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12/02/2008

Primeiro cigarro é suficiente para levar adolescente ao vício

The New York Times
Jane E. Brody
Stuart Bradford/The New York Times 

Terrível advertência aos adolescentes: vocês podem ser "fisgados no primeiro cigarro".

Essa é a manchete da edição de dezembro da revista "The Journal of Family Practice". No artigo, Joseph R. DiFranza, médico especialista em saúde da família da Escola de Medicina da Universidade de Massachusetts em Worcester, afirma que "pouco depois daquele primeiro cigarro, os adolescentes podem sentir perda de autonomia em relação ao tabaco".

DiFranza, que estuda a dependência do tabaco, descreveu um fumante adolescente típico -uma menina de 14 anos que fuma apenas ocasionalmente, cerca de três cigarros por semana. Ela admitiu ter fracassado em várias tentativas de parar. Cada vez que tenta, sente muita vontade de fumar e a irritabilidade a leva de volta ao cigarro.

"Há muito, nós assumimos que os jovens se viciavam quando fumavam de cinco a 10 cigarros por dia", disse DiFranza em entrevista. "Agora, sabemos que arriscam se viciar depois de experimentar um único cigarro."

Ele baseou sua conclusão nos resultados obtidos com um questionário de 10 itens que ele e colegas criaram para ajudar as pessoas de todas as idades a determinarem se estavam viciadas em nicotina. Segundo o artigo:

"Estudos com alunos de várias sétimas séries revelaram que pelo menos um jovem havia sofrido todos os sintomas da lista semanas depois de começar a fumar, algumas vezes depois do primeiro cigarro. Esses resultados foram replicados muitas vezes."

"Três pesquisas nacionais na Nova Zelândia levaram o questionário a 25.722 adolescentes fumantes e revelaram perda de autonomia em 25% a 30% dos jovens que tinham fumado seu único cigarro nos 30 dias precedentes."

Por que adolescentes são diferentes
Todos fumantes ocasionais adolescentes podem passar pelos mesmos sintomas de abstinência de nicotina que levam os fumantes adultos a fumar.

Robin J. Mermelstein, diretora do Centro de Pesquisa de Comportamento na Saúde da Universidade de Illinois, em Chicago, e pesquisadora antiga do comportamento de fumante, disse em entrevista que a mensagem de DiFranza era importante. Mas, acrescentou, "a ampla maioria de adolescentes que experimentam um ou dois cigarros não vai se tornar fumante".

"Alguns jovens sentem sintomas de abstinência mais cedo que outros", continuou. "Ainda precisamos descobrir como prever quem vai ficar viciado."

DiFranza explicou que há muito se pensava que o fenômeno chamado "tolerância relacionada à dependência -quanto tempo depois de fumar um cigarro você pode passar antes de precisar fumar outro"- era o mesmo para adolescentes e adultos. Estudos recentes, contudo, mostraram que o cérebro do adolescente pode se tornar tolerante à nicotina depois de fumar menos do que um cigarro por dia e que é a tolerância que depois os leva a fumar mais.

"O fumante adulto típico começa a ter vontade de fumar de novo entre 45 e 60 minutos depois de fumar", disse ele. "Mas os jovens podem ser viciados e não precisar fumar por dias, até semanas."

Alguns adultos fumantes não são diferentes dos adolescentes. Um estudo revelou que adultos que fumavam apenas poucos cigarros por semana achavam difícil parar. "Eles passam por sintomas de abstinência, que alguns chamaram de insuportáveis", disse DiFranza. "A maior parte desses que dizem que só fumam 'socialmente' era viciada em tabaco".

Essas descobertas chegam enquanto o declínio do número de fumantes entre adolescentes parou; anúncios contra o tabaco na televisão praticamente desapareceram, e o número de personagens fumando nos filmes aumentou para quase recorde.

"Mais de uma dúzia de estudos mostraram que os jovens que vêem filmes com personagens fumando têm maior probabilidade de fumar", disse DiFranza. "Fumar nos filmes é mais comum hoje do que nos anos 50 e 60, enquanto o hábito entre adultos é 50% menos comum do que na época. Os produtores de cinema não estão refletindo a vida real."

O fumo entre adolescentes caiu constantemente de níveis recordes de meados dos anos 90 até 2004. Contudo, o índice de declínio desacelerou-se nesse período e, em 2005, parou entre os alunos da oitava série -termômetro da tendência entre adolescentes. Hoje, cerca de 13% dos adolescentes fumam ao menos uma vez por mês.

Estudos em ratos na Universidade de Duke revelaram como um único cigarro pode evitar os sintomas de abstinência por muito mais do que as 12 horas necessárias para a nicotina ser eliminada do corpo. A primeira dose de nicotina aumenta a produção do neurotransmissor noradrenalina em uma parte do cérebro chamada hipocampo ao menos 30 dias depois da saída da nicotina. Outro estudo de Duke revelou um aumento nos receptores de nicotina no cérebro um dia depois que os animais receberam sua primeira dose de nicotina.

"A mensagem é: em apenas um dia o cérebro se reforma em resposta a uma dose de nicotina", escreveu DiFranza. "Cerca de um quarto dos jovens têm uma sensação de relaxamento na primeira vez que fumam um cigarro, e essa sensação implica em fumo continuado."

Outras evidências de como é fácil para os jovens se viciarem em nicotina vêm dos índices de quem pára de fumar entre adolescentes. Em um estudo típico, 40% dos adolescentes que tentaram parar voltaram em uma semana ou menos; apenas 3% continuavam abstinentes um ano depois.

Essas descobertas sugerem que estratégias novas e mais assertivas são necessárias para combater o fumo entre jovens, algo que em geral significa uma vida de vício. Mais de 90% dos fumantes adultos informam que começaram a fumar quando adolescentes.

DiFranza sustenta que "as iniciativas de saúde pública ajudam muito". Essas incluem aumentar o preço do cigarro, uma estratégia que ajudou a reduzir o índice de fumantes em Nova York; um esforço nacional para que comerciantes parem de vender cigarros a menores; uma proibição maior de fumar em locais públicos, especialmente os freqüentados por adolescentes, como restaurantes, espaços de videogame, boliches; campanhas na mídia, incluindo amplo uso dos pagamentos de compensação da indústria de tabaco para patrocinar comerciais contra o fumo; e pressão sobre a indústria cinematográfica para que produza filmes livres de cigarros.

Ele instou os pais, inclusive os que fumam, a enfatizar aos filhos que "é um enorme erro começar a fumar. Se nunca começarem, nunca terão que se preocupar em parar". Deborah Weinberg

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