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19/02/2008

Discussão sobre o uso de véu na Turquia também reflete tensão entre classes sociais

The New York Times
Sabrina Tavernise
Em Istambul, Turquia
Quando viu duas mulheres de cabeça coberta em um restaurante italiano em um novo shopping da moda desta cidade neste mês, Gulbin Simitcioglu não acreditou.

Mulheres cobertas, há muito consideradas camponesas retrógradas, "começaram a aparecer em toda parte", e estão deixando as outras desconfortáveis. "Somos a imagem da Turquia. Estamos arruinando-a", disse Simitcioglu, vendedora de uma loja de roupas italiana.

Na medida em que a Turquia se aproxima do repúdio da proibição do uso de lenço de cabeça nas universidades, a classe média alta secular do país sente-se cada vez mais ameaçada.

Carolyn Drake/The New York Times 
Vendedores diante de lojas onde se vendem véus para cobrir a cabeça em Istambul, Turquia

Turcos religiosos, que certa vez foram uma subclasse da sociedade, tornaram-se uma classe média educada e estão se mudando para espaços urbanos que antes eram de domínio exclusivo da elite. Agora, o repúdio da proibição do lenço -sugerido pelo primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan, aprovado no parlamento e que está apenas esperando a assinatura oficial- está novamente colocando um grupo contra o outro, gerando temores que têm tanto a ver com a rivalidade de classes quanto com a influência crescente do islamismo.

Enquanto o debate público em geral gira em torno do islã e de quanto espaço deve ter na sociedade turca -uma preocupação legítima em um país cuja população é avassaladoramente muçulmana e profundamente conservadora- a luta pelo poder é uma parte evidente da tensão entre os dois grupos, mesmo que subentendida. As mulheres seculares falam com desdém das que se cobrem e dos bairros onde moram. Idosos abanam a cabeça e estalam a língua em desaprovação. Meninos gritam "voltem para o Irã".

Turcos fortemente seculares "não os vêem como seres humanos", diz Atilla Yayla, professora de filosofia política na Inglaterra referindo-se aos turcos religiosos. "Eles querem que evaporem, que desapareçam o mais rápido possível".

Essa postura veio à tona com a revogação pelo parlamento da proibição ao uso de lenço na cabeça nas universidades neste mês.

Um professor declarou que as universidades deveriam "fechar os portões até que os administradores do país voltem a ter bom senso". Outro argumentou que as alunas cobertas poderiam colar usando fones de telefone celular sob o lenço. A preocupação, disseram os turcos seculares, era que as mulheres cobertas nas universidades se graduassem e passassem a usar seus lenços em empregos públicos, transformando em religioso o Estado turco secular.

"Não tinha certeza antes, mas agora tenho: sua verdadeira intenção é trazer a shariah", disse um advogado de 32 anos em um Starbucks em um bairro da moda em Istambul.

Os turcos que defendem a suspensão da proibição fizeram analogias com a integração escolar nos EUA. Em um discurso no parlamento, Nursuna Memecan, deputada do partido de Erdogan, referiu-se a uma fotografia de 1957 de uma menina branca gritando com um estudante negro entrando na Little Rock Central High School, lembrando as desculpas da menina décadas depois.

"Há uma reação que talvez gere arrependimento", disse Memecan. Ela disse que os temores sobre a religiosidade crescente não tinham base. O número de turcos praticantes não está crescendo. Eles sempre existiram, mas não eram visíveis na sociedade educada.

"Não se sentavam conosco nos aviões", disse ela. "Não iam aos restaurantes. Temos que aprender a compartilhar o bolo com eles."

Hasan Bulent Kahraman, professor da Universidade de Sabanci em Istambul, disse: "As moças da limpeza usam lenços de cabelo, e ninguém diz nada. Mas se uma juíza quiser cobrir a cabeça, há todo um problema."

A Turquia, porém, é diferente dos EUA, argumentam os turcos seculares. A luta aqui não é pela cor da pele, mas por uma crença religiosa que quer impor uma ideologia, dizem. O islã dita regras para a vida diária, muitas das quais são limitantes para as mulheres, e as seculares acreditam que o crescimento do islã na Turquia inevitavelmente levará a uma sociedade menos livre para as mulheres.

"Associar o lenço de cabeça com liberdade soa um pouco cínico", disse Ayse Bugra, economista política na Universidade Bogazici em Istambul, "já que claramente é uma limitação da forma que tal mulher pode aparecer em público". As mulheres são "claramente inferiores" no islã, cujas regras limitam a herança das mulheres e permitem que os homens tenham várias esposas, ela argumenta, salientando que o presidente da Turquia, Abdullah Gul, conheceu ao 30 anos sua esposa Hayrunnisa, que tinha apenas 14.

"Se você perguntar a ela se escolheu livremente usar o lenço de cabeça? Ela dirá 'sim'. O que isso significa?"

A Turquia é uma das sociedades muçulmanas mais permissivas, resultante em parte da revolução secular de Mustafá Keman Ataturk, iniciada nos anos 20. Somente 10% da população era alfabetizada na época, e uma elite secular tomou controle da religião e deu direitos às mulheres. No entanto, os anos se passaram, e os turcos observantes tornaram-se educados e ricos, sem perder sua religião, viajando para fora e tomando parte na política.

Para as mulheres com lenços, entretanto, os bairros chiques às vezes intimidam. Muazzez Yildiz, vendedora de doces com túnica rosa e lenço de bolinhas, disse que se sentia "inferior, inconfortável, sem graça" em áreas em que era a única mulher de lenço.

Isso, em parte, porque as mulheres cobertas e descobertas das últimas gerações não se misturavam, disse Hediye Kose, 24, enquanto partia um pão em uma padaria. As mulheres cobertas são muito mais integradas hoje na sociedade do que suas mães, trabalhando na cidade e até freqüentando universidades.

"A maior parte das mulheres com lenço está fazendo alguma coisa que suas mães não faziam", disse Nil Mutluer, palestrante na Universidade Kadir Has em Istambul. "Há uma mudança na sociedade. Como definimos o que é moderno? Precisamos repensar esses termos."

De fato, as reações mais fortes à proibição parecem vir dos turcos mais velhos. Em um bairro de classe média no lado asiático da cidade, um artista mais velho gritou com uma senhora coberta em uma farmácia -culpando-a e a seu lenço- pelos problemas do país. Kose disse que as mulheres que a criticam por usar um lenço tendem a ter mais de 60 anos.

Uma porção considerável da sociedade secular não se sente confortável em limitar as liberdades, inclusive a de usar um lenço na cabeça, mas não acredita que Erdogan trabalhará duro para as outras comunidades como faz pela religiosa. A Turquia não tem uma tradição de tolerância e têm medo que turcos religiosos, agora se estabelecendo profundamente na burocracia, mudem as leis e usem o poder para beneficiar os turcos religiosos, em vez dos seculares.

"Uma forma islâmica de pensar pode trazer seu próprio autoritarismo", disse Burhan Senatalar, professor da Universidade Bilgi em Istambul. A sociedade já se tornou mais religiosa, argumentou, apontando para o florescimento das escolas religiosas estatais -fortemente defendidas pelo partido de Erdogan. O próprio Erdogan vem de uma formação de islamismo político, e memórias de seu discurso fortemente islâmico dos anos 90 deixaram os turcos seculares desconfiados de seus motivos.

Ainda assim, o temor do que pode acontecer no futuro não é razão para manter a proibição do lenço, disse Yildiray Ogur, editor de Taraf, jornal liberal.

"Não vejo argumentos verdadeiros", disse ele. "'Tenho medo, então estou certo'. Esse é o lema" da classe veementemente secular na Turquia hoje. "Você tem medo do totalitarismo, mas pode apoiá-lo hoje para impedi-lo no futuro."

Enquanto isso, as universidades turcas estão se preparando para a revogação final da proibição, que entrará em vigor depois de Gul sancioná-la nesta semana. O reitor da Universidade Técnica de Istambul, Faruk Karadogan, acha que vai haver confusão.

"O problema não é o lenço, é sua forma de pensar, suas mentes", disse das turcas observantes. "Se essa pessoa passou por tamanha lavagem cerebral, é muito difícil trazê-la de volta para a forma de pensar contemporânea."

A alguns prédios dali, porém, Ece Ulgen, 20, estudante de química cujos colegas incluem mulheres cobertas (elas vestem chapéus, perucas ou andam descobertas no campus), deu uma opinião diferente.

"Tenho muitos amigas que usam o lenço", disse ela. "Gosto da sua amizade. São inteligentes, espertas. Não são como as pessoas dizem: somente interessadas na religião e anti-científicas." Deborah Weinberg

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