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14/02/2008

Debi e Lóide: os americanos estão hostis ao conhecimento?

The New York Times
Patrícia Cohen
Um vídeo popular no YouTube mostra Kellie Pickler, a loura adorável de "American Idol" no jogo da Fox "Você é mais inteligente que um aluno do quinto ano?", durante a semana da celebridade. A pergunta de US$ 25.0000 (cerca de R$ 50.000), selecionada do currículo de geografia do terceiro ano do ensino fundamental, era: "Budapeste é a capital de qual país europeu?"

Chester Higgins Jr./The New York Times
Susan Jacoby no prédio de Belas Artes da Biblioteca Pública de Nova York
Pickler jogou as duas mãos para cima e olhou para o grande quadro negro, perplexa. "Achei que a Europa era um país", disse ela. Para se garantir, decidiu copiar a resposta oferecida por um dos genuínos alunos do quinto ano: Hungria. "Hungria?", disse ela, com os olhos esbugalhados e descrentes. "Isso é um país? Ouvi falar da Turquia, mas Hungria? Nunca ouvi falar."

Tal, digamos, falta de consciência global é o tipo de coisa que deixa Susan Jacoby, autora de "The Age of American Unreason" subindo pelas paredes. Jacoby faz parte de uma série de autores com livros recentes reclamando do estado da cultura americana.

Entrando para o círculo de rabugentos nesta temporada está Eric G. Wilson, cujo "Against Happiness" adverte que a "obsessão americana com a felicidade" pode "muito bem levar a uma súbita extinção do impulso criativo, que pode resultar em um extermínio tão terrível quanto os previstos pelo aquecimento global, crise ambiental e proliferação nuclear."

Depois tem "Against the Machine: Being Human in the Age of the Electronic Mob" (contra a máquina: ser humano na era da plebe eletrônica), de Lee Siegel, que protesta veementemente contra a Internet por estimular o solipsismo, o discurso sem base e a comercialização total. Siegel, é preciso lembrar, foi suspenso pelo "The New Republic" por usar um personagem falso on-line para criticar críticos de seu blog ("você não seria nem capaz de amarrar os sapatos de Siegel) e se elogiar ("bravo, brilhante").

Jacoby, cujo livro foi lançado na terça-feira (12/2), não se concentra em uma tecnologia ou emoção particular, mas no que percebe como uma hostilidade generalizada ao conhecimento. Ela tem consciência que alguns poderão chamá-la de chata. "Imagino que serei criticada" como uma pessoa mais velha que menospreza os jovens pela queda nos padrões e valores ou como secularista cuja defesa do racionalismo científico é uma forma de desprezar a religião, disse Jacoby, 62.

Jacoby, entretanto, rapidamente salienta que sua denúncia não se limita à idade ou ideologia. Sim, ela sabe que cabeças de ovo, nerds, minhocas de livro, CDFs, quatro-olhos e sabichões sempre foram ridicularizados e menosprezados pela história americana. Além disso, autores liberais e conservadores, desde Richard Hofstadter até Allan Bloom, analisaram o fenômeno regularmente e ofereceram conselhos.

T.J. Jackson Lears, historiador cultural que edita a revista trimestral "Raritan", disse: "A tendência a esse tipo de lamento é perene na história americana" e acrescentou que, "quando os problemas políticos parecem intratáveis ou de alguma forma congelados, há uma volta para questões culturais".

Agora, porém, algo diferente está acontecendo, segundo Jacoby: o anti-intelectualismo (a atitude de que "aprendizado demais pode ser perigoso") e o anti-racionalismo ("a idéia de que não existem coisas como provas ou fatos, apenas opiniões") se fundiram de forma particularmente insidiosa.

Não apenas os cidadãos ignoram conhecimentos essenciais científicos, civis e culturais, disse ela, mas também não acham isso importante.

Ela apontou para uma pesquisa da National Geographic de 2006 que revelou que quase metade das pessoas de 18 a 24 anos não pensam que é necessário ou importante saber em quais países as notícias estão localizadas. Então, depois de mais de três anos de guerra no Iraque, apenas 23% de pessoas no terceiro grau sabiam localizar no mapa o Iraque, Irã, Arábia Saudita e Israel.

Jacoby, vestida de gola rulê vermelha combinando com o batom, estava sentada, apropriadamente, em um templo do conhecimento, o majestoso prédio de Belas Artes da Biblioteca Pública de Nova York. Autora de sete outros livros, ela trabalhava na biblioteca quando teve a idéia de seu primeiro livro em 2001, sobre 11 de setembro.

Caminhando para seu apartamento no Upper East Side, assombrada e confusa, ela parou em um bar. Ela bebeu um bloody mary, ouvindo silenciosamente dois homens bem vestidos, de terno. Por um segundo, achou que eles iam comparar aquele dia horrível com o bombardeio japonês de 1941 que levou os EUA à Segunda Guerra Mundial:

"Isso é igual a Peal Harbor", disse um dos homens.

O outro perguntou: "O que é Pearl Harbor?"

"Foi quando os vietnamitas jogaram bombas em um porto e começou a guerra do Vietnã", respondeu o primeiro homem.

Naquele momento, Jacoby decidiu escrever o livro, disse ela.

Jacoby não espera revolucionar o sistema educacional do país ou levar milhões de americanos a desligarem "American Idol" para pegar Schopenhauer. Mas ela gostaria de começar um diálogo sobre por que os EUA parecem particularmente vulneráveis a esse vírus de anti-intelectualismo. Afinal, "o império da informação não pára na fronteira americana" e, ainda assim, estudantes em outros países consistentemente apresentam melhor desempenho que os americanos em ciências, matemática e leitura de textos comparativos, disse ela.

Em parte, Jacoby atribui a culpa ao sistema educacional decadente. "Apesar das pessoas irem para a escola por cada vez mais anos, não há evidências de que saibam mais", disse ela.

Jacoby também culpa a antipatia do fundamentalismo religioso contra a ciência e lamenta as pesquisas que mostram que quase dois terços dos americanos querem que o criacionismo seja ensinado junto com a evolução.

Jacoby não deixa os liberais fora de sua análise, mencionando os ataques da Nova Esquerda a universidades nos anos 60; a decisão de consignar estudos de negros e mulheres a um "gueto acadêmico" em vez de integrá-los no currículo central; e cursos universitários de cultura popular que envolvem de tudo, desde séries cômicas até gordura e banalizam o aprendizado.

Evitando os rótulos de liberal ou conservadora neste argumento particular, ela prefere se dizer "conservadora cultural".

Apesar de todos seus interesses acadêmicos, porém, Jacoby reconhece como é duro desligar-se da cultura do entretenimento de 24 horas por dia, sete dias por semana. "Fiquei impressionada em ver como era difícil para mim", disse ela.

A surpresa de sua própria dependência na mídia eletrônica e visual fez que ela compreendesse como é onipresente a cultura da distração e quão suscetível todo mundo é -até os rabugentos. Deborah Weinberg

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