UOL Notícias Internacional
 

15/02/2008

Evento para a imprensa mostra conforto de Putin com o poder

The New York Times
C.J. Chivers
Em Moscou
O presidente Vladimir Putin, nas semanas finais de um governo de oito anos que lhe assegurou a posição de político mais popular do país, disse na quinta-feira (14/2) que pretendia exercer poder substancial e por longo tempo no Kremlin depois de deixar o cargo no próximo mês e se tornar primeiro-ministro da Rússia.

Em uma apresentação confiante e vigorosa, na qual descreveu muitas das escolhas políticas da Rússia, Putin deu respostas afiadas a seus críticos internacionais e desafiou as duras críticas de Washington, recusando-se a retirar as ameaças de mirar mísseis estratégicos para a República Tcheca, Polônia e Ucrânia.

Ele acusou a Otan de avançar nas fronteiras da Rússia cortejando a Ucrânia e acusou os EUA de desenvolverem um escudo de mísseis para uso na Europa. Essas duas ações forçariam o Kremlin a assumir uma defesa nuclear revigorada, disse.

Alexander Nemenov/AFP 
Putin deixa auditório em Moscou onde concedeu entrevista à imprensa russa e internacional

"Vamos ter que apontar nossos mísseis para os objetos que achamos que ameaçam nossa segurança nacional", disse ele. "Tenho que falar sobre isso direta e honestamente, para que não haja tentativas de transferir a responsabilidade de tais desdobramentos para quem não deve ser culpado."

Putin apareceu em público por mais de quatro horas, no que o Kremlin chamou de sua última coletiva de imprensa como presidente. Sob a Constituição russa, ele não pode assumir um terceiro mandato consecutivo, e um novo presidente será escolhido no dia 2 de março em uma eleição por voto popular.

O evento, contudo, não foi um adeus do presidente e nem sugeriu que ele estava entregando sua posição de líder sem rival da Rússia.

Putin reiterou sua intenção de se tornar primeiro-ministro e liderar o governo de seu provável sucessor, Dmitri A. Medvedev, um político cuja carreira ele patrocinou. O presidente também sugeriu que Medvedev seguiria o curso estabelecido por ele.

"O presidente é quem garante a constituição", disse Putin. "Ele estabelece as principais direções para políticas internas e externas. Mas o mais alto poder executivo no país é o governo russo, liderado pelo premier."

Ele acrescentou que planeja ser primeiro-ministro durante todo o governo de Medvedev, desde que esteja cumprindo os objetivos fixados por ele mesmo.

A coletiva também mostrou como Putin continua a fazer sombra em Medvedev, sucessor que ele selecionou.

Apesar de a Rússia estar no meio da campanha presidencial oficial de um mês, há poucos sinais de confronto de idéias ou envolvimento público na escolha do próximo presidente da Rússia. E Putin não está longe do foco.

Na semana passada, ele falou aos legisladores da Rússia sobre sua visão para o país até o ano 2020. Na quinta-feira, ele ameaçou aumentar o tom de uma disputa com a Europa e os EUA sobre o futuro de Kosovo, que deve declarar sua independência na semana que vem, com o apoio do Ocidente.

A Rússia defendeu a Sérvia e se opôs à independência do Kosovo, ameaçando protestar no Conselho de Segurança da ONU e até reconhecer regiões rebeldes em Moldova e Geórgia.

"O tempo todo, eles nos dizem: Kosovo é um caso especial", disse Putin. "É tudo mentira. Não há caso especial, e todo mundo entende isso perfeitamente bem."

A coletiva, em formato de pergunta e resposta, é um evento anual no qual Putin muitas vezes demonstra seu conforto com o poder e um domínio dos detalhes de governo.

A platéia era uma mistura de repórteres russos, muitos elogiando abertamente o presidente russo, e jornalistas estrangeiros, vários deles pressionando-o em questões que alarmaram governos Ocidentais e minaram sua fama no exterior.

Putin deleitou-se com os elogios, mas pareceu alegrar-se com as críticas, que rebateu com uma mistura de respostas longas e arrogantes e insultos ocasionais.

Quando perguntado sobre a decisão dos monitores internacionais das eleições de não mandarem missões de observação para monitorar as eleições presidenciais, Putin desconversou.

Os monitores da Organização de Segurança e Cooperação na Europa concluíram que as eleições nas autocracias pós-soviéticas, inclusive a Rússia, em geral são fraudadas. E eles disseram que a Rússia impôs unilateralmente condições que tornaram impossível avaliar plenamente a atual campanha eleitoral.

Putin disse que a organização precisava ser reformada e sugeriu que os monitores pretendiam ensinar a Rússia como se tornar democrática.

"Deixe-os ensinar suas mulheres a fazer shchi", disse ele. Shchi é uma sopa popular russa de repolho.

Similarmente, Putin descartou uma observação da senadora Hillary Rodham Clinton, que disse que, como ex-oficial da KGB, Putin "não tem alma".

"No mínimo, uma autoridade deve ter cabeça", disse ele.

Putin também mostrou irritação quando perguntado sobre as reportagens em jornais ocidentais acusando-o de usar o cargo para acumular fortuna pessoal. Tais reportagens, disse ele, saíram "do nariz de alguém".

A coletiva alternava entre esses momentos ocasionalmente escaldantes e outros nos quais Putin, respondendo questões de muitos jornalistas russos que abertamente o admiravam, estava à vontade e era tratado com fidelidade.

Uma jovem observou que era dia dos namorados e perguntou se Putin recebera um presente especial.

Putin disse que estivera ocupado fazendo seus exercícios matinais e preparando-se para a conferência e ainda não tinha recebido presentes. A repórter então sorriu e disse que ela mesma gostaria de dar a ele um cartão, e ele a convidou a passá-lo pela multidão. Deborah Weinberg

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