UOL Notícias Internacional
 

14/02/2008

Partidos religiosos perdem espaço nas regiões tribais do Paquistão

The New York Times
Carlota Gall
Em Peshawar, no Paquistão
O senador Asfandyar Wali, líder de um partido oposicionista, o Partido Nacional Awami, está fazendo campanha para as eleições da semana que vem na segurança da sua cama, debaixo de um cobertor e apoiado em travesseiros devido a um problema de coluna, na sua casa de campo perto de Peshawar.

Saúde precária à parte, Wali tem ficado em casa porque homens-bomba estão tentando matá-lo, conforme autoridades graduadas do governo alertaram ao seu partido. Houve dois ataques a bomba durante comícios eleitorais do seu partido na semana passada. Dois candidatos foram mortos, um em um atentado suicida a bomba e um outro em um tiroteio em Karachi.

Mas apesar dos ataques e da campanha limitada, acredita-se que o seu partido se saia bem nas eleições parlamentares da próxima segunda-feira. Os partidos religiosos que durante os últimos cinco anos governaram as províncias Fronteira Noroeste e Baluquistão, que fazem divisa com o Afeganistão e com as regiões tribais, estão perdendo espaço.

Akhtar Soomro/The New York Times 
Multidão em Thatta acompanha comício de Asif Ali Zardari, viúvo de Benazir Bhutto

Alçados ao poder em 2002, em uma onda de antiamericanismo e de simpatia pelo Taleban após a invasão do Afeganistão, os mulás daqui estão descobrindo agora que a opinião pública voltou-se contra eles.

As pessoas reclamam, dizendo que eles não cumpriram as promessas feitas, que mostraram-se tão corruptos quanto os outros políticos e que foram responsáveis pelo agravamento da situação da segurança, o que é demonstrado de forma mais contundente pelo aumento do número de ataques suicidas desfechados por militantes cujas bases encontram-se nas áreas tribais vizinhas.

"Eles não serviram ao povo", acusa Faiz Muhammad, 47, um fazendeiro cujo filho foi morto em um atentado a bomba em um comício político do Partido Awami no último sábado.

A mudança de clima aqui pode ser um indicador de tendências mais amplas no país. Os partidos religiosos contam com 59 cadeiras no parlamento de 342 membros, o que faz deles o elemento de decisão em momentos críticos, como quando ajudaram o presidente Pervez Musharraf a estender o seu regime militar. Mas, segundo certas avaliações, a representação deles poderá cair para um patamar de apenas um dígito.

Institutos de pesquisas de opinião e analistas políticos do Paquistão têm afirmado que os partidos religiosos contam com apenas uma pequena porcentagem de apoio popular, e que as eleições de 2002 foram uma aberração, uma reação à intervenção norte-americana no Afeganistão e o resultado de fraudes promovidas pelas agências paquistanesas de inteligência, que sempre tiveram ligações com os partidos religiosos.

Os resultados de duas pesquisas de opinião divulgados nesta semana mostram que a posição dos partidos religiosos caiu para um patamar baixo inédito, e que os eleitores transferiram o seu apoio para os partidos moderados.

Uma pesquisa com 3.000 pessoas realizada no final de janeiro pelo Instituto Republicano Internacional revelou que os partidos religiosos seriam capazes de obter apenas 1% dos votos em âmbito nacional, contra 4% em novembro. Na província Fronteira Noroeste, bem como no Baluquistão, o índice de popularidade desses partidos é de 4%.

Enquanto isso, o apoio ao Partido dos Povos Paquistaneses, o partido da ex-primeira-ministra assassinada, Benazir Bhutto, disparou para 50% em nível nacional, segundo a pesquisa. A pesquisa baseada em entrevistas pessoais foi realizada em todo o Paquistão e tem uma margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

Uma outra pesquisa realizada pelo Terror Free Tomorrow, um grupo bipartidário com sede em Washington que procura reduzir o apoio ao terrorismo internacional, revelou um apoio de 62% ao Partido dos Povos Paquistaneses e à facção da Liga Muçulmana Paquistanesa chefiada pelo líder oposicionista Nawaz Shariff.

Se o Taleban participasse da eleição, obteria apenas 3% dos votos, e a Al Qaeda só 1%, de acordo com a pesquisa. A pesquisa de âmbito nacional baseada em 1.000 entrevistas foi realizada em janeiro pela 3D Systems e pelo Instituto Paquistanês de Opinião Pública e tem uma margem de erro de três pontos percentuais para mais ou para menos.

Aqui na província Fronteira Noroeste, onde os partidos religiosos obtiveram uma maioria absoluta e controlam o governo, eles são acusados de leniência para com os militantes e de terem permitido a "talebanização", a palavra usada para descrever a agenda islâmica radical que se insinua na sociedade, e que inclui ataques contra lojas de música e escolas femininas.

"As pessoas estão saturadas porque eles não estão se opondo abertamente aos ataques feitos pelo Taleban", diz Muhammad Jawed, 40, um comerciante que compareceu ao funeral do filho de Muhammad.

Essa frustração contribuiu para favorecer partidos da oposição moderada, como o Partido Nacional Awami, uma antiga agremiação nacionalista da etnia pashtun, fundada pelo avô de Wali. Ele foi quase varrido do mapa nas eleições passadas, em 2002, quando apoiou a intervenção norte-americana no vizinho Afeganistão. No seu lugar foi eleita uma coalizão de partidos religiosos, a Muttahida Majlis-e-Amal.

A assembléia de província em Peshawar ficou repleta de mulás educados em madrassas (escolas religiosas muçulmanas), além de contar com mais de dez mulheres que usam trajes que as cobrem da cabeça aos pés e com diversos mujahedeen que lutaram na Caxemira e no Afeganistão. Eles defendem a aplicação da lei islâmica, ou shariah, e a proibição da música, do cinema e das bebidas alcoólicas.

O Partido Nacional Awami não conseguiu obter nenhuma cadeira na assembléia nacional e conquistou apenas dez na assembléia provincial. Ele agora espera triplicar esse número na segunda-feira e assegurar pelo menos 12 cadeiras na assembléia nacional.

A coalizão religiosa está em estado caótico, vendo-se atacada tanto pela esquerda quanto pela direita. Um dos maiores partidos da coalizão, o Jamaat-e-Islami, está boicotando as eleições, protestando contra aquilo que alega ser um campo de disputa injusto, maquinado por Musharraf.

O outro principal partido da coalizão religiosa, o Jamiat Ulema-e-Islam, que ganhou a maioria das cadeiras na província Fronteira Noroeste da última vez, está dividido, desmoralizado depois que o seu líder, Maulana Fazlur Rehman, comprometeu-se a apoiar Musharraf.

Especialmente escandaloso para os fundamentalistas foi o fato de Rehman ter rompido com os militantes durante o impasse no verão passado entre os extremistas e as forças governamentais na Mesquita Vermelha em Islamabad, algo que os que o apoiavam consideraram uma traição. Quando outros partidos de oposição abandonaram o parlamento em outubro do ano passado, procurando minar a tentativa de Musharraf de reeleger-se, Rehman apoiou o presidente.

Atualmente, Rehman também está confinado em casa, sob ameaça de militantes furiosos devido ao seu apoio a Musharraf. A sua casa já sofreu ataques, e, segundo autoridades governamentais, ele está ameaçado de ser alvo de atentados suicidas.

Para Wali, a esperada derrota dos partidos religiosos na segunda-feira é uma recompensa.

"Sinto que nós, pashtuns, já tivemos guerras e derramamentos de sangue em quantidade suficiente, e que agora os cidadãos comuns também vêem as coisas desta maneira", afirma Wali. UOL

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