UOL Notícias Internacional
 

15/02/2008

Divisão étnica cresce no Quênia apesar da diminuição da violência

The New York Times
Jeffrey Gettleman*

Em Othaya, Quênia
Sarah Wangoi passou toda sua vida -todos seus 70 anos- no Vale do Rift. Mas no mês passado, ela foi expulsa de sua fazenda por uma turba que a chamava de estrangeira. Agora ela dorme no chão frio da casa de um estranho, buscando refúgio em uma área do Quênia onde seu grupo étnico, o kikuyu, é forte. Esta é, supostamente, sua terra natal.

"Eu estou segura agora", disse Wangoi, apesar da turba ainda persegui-la em seus sonhos.

Do outro lado do país, William Ojiambo se sentou em um campo onde a terra era dura demais para arar. Ele também buscou refúgio junto ao seu grupo étnico, os luos. Ele costumava viver em uma cidade etnicamente diversa chamada Nakuru, mas foi expulso recentemente por uma gangue de outro grupo étnico que queimou tudo o que ele possuía.

"Nós viemos para cá com nada, como repolho jogado na traseira de um caminhão", disse Ojiambo.

João Silva/The New York Times 
Crianças de outra região do Quênia buscam abrigo na vila de Gatuyaini, de maioria kikuyu

O Quênia costumava ser considerado um dos países mais promissores na África. Agora ele está à beira de se segregar etnicamente. Desde a eleição altamente problemática em dezembro que provocou uma onda de violência política e étnica, centenas de milhares de pessoas foram violentamente expulsas de seus lares e muitas agora estão se estabelecendo em zonas etnicamente homogêneas.

Os luos voltaram para o território luo, os kikuyus para o território kikuyu, os kambas para o território kamba e os kisiis para o território kisii. Mesmo algumas das lotadas favelas da capital, Nairóbi, foram divididas etnicamente. O derramamento de sangue por todo o país, que matou mais de 1.000 pessoas desde que a eleição, parece ter diminuído na semana passada. Mas os caminhões carregando pilhas altas de colchões, móveis, cobertores e crianças continuavam se deslocando pelo interior, um comboio interminável de pessoas assustadas que, em seu desespero, estão redesenhando o mapa do Quênia.

Os Estados Unidos a as potências ocidentais estão pressionando por um acordo político, com o presidente Bush dizendo que enviaria a secretária de Estado, Condoleezza Rice, para cá para "transmitir uma mensagem" aos líderes quenianos.

Na quinta-feira, as autoridades daqui disseram que o governo queniano e os líderes da oposição tinham concordado em princípio em se unirem em um governo de coalizão, mas que permaneciam amargamente divididos em relação aos detalhes, especialmente quanto poder a oposição teria. Dois funcionários ligados às negociações disseram que o governo tinha rejeitado a oferta da oposição de dividir o poder entre o presidente, que permaneceria como chefe do Estado e comandante-em-chefe das forças armadas, e um recém-criado posto de primeiro-ministro.

Seja qual for o acordo acertado, ele terá que tratar da crescente segregação, já que um reassentamento do país poderia entrincheirar as divisões políticas e étnicas que irromperam recentemente. A confiança despedaçada é muito mais difícil de ser reconstruída do que as cabanas despedaçadas, e muitas pessoas dizem que nunca mais voltarão para o local onde antes viviam.

"Como poderíamos, quando foram nossos amigos que fizeram isto conosco", disse Joseph Ndungu, um lojista no Vale do Rift, que acrsecentou que os homens com quem costumava jogar futebol incendiaram sua loja.

O governo está ajudando na separação do país, pelo menos por ora. Policiais estão escoltando as pessoas de volta às suas terras ancestrais, como o governo as chama, o que parece ser um modo pouco disfarçado de separação étnica.

Alfred Mutua, um porta-voz do governo, disse que isto é apenas temporário, até ser seguro para as pessoas poderem conviver juntas de novo.

"Os quenianos têm o direito de residir em qualquer parte do país", ele disse.

Mas as migrações em massa e reassentamentos que ocorreram poderão ser difíceis de reverter.

Veja o caso de Joseph Mwanzia Maingi, um professor aposentado que acabou de ser expulso de Narok, uma cidade no Vale do Rift, por uma gangue de homens locais com arcos e flechas. Ele fugiu para a fazenda de seu pai em uma área que é uma fortaleza do grupo étnico kamba, seu povo. Ele agora está construindo uma casa. Sem olhar para trás.

"Eu não vejo qualquer acordo de paz que possa garantir nossa segurança lá", disse Maingi, falando de Narok, onde viveu feliz por 40 anos.

A segregação étnica está tirando estudantes e professores das escolas e deixando milhares de empregos vagos em toda a economia. Se isto continuar, disse David Anderson, um professor de estudos africanos da Universidade de Oxford, "será um desastre completo".

"Será impossível reconstituir o Estado de forma significativa", ele disse. "Serão desfeitos 50 anos de trabalho."

As raízes do problema são mais profundas do que a eleição contestada, na qual o atual presidente, Mwai Kibaki, foi declarado vencedor na disputa com o principal líder da oposição, Raila Odinga, apesar das amplas evidências de manipulação dos votos.

No coração está um emaranhado de problemas políticos, econômicos e de terras que há muito estão vindo à tona. Parte do problema é o sistema "vencedor leva tudo" no Quênia, presente em grande parte da África, onde os líderes freqüentemente favorecem membros de seu próprio grupo étnico e, no processo, alienam grandes segmentos da população. Muitas pessoas no Quênia previam isto muito antes da independência, em 1963.

"Nós temíamos que as tribos menores seriam dominadas pelas maiores", disse Joseph Martin Shikuku, um membro da oposição de 75 anos. "E sabe de uma coisa? Foi exatamente o que aconteceu."

Shikuku foi um dos fundadores do movimento político da época da independência que abraçou uma filosofia chamada majimboísmo (a transferência do poder para as regiões). Ele colocou os atuais majimboístas, representados por Odinga, que faziam campanha pelo regionalismo, contra Kibaki, que defendia o status quo de um governo altamente centralizado, que levou a um considerável crescimento econômico mas exibia repetidamente os problemas de poder demais concentrado em muito poucas mãos -corrupção, indiferença, favoritismo e seu outro lado, a marginalização.

Como Kibaki é um kikuyu, o maior e mais poderoso grupo étnico no Quênia, e Odinga é um luo, um grupo que sente que nunca recebeu sua parcela justa, as tensões políticas e étnicas agravadas por esta eleição se misturaram com resultados desastrosos.

Outros países africanos tiveram que lidar com as rivalidades étnicas. A Etiópia criou um sistema em meados dos anos 90 chamado federalismo étnico, que dividiu o país em regiões baseadas em etnia, cada uma com amplo poder -pelo menos no papel- incluindo o direito de secessão. Mas os líderes etíopes logo concluíram que autonomia regional demais destruiria o país e a Etiópia agora é mais ou menos controlada de forma centralizada por membros de um grupo étnico pequeno.

A Tanzânia adotou a abordagem oposta. Ela desenfatizou a etnia, Ela encorajou as pessoas a falarem o suaíli, e não suas línguas natais, visando formar um espírito tanzaniano. O governo enviou crianças para colégios em diferentes áreas para expô-las a comunidades diferentes. A lei eleitoral tanzaniana até mesmo torna ilegal fazer campanha baseada em etnia.

No Quênia, essas campanhas são perigosas. Organizações de direitos humanos acusaram vários políticos nesta eleição de usarem o discurso de ódio para incitar seus eleitores. A terra se tornou um questão explosiva e, após a eleição, eleitores da oposição se voltaram contra as pessoas que percebiam como não apenas tendo votado no presidente, mas que antes tinham tomado suas terras. Para membros do grupo étnico kalenjin, isto significava os kikuyus, mesmo sendo seus vizinhos há gerações.

A pequena cidade de Londiani, no Vale do Rift, é apenas um exemplo. Comerciantes kikuyus se estabeleceram aqui há décadas. No início de fevereiro, os moradores disseram que centenas de agressores kalenjin vieram das colinas próximas. Até mesmo o jardim de infância local foi incendiado. Na manhã seguinte, crianças com cinzas em seus cabelos reviravam os escombros, recuperando o que pudessem encontrar -um repelente de mosquito aqui, uma lanterna amassada ali. Sem bombeiros na cidade e com a água escassa, tudo o que as pessoas puderam fazer foi correr para fora e assistir a escola queimar.

Os kikuyus se vingaram, organizando gangues armadas com barras de ferro e pernas de mesa para caçar os luo e kalenjins nas áreas dominadas pelos kikuyu, como Nakuru. "Nós conseguimos nossa própria versão perversa do majimboísmo", escreveu um dos principais colunistas do Quênia, Macharia Gaitho.

Muitos quenianos culpam William Ruto, um líder de oposição carismático, de fala mansa, e ancião kalenjin, pelo início da violência no Vale do Rift. Funcionários do governo queniano disseram que estão reunindo evidências de que Ruto instruiu seus simpatizantes a matarem e que em breve poderá ser indiciado por assassinato.

Ruto, 41 anos, nega qualquer envolvimento.

"Eles não tocarão em mim", ele disse. "Minhas mãos estão limpas."

Ainda assim, centenas de milhares de kikuyus fugiram do Vale do Rift, seguidas por membros de outras comunidades deslocados pelos assassinatos por vingança. A ONU estima que pelo menos 600 mil pessoas foram deslocadas. Cerca da metade foi para acampamentos em igrejas, delegacias, estábulos e prisões. As condições de vida freqüentemente são horríveis.

"Agora eles estão comendo ratos", dizia a manchete de um jornal queniano.

Em Othaya, no centro verde e montanhoso da província central dominada pelos kikuyus, os moradores se mobilizaram para receber seus parentes do Vale do Rift -e quaisquer outros kikuyus que tivessem escapado com eles.

"Eu estava esperando cinco ou seis pessoas", disse Miriam Wanjiku, uma das anfitriãs. "Então chegou um ônibus cheio."

Wanjiku encontrou casas e lojas abandonadas onde dezenas de pessoas pudessem dormir. Ela ajudou os homens que estavam fisicamente aptos -muitos estavam feridos- a encontrar emprego nas plantações de chá locais que ocupam as colinas como um manto verde gigante. As crianças foram colocadas na escola.

Mas havia pouco para os anciãos fazerem. Wangoi passa seu dia em um sofá, olhando para o chão.

"Eles foram fatiados como carne", ela disse, quando perguntada sobre o que aconteceu com seus vizinhos. Wanjiku escutava atentamente, parecendo perturbada.

"Eu acho que ela vai precisar de tratamento psicológico", ela disse.

* Reuben Kyama, em Nairóbi, Quênia, contribuiu com reportagem. George El Khouri Andolfato

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