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13/02/2008

Ritual de Okinawa afasta os maus espíritos, mas não o preço da riqueza

The New York Times
Norimitsu Onishi

Na Ilha Miyako, Japão
Restando menos de uma hora de luz do dia, os moradores da aldeia de Nobaru daqui se reuniram em um sábado recente para expulsar os maus espíritos de sua comunidade.

Seguindo um percurso estabelecido séculos atrás, a procissão começou do lado de fora de um bosque onde um dos 11 templos de Nobaru estava escondido. Uma dúzia de sacerdotisas, com folhas de palmeira enroladas em torno de suas cabeças e cinturas, marchava em um terreno ainda úmido pelas chuvas da tarde.

Elas seguiam um menino de 12 anos que, caminhando rapidamente à frente delas, vestia uma máscara entalhada em madeira de um temível rosto alongado, com uma grande testa, olhos pequenos e uma fina boca retangular. Ele era o Paantu, um diabo, deus ou fantasma.

Ko Sasaki/The New York Times 
Sacerdotisas usam folhas de palmeira enroladas em torno de suas cabeças e cinturas

"Hoi! Hoi!", gritou a sacerdotisa, sacudindo os galhos de canforeira, enquanto o menino soprava duas vezes um búzio em resposta.

As sacerdotisas há muito protegem Miyako, uma pequena ilha no Mar do Leste da China e parte da cadeia de ilhas de Okinawa no Japão. Apesar das cerimônias e máscaras variarem de acordo com cada aldeia, elas compartilham uma base animista comum: é confiado às anciãs a responsabilidade de proteger as florestas, poços, nascentes e templos sagrados da aldeia. A fé, enfatizando a divindade da natureza e a adoração aos ancestrais, possui laços comuns com as religiões animistas sobreviventes na África e na Ásia.

Os ritos religiosos matriarcais sobrevivem em outras partes em Okinawa, que foi um reino independente até ser absorvido pelo Japão nos anos 1870. Mas floresceram aqui na isolada ilha de Miyako, cujo acesso só é possível por avião ou por uma longa viagem a bordo de um navio cargueiro.

Mesmo assim, até aqui as tradições religiosas estão enfraquecendo. Após terem sobrevivido a tufões, à conquista japonesa e à guerra, elas estão perdendo terreno para uma vida cada vez mais urbana, o aumento da riqueza e à popularidade de passatempos como o croquet. Associações de sacerdotisas guardiãs fecharam em pelo menos duas aldeias. Em outros lugares, poucas jovens parecem interessadas em suceder as sacerdotisas que estão se aposentando.

"Nós já podemos ver o fim se aproximando", disse Anko Sadoyama, diretora do Centro de Pesquisa da Cultura Tradicional de Miyako.

Mas em Miyako, disse Sadoyama, há mais de mil locais sagrados que ainda influenciam a vida cotidiana de formas às vezes inesperadas.

Na aldeia de Oura, os moradores recentemente se opuseram à construção de uma funerária, porque as sacerdotisas disseram que o local proposto bloqueava uma estrada usada pelos deuses. Há uma década, o chefe de uma construtora ignorou os apelos para não construir uma nova estrada que passava por um local sagrado.

"Mas então um dos operários adoeceu e o equipamento dele continuava quebrando de formas que não eram normais, então ele desistiu", lembrou Toshimitsu Oura, 58 anos, o líder da aldeia, acrescentando que a estrada acabou contornando o local.

Muitas das práticas religiosas de Okinawa ainda permanecem um mistério para os estudiosos. Na ilha de Ishigaki, a sudoeste de Miyako, as cerimônias envolvendo deuses como Paantu são fechadas para forasteiros. O punhado de fotos publicadas mostra duas figuras cobertas de grama e vestindo máscaras barbadas com narizes longos e olhos esbugalhados -máscaras que, dizem os especialistas, vieram originalmente de Papua-Nova Guiné.

Em uma aldeia chamada Nishihara, Kazuko Hamagawa, 66 anos, serve como sacerdotisa há uma década. Com 60 outras sacerdotisas, ela ajudava a realizar pelo menos 48 rituais por ano. Cerca de 15 vezes por ano, as sacerdotisas passavam a noite juntas em um templo na floresta, cantando uma canção de 100 minutos em seu dialeto. Os primeiros 24 versos envolviam orações pessoais, enquanto os 31 seguintes eram cada um dedicados a um deus em particular.

Mas a associação das sacerdotisas guardiãs encolheu diante da nova riqueza de Miyako, disse Hamagawa. Atualmente restam apenas 10 sacerdotisas.

"Atualmente não há inconveniências", ela disse. "As pessoas podem levar vidas fáceis. O atendimento de saúde é avançado."

Mesmo entre seus pares, ela disse, quatro mulheres, citando vidas ocupadas, se recusaram a se tornar sacerdotisas.

"Os jovens agora têm empregos", disse Tadashi Nakama, diretor do Centro Comunitário do Distrito de Nishihara. "No passado, havia apenas a agricultura, então todos participavam."

De fato, em uma recente visita, que coincidiu com a estação de colheita da cana-de-açúcar, apenas homens e mulheres idosos eram vistos cortando cana em campos por toda a ilha.

Em Nobaru, enquanto as sacerdotisas se preparavam para sua procissão anual, os meninos jogavam o jogo de pedra, papel e tesoura para decidir quem vestiria a máscara de Paantu. Após o perdedor ter se recusado a vestir a máscara, Takuya Sunakawa, 12 anos, foi escolhido como Paantu apesar dos protestos -"Eu não quero".

A procissão deveria visitar uma casa recém-construída ou uma em que um bebê nasceu no ano passado. "Mas não há nenhuma neste ano", disse Ikuko Tokuyama, 54 anos, a assistente da sacerdotisa-chefe. "E também não foram construídas casas novas. O que devemos fazer?"

Mesmo assim a procissão prosseguiu com os gritos de "Hoi! Hoi!" e o soar do búzio. Em cada encruzilhada, as sacerdotisas cercavam o Paantu e se aproximavam dele, acenando seus galhos e entoando "Uru-uru-uru!"

No final, perto dos limites da aldeia, o Paantu e as sacerdotisas marcharam ao longo dos campos de cana-de-açúcar, que estavam mais altos que o menino e as mulheres. O Paantu assustou um menino de 3 anos, Ryuhi, que começou a chorar e se escondeu atrás de sua mãe e disse: "Vamos fugir!"

Na divisa da aldeia, as sacerdotisas cercaram o Paantu uma última vez e, sacudindo os galhos de canforeira, expulsaram os maus espíritos de Nobaru.

Sob o céu azul que escurecia, os aldeões celebraram compartilhando pacotes de salgadinhos e refrigerantes. Grilos e cigarras cantavam nos campos de cana. O cheiro de grama molhada predominava.

Todos pareciam em paz, incluindo Ryuhi, que parou de chorar. Ele segurou a mão de sua avó, Saeko Ito, 50 anos, que marchou como sacerdotisa.

"Sorte sua ter vindo aqui", ela disse ao neto. George El Khouri Andolfato

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