UOL Notícias Internacional
 

19/02/2008

Eleitores paquistaneses esmagam partido de Musharraf

The New York Times
Carlotta Gal e Jane Perlez
Em Islamabad, Paquistão
Os paquistaneses proporcionaram uma derrota esmagadora ao presidente Pervez Musharraf nas eleições parlamentares de segunda-feira, no que políticos do governo e da oposição disseram ser uma firme rejeição às políticas dele desde 2001 e aos seus principais aliados, os Estados Unidos.

Quase todos os principais candidatos da PML-Q (Liga Muçulmana Paquistanesa-Quaid), o partido que governou nos últimos cinco anos sob Musharraf, perderam suas cadeiras, incluindo o líder do partido, o ex-presidente do Parlamento e seis ministros.

Os resultados oficiais deverão ser divulgados na terça-feira, mas as primeiras parciais indicaram que a votação deverá resultar em um primeiro-ministro de um dos partidos de oposição, abrindo a perspectiva de um Parlamento voltado a desfazer muitas das políticas de Musharraf e que possa até mesmo tentar removê-lo do poder.

Johan Spanner/The New York Times 
Homem vota em colégio de Peshawar durante as eleições parlamentares no Paquistão

A vantagem inicial era do Partido do Povo Paquistanês de oposição, que pareceu se beneficiar com a forte onda de solidariedade em reação ao assassinato de sua líder, Benazir Bhutto, em 27 de dezembro, e que poderá estar em posição de formar o próximo governo.

Os resultados foram interpretados aqui como um repúdio a Musharraf e ao governo Bush, que apoiou firmemente Musharraf por mais de seis anos como sua melhor aposta na campanha contra os militantes islâmicos no Paquistão. As autoridades americanas terão pouca escolha agora a não ser buscar aliados alternativos entre as novas forças políticas resultantes da eleição.

Políticos e funcionários do partido de Musharraf disseram que a votação foi um protesto contra as políticas do governo e ao aumento do terrorismo aqui, em particular contra a mão pesada empregada por Musharraf contra a militância e seu uso do exército contra os membros das tribos nas áreas de fronteira, e contra os militantes em um cerco na Mesquita Vermelha aqui na capital, no ano passado, que deixou mais de 100 pessoas mortas.

Outros disseram que o afastamento no ano passado do ministro-chefe da Suprema Corte, Iftikhar Muhammad Chaudhry, que permanece sob prisão domiciliar, foi um ato de Musharraf profundamente impopular junto aos eleitores.

Musharraf, que deixou o posto de chefe do exército em novembro, após ser reeleito para mais cinco anos como presidente, viu sua aprovação despencar à medida que o país se viu diante de uma insurreição determinada, comandada pelo Taleban e pela Al Qaeda, e da deterioração da economia.

Por associação, seu partido sofreu. Os dois principais partidos de oposição -o Partido do Povo Paquistanês e a Liga Muçulmana Paquistanesa-Nawaz, do ex-primeiro-ministro Nawaz Sharif- ocuparam o espaço.

No início da noite de segunda-feira, multidões de simpatizantes de Sharif já começavam a celebrar enquanto desfilavam pelas ruas de Rawalpindi, uma praça forte vizinha da capital, Islamabad. Montados em motocicletas e na traseira de minivans, eles tocavam música e acenavam as bandeiras verdes do partido de Sharif decoradas com o símbolo do partido, um tigre.

A partir de resultados não oficiais, o canal de televisão privado de notícias "Aaj", previu que o Partido do Povo Paquistanês conquistaria 110 das 272 cadeiras da Assembléia Nacional, com o partido de Sharif ficando com 100 cadeiras.

O partido de Musharraf, a Liga Muçulmana Paquistanesa-Quaid, foi esmagado, ficando com apenas 20 a 30 cadeiras. Os resultados parciais divulgados pela agência de notícias do Estado, a Associated Press do Paquistão, também mostrou o Partido do Povo Paquistanês na dianteira em número de cadeiras conquistadas.

A Comissão Eleitoral do Paquistão declarou que as eleições foram livres e justas, assim como disse que a votação ocorreu em relativa tranqüilidade, apesar de algumas irregularidades e violência esporádica. Dez pessoas morreram e 70 ficaram feridas em violência ao redor do país, incluindo um candidato que foi baleado em Lahore na noite que antecedeu a eleição, informaram os canais de notícias do Paquistão.

Com medo da violência e dissuadidos com a confusão nos locais de votação, os eleitores não compareceram em grande número. Mas os temores dos partidos de oposição de que o governo tentaria manipular as eleições não se concretizaram, como mostraram os resultados iniciais.

Os resultados oficiais são esperados para a manhã de terça-feira, mas todas as partes já aceitavam a tendência anti-Musharraf na votação.

Na sede do xeque Rashid Ahmed, o ministro das ferrovias e um amigo do presidente, seus partidários se sentavam desanimados em cadeiras sob um toldo, escutando os vivas de seus oponentes. "O Q está liquidado", disse Tahir Khan, 21 anos, um dos funcionários do partido, se referindo ao partido de Musharraf.

Funcionários do partido disseram que Ahmed, que estava entre os ministros que perderam suas cadeiras, era popular, mas que sofreu com o imenso voto de protesto contra Musharraf e sua facção de governo.

Os resultados abriram uma nova série de desafios para o governo Bush, que tem sido criticado no Congresso e por analistas paquistaneses como tendo se apoiado demais em Musharraf. Mesmo enquanto a aprovação de Musharraf despencava e a insurreição ganhava força, altos funcionários do governo Bush elogiavam Musharraf como parceiro valoroso no esforço contra o terrorismo.

Com Musharraf tanto como presidente quanto chefe das forças armadas paquistanesas -um posto do qual abriu mão em novembro passado- o governo destinava cerca de US$ 1 bilhão por ano em assistência militar ao Paquistão depois dos ataques terroristas nos Estados Unidos em 2001.

Depois que Musharraf se afastou do exército, o governo Bush ainda continuou lhe dando apoio inequívoco. No mês passado, o secretário adjunto de Estado para Sul da Ásia, Richard A. Boucher, disse ao Congresso que considerava o líder paquistanês como indispensável para os interesses americanos.

Tal fidelidade para com Musharraf freqüentemente irritava os paquistaneses, e os jornais locais estão repletos de editoriais expressando desespero com o relacionamento estreito entre Washington e o líder impopular.

Muitos paquistaneses educados disseram ter se irritado com o fato do governo Bush ter optado por ignorar o afastamento do ministro-chefe da Suprema Corte, em novembro, por Musharraf.

O derrota da Liga Muçulmana Paquistanesa-Quaid que apoiava Musharraf pareceu confirmar a posição do presidente do Comitê de Relações Exteriores do Senado, Joseph R. Biden, democrata de Delaware, que é um crítico da política do governo em relação ao Paquistão.

Em sua chegada no domingo para observar as eleições, Biden disse: "Eu não aceito o argumento de que Musharraf é o único. Nós temos que ter mais do que apenas uma política pró-Musharraf".

Como ponto de partida para uma nova política, Biden disse que os Estados Unidos precisam mostrar aos paquistaneses que Washington está interessado em mais do que a campanha contra o terrorismo. Ele disse que proporá que a ajuda para desenvolvimento econômico seja triplicada para US$ 1,5 bilhão ao ano.

Mas Washington poderia buscar certo conforto nas perdas dos partidos religiosos islâmicos na Província da Fronteira Noroeste, que fica ao lado das áreas tribais onde o Taleban e a Al Qaeda estabeleceram bases.

O maior golpe contra Musharraf veio com a forte onda de apoio na província do Punjab, a mais populosa do país, a Sharif, que é um rival amargo desde que seu governo foi derrubado por Musharraf em um golpe militar em 1999, quando foi preso e enviado para o exílio.

Sharif voltou em novembro passado e, apesar de proibido de concorrer ao Parlamento, fez campanha em prol de seu partido com uma agenda abertamente anti-Musharraf, pedindo a renúncia do presidente e o retorno de Chaudhry e outros juízes da Suprema Corte.

Ressaltando a reversão para Musharraf foi a queda da poderosa família Chaudhry do Punjab, que apoiou sua carreira política ao criar o partido Liga Muçulmana Paquistanesa-Quaid para ele.

"O mito foi quebrado; foi uma imensa onda contra Musharraf", disse Athar Minallah, um advogado envolvido no movimento dos advogados anti-Musharraf. "Seu partido foi derrotado em toda parte, nas áreas urbanas e rurais. As margens são tão grandes que não poderiam manipular o resultado mesmo se tentassem."

Poucas horas depois do tamanho da derrota se tornar claro, o governo aliviou as restrições contra Aitzaz Ahsan, o líder do movimento dos advogados que faz oposição ao presidente. Ahsan, que estava sob prisão domiciliar desde novembro, quando Musharraf impôs o estado de emergência por seis semanas, descobriu que os telefones de sua casa repentinamente foram religados.

"Musharraf deve estar preparando um C-130 rumo a Turquia", disse Ahsan, se referindo à declarações de Musharraf de que poderia se aposentar na Turquia, onde passou parte de sua infância.

Dois políticos ligados a Musharraf disseram na semana passada que o presidente estava ciente da corrente contra ele no país e sugeriram que ele não permaneceria na presidência caso o novo governo se opusesse diretamente a ele.

"Ele não tem mais disposição para outra luta", disse um membro do seu partido. Ele acrescentou que Musharraf estava construindo uma casa em Islamabad e que em breve estaria pronto para se mudar.

* Reportagem de Carlotta Gal, em Islamabad, Paquistão, e Jane Perlez, em Lahore. David Rohde, em Peshawar, e Salman Masood, em Rawalpindi, contribuíram com reportagem adicional. George El Khouri Andolfato

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