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16/02/2008

Krugman: Uma crise de fé

The New York Times
Paul Krugman
Há uma década, durante a última crise financeira global, a palavra na boca de todos era "contágio". Problemas que começaram em um país distante do qual a maioria das pessoas não sabe nada (Tailândia) acabaram se espalhando para países maiores sem nenhuma ligação óbvia com o Sudeste Asiático, como a Rússia e o Brasil.

Hoje, nós estamos testemunhando outro tipo de contágio, não tanto entre países mas entre mercados. Os problemas que começaram há pouco mais de um ano em um canto obscuro do sistema financeiro, os títulos apoiados por hipotecas subprime (de risco) BBB-menos, se espalharam para os títulos corporativos, financiamento de automóveis, cartões de crédito e agora -a mais recente baixa- o crédito estudantil.

De fato, nesta semana o Estado de Michigan suspendeu um grande programa de crédito estudantil devido ao colapso súbito de outro mercado de US$ 300 bilhões do qual você nunca ouviu falar, o mercado de títulos auction-rate (título de taxa variável com dividendo redefinido por leilão).

Por que a crise que teve início com o financiamento para um grupo limitado de compradores de imóveis residenciais acabou abalando tanto o sistema financeiro? Porque, no final, é mais do que uma crise subprime, é mais do que uma crise imobiliária. É uma crise de fé.

Eu sei que soa dramático. Mas, me permita falar sobre o que acabou de acontecer com os títulos auction-rate.

Como muitas das inovações financeiras que agora estão sendo questionadas, os títulos auction-rate são acordos complicados que parecem oferecer algo em troca de nada.

Eles pareciam oferecer aos tomadores de empréstimo -geralmente governos locais ou agências semigovernamentais, como a Autoridade Portuária de Nova York e Nova Jersey e à Autoridade de Crédito Estudantil para Ensino Superior de Michigan- uma forma de tomar empréstimos a longo prazo sem pagar as taxas de juros relativamente altas que os investidores geralmente exigem de empréstimos a longo prazo.

Ao mesmo tempo, eles pareciam oferecer aos investidores um ativo que era tão bom quanto dinheiro -prontamente disponível sempre que necessário- mas pagando taxas de juros mais altas do que para os depósitos bancários.

A palavra principal nisto tudo é, é claro, "parecia".

Os títulos auction-rate pareciam tão bons quanto dinheiro porque envolviam leilões regulares, realizados até uma vez por semana, no qual os investidores que desejavam vender suas posições o faziam para investidores desejando adquiri-las. Em princípio, sempre é possível que leilões fracassem por falta de compradores suficientes -mas isto supostamente nunca aconteceria.

Enquanto isso, esses títulos pareciam um bom negócio para os tomadores de empréstimos, apesar de conterem uma cláusula de penalidade: em caso de fracasso de um leilão, a taxa de juro paga pelo tomador aumentaria. (A Autoridade Portuária, que enfrentou um leilão fracassado na semana passa, viu a taxa que paga saltar de 4,3% para 20%.) Está vendo, supostamente os leilões nunca deveriam fracassar, de forma que as penalidades nunca deveriam ser relevantes.

Agora, o que supostamente não deveria acontecer, aconteceu. Nas últimas semanas, uma série de leilões fracassou, deixando os investidores que achavam dispor de pronto acesso ao dinheiro sem acesso a ele, enquanto os tomadores se viram pagando as taxas de juros mais altas.

O colapso do mercado de títulos auction-rate não reflete problemas recém-descobertos com os tomadores: a Autoridade Portuária está financeiramente tão sólida hoje quanto há um mês. Em vez disso, é o contágio da crise de crédito mais ampla.

Um canal de contágio envolve as seguradoras de títulos, as companhias de seguro especializadas que supostamente garantem as dívidas. Estas empresas oferecem seguro para os compradores de títulos públicos de dívida contra perdas -mas também garantiram muitos investimentos ligados ao subprime, o que faz todos se perguntarem se elas realmente dispõem do dinheiro para compensar os perdedores em outros mercados.

Ainda mais importante é a forma como a crise financeira que se expande cada vez mais abalou a fé dos investidores em todo o sistema. As pessoas não mais confiam em garantias de que instrumentos financeiros complexos funcionarão da forma como deveriam -afinal, eles sabem o que aconteceu com as pessoas que achavam que seus títulos apoiados por hipotecas subprime eram investimentos seguros, com classificação AAA. Por que então deveriam acreditar que os títulos auction-rate são tão bons quanto dinheiro?

E a perda da confiança pode ser uma profecia que cumpre a si mesma. Agora que novos investidores não comprarão os títulos auction-rate por não mais acreditarem que são tão bons quanto dinheiro, estes títulos se tornaram um investimento muito pior.

Não é preciso dizer, tudo isto é ruim para a economia. Eu gosto de pensar no que está acontecendo como uma espécie de reprise em menor escala da crise bancária que varreu os Estados Unidos em 1930 e 1931. Investidores frustrados que não conseguem converter seus títulos auction-rate não são tão fotogênicos quanto as multidões iradas reunidas do lado de fora de bancos fechados, mas o princípio é o mesmo. Assim como os efeitos: mutuários não conseguem crédito e a economia sofre.

Uma medida simples da gravidade do problema do crédito é esta: apesar do Federal Reserve (o banco central americano) ter cortado acentuadamente a taxa de juros que controla nas últimas semanas, os custos dos empréstimos para muitas empresas e lares na verdade subiu.

E o contágio ainda está se espalhando. Qual mercado será o próximo? George El Khouri Andolfato

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