveriam ter problemas para apoiar o outro se ele ou ela for o indicado. Então por que existe tanto veneno por aí?

Não tentarei uma imparcialidade fingida aqui: a maior parte do veneno que eu vejo vem de seguidores de Obama, que querem seu herói ou ninguém. Eu não sou o primeiro a indicar que a campanha de Obama parece perigosamente próxima de se tornar um culto à personalidade. Já tivemos isso no governo Bush -lembram-se da Operação Macacão de Piloto? Realmente não queremos isso de novo.

O que especialmente causa tristeza é a maneira como muitos seguidores de Obama parecem felizes com a aplicação das "regras de Clinton" -termo que vários observadores usam para o modo como os críticos e algumas organizações noticiosas tratam qualquer ação ou declaração dos Clinton, por mais inócua que seja, como prova de intenção maligna.

O melhor exemplo das regras de Clinton nos anos 90 foi a maneira como a imprensa cobriu Whitewater. Um pequeno e fracassado negócio imobiliário tornou-se a base para uma investigação que durou vários anos e custou vários milhões de dólares, que nunca encontrou qualquer evidência de atos ilegais por parte dos Clinton, mas o "escândalo" tornou-se um símbolo da suposta corrupção do governo Clinton.

Durante a atual campanha, o comentário totalmente razoável de Hillary Clinton de que foram necessárias a coragem e a habilidade políticas de Lyndon B. Johnson para realizar o sonho de Martin Luther King Jr. foi pintado como uma espécie de terrível difamação de King.

E o último exemplo de destaque foi quando David Shuster da MSNBC, depois de indicar que Chelsea Clinton estava trabalhando na campanha de sua mãe -como fazem muitos filhos adultos de candidatos à presidência-, perguntou: "Não parece que Chelsea está mais ou menos sendo cafetinada de uma maneira estranha?" Shuster foi suspenso, mas, como a campanha de Clinton aponta adequadamente, seu comentário fez parte de um padrão mais amplo dessa rede.

Eu chamo isso de regras de Clinton, mas é um padrão que vai muito além dos Clinton. Por exemplo, Al Gore se submeteu às regras de Clinton durante a campanha de 2000: qualquer coisa que ele dizia, e algumas coisas que ele não dizia (não, ele nunca afirmou ter inventado a Internet), era apresentada como prova de suas supostas falhas de caráter.

Por enquanto, as regras de Clinton estão funcionando a favor de Obama. Mas seus seguidores não devem se confortar com esse fato. Por uma coisa, Hillary Clinton ainda pode muito bem ser a nomeada -e se os seguidores de Obama se importam com alguma coisa além de adorar seu herói devem querer que ela vença em novembro.

Outra é que, se a história servir como exemplo, se Obama ganhar a indicação ele rapidamente será submetido às regras de Clinton. Os democratas sempre são.

Mas principalmente os progressistas devem entender que a Nixonlândia não é o país que queremos ser. O racismo, a misoginia e o assassinato do caráter são todas maneiras de distrair os eleitores das questões importantes, e as pessoas que se importam com essas questões têm um interesse comum em tornar inaceitável a política do ódio.

Um dos momentos mais esperançosos desta campanha presidencial ocorreu no mês passado, quando vários líderes judeus assinaram uma carta condenando a campanha de difamação segundo a qual Obama seria secretamente um muçulmano. É um bom palpite que alguns desses líderes preferem que Obama não seja presidente; não obstante, eles compreenderam que há princípios que são mais importantes do que a vantagem política em curto prazo.

Eu gostaria de ver mais momentos como esse, talvez começando pelas fortes garantias dos dois candidatos democratas de que respeitam seu adversário e o apoiarão na eleição geral. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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