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19/02/2008

Krugman: a pobreza é um veneno

The New York Times
Paul Krugman
"A pobreza na primeira infância envenena o cérebro". Esta foi a abertura de um artigo publicado no "Financial Times" do último sábado, sintetizando a pesquisa apresentada na semana passada na Associação Americana para o Avanço da Ciência.

Conforme explicou o artigo, os neurocientistas descobriram que "muitas crianças criadas em famílias muito pobres e com baixo status social apresentam níveis de hormônios relacionados ao estresse prejudiciais à saúde, o que prejudica o desenvolvimento neural". O efeito disso é um prejuízo para o desenvolvimento da linguagem e para a memória - e, portanto, para a habilidade de escapar da pobreza - pelo resto da vida da criança.

Portanto agora nós temos mais uma razão, ainda mais convincente, para nos envergonharmos do fato de os Estados Unidos terem fracassado na luta contra a pobreza.

Lindon Baines Johnson declarou a sua "Guerra contra a Pobreza" 44 anos atrás. Ao contrário do que diz a lenda cínica, houve de fato uma redução da pobreza nos anos seguintes, especialmente entre as crianças, cujo índice de pobreza caiu de 23% em 1963 para 14% em 1969.

Mas a seguir o progresso empacou: os políticos norte-americanos inclinaram-se para a direita, a atenção deslocou-se do sofrimento dos pobres para os supostos abusos cometidos pelas rainhas do welfare (programa de bem-estar social) que dirigiam Cadillacs. Assim, a luta contra a pobreza foi em grande parte abandonada.

Em 2006, 17,4% das crianças dos Estados Unidos viviam abaixo da linha da pobreza, um número substancialmente mais elevado que o de 1969. E até mesmo esta estatística provavelmente não reflete a verdadeira intensidade da miséria de muitas crianças.

Viver em estado de pobreza, ou próximo a ele, sempre foi uma forma de exílio, uma maneira de ser amputado da parcela maior da sociedade. Mas a distância entre os pobres e o resto de nós é muito maior do que há 40 anos, porque a renda da maioria dos norte-americanos subiu em termos reais, enquanto a linha de pobreza oficial permaneceu estacionária. Ser pobre nos Estados Unidos de hoje, mais ainda do que no passado, significa ser um pária no seu próprio país. E é isso que, segundo nos dizem os neurocientistas, envenena o cérebro infantil.

O fracasso norte-americano no que se refere a progressos na redução da pobreza, especialmente entre as crianças, deveria provocar bastante auto-análise. Infelizmente, em vez disso este fato muitas vezes parece provocar uma grande criatividade quando se trata de apresentar desculpas.

Algumas dessas desculpas assumem a forma de afirmações de que os pobres norte-americanos não são de fato pobres - uma alegação que sempre me faz indagar se aqueles que a fazem assistiram a televisão durante o furacão Katrina, ou se sequer olharam à sua volta quando visitavam uma grande cidade norte-americana.

Porém, as desculpas relativas à pobreza envolvem principalmente a afirmação de que os Estados Unidos são uma terra de oportunidade, um lugar no qual as pessoas podem começar pobres, trabalhar duro e tornarem-se ricas.

Mas o fato é que histórias do estilo Horatio Alger são raras, enquanto aquelas de pessoas aprisionadas pela pobreza dos pais são bastante comuns. Segundo uma recente estimativa, filhos norte-americanos de pais que se encontram na parcela da população correspondente aos 25% mais pobres têm uma probabilidade de quase 50% de permanecer nesta faixa. Caso sejam negros esta probabilidade é de 67%.

Isso não é motivo de surpresa. Ser criado na pobreza faz com que o indivíduo fique em desvantagem em todas as etapas.

Eu cotejei estes novos estudos sobre o desenvolvimento do cérebro na primeira infância com um outro feito pelo Centro Nacional de Estatísticas de Educação, que acompanhou um grupo de estudantes que estavam na oitava série em 1988. De forma geral, o estudo revelou que nos Estados Unidos de hoje a classe social dos pais sobrepuja a capacidade dos filhos: os alunos que saíram-se bem em um teste padronizado, mas que vieram de famílias de baixa renda, apresentaram uma probabilidade ligeiramente menor de terminar a universidade do que aqueles que tiveram um fraco desempenho no teste, mas que eram filhos de pais ricos.

Nada disso é inevitável.

Os índices de pobreza são bem mais baixos na maior parte dos países europeus do que nos Estados Unidos, principalmente devido aos programas governamentais que ajudam os pobres e os desafortunados.

E os governos que mostram disposição podem reduzir a pobreza. No Reino Unido, o governo trabalhista que assumiu o poder em 1997 fez da redução da pobreza uma prioridade - e apesar de algumas derrotas, o seu programa de subsídios de renda e de outros auxílios apresentou grandes resultados. A pobreza infantil, em particular, foi reduzida pela metade, segundo as estatísticas que mais correspondem à definição norte-americana.

No momento é difícil imaginar algo comparável acontecendo neste país. Vale reconhecer o mérito tanto de Hillary Clinton quanto de Barack Obama por estarem propondo novas iniciativas contra a pobreza - e também o mérito de John Edwards, que os incitou a fazer isso. Mas as propostas dos dois são modestas em magnitude e estão longe de se constituírem no cerne de suas campanhas.

Não os estou culpando por isso. Caso um progressista vença esta eleição, isso terá ocorrido porque o candidato aliviou a ansiedade da classe média, e não porque ajudou os pobres. E, por diversas razões, o sistema de saúde, e não a pobreza, deve ser a primeira prioridade de um governo democrata.

Mas torçamos para que no fim das contas a nação retorne à tarefa que abandonou: a de acabar com a pobreza que ainda envenena a vida de tantos norte-americanos. UOL

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