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20/02/2008

Futuro de Cuba é incerto após saída de Fidel Castro

The New York Times
Anthony DePalma*

Em Havana
Fidel Castro, acamado há 19 meses, renunciou na terça-feira ao poder quase ilimitado que exerceu em Cuba por quase 50 anos, mas se o anúncio surpresa representou uma mudança histórica ou uma manobra política simbólica, continua incerto.

É esperado que seu irmão Raúl, 76 anos, será nomeado oficialmente presidente, e alguns especialistas o consideram mais pragmático. Raúl Castro falou sobre promover mais responsabilidade no governo e sobre a possibilidade de melhorar as relações com os Estados Unidos. Mas desde que assumiu interinamente, em meados de 2006, ele tem atuado basicamente à sombra do irmão e, exceto pela facilitação de imenso investimento estrangeiro por empreendedores de resort canadenses e europeus, ele promoveu pouca mudança.

Segundo a Constituição de Cuba, um corpo legislativo recém escolhido, chamado de Assembléia Nacional, deverá selecionar no domingo um Conselho de Estado composto por 31 membros. Por sua vez, o novo conselho escolherá o próximo presidente. Fidel Castro disse que não aceitaria o posto mesmo se fosse oferecido a ele.

Em uma carta lida nos programas matinais de rádio e televisão por todo o país, Fidel, 81 anos -que parece frágil nos poucos vídeos divulgados pelo governo cubano- disse estar doente demais para permanecer como chefe de Estado e que não ficará no caminho de outros que estejam prontos para assumir, um sentimento que ele expressou pela primeira vez em dezembro passado.

Especialistas em política cubana disseram que a decisão sobre um sucessor permanecerá nas mãos dos irmãos Castro e de seu círculo interno, muitos dos quais detentores de cargos ministeriais. Ainda assim, outros dizem ser possível que um presidente mais jovem possa ser escolhido ou que os cargos de primeiro-ministro e presidente possam ser divididos entre Raúl Castro e um dos ministros.

Não ficou claro que papel, se é que terá algum, Fidel Castro exercerá no novo governo, ou se ele manterá alguma outra posição de poder, incluindo a de chefe do Partido Comunista. Mas ele sinalizou que ainda não está pronto para sair completamente de cena.

Nem mesmo é certo que Fidel estava com saúde suficiente para escrever uma carta de renúncia. Surgiram dúvidas sobre o estado de sua saúde e se poderia ter escrito a série de ensaios publicados ao longo do último ano e meio no "Granma", o jornal do Partido Comunista.

"Eu não estou dizendo adeus para vocês", disse Fidel na carta que levava seu nome e endereçada ao povo de Cuba. "Eu apenas desejo combater como um soldado de idéias."

A confusão entre os analistas tanto em Cuba quanto nos Estados Unidos sobre a extensão com que Fidel Castro se afastará das operações cotidianas do governo ou continuará exercendo poder nos bastidores foi refletida na variedade de opiniões das pessoas, nas praias de luxo no resort de Varadero até o parque central da Velha Havana.

Havia pouca evidência nas ruas da capital e de outras cidades que sugerisse que uma mudança monumental está ocorrendo na hierarquia cubana. Mas isto pode ser motivado pela experiência cumulativa de 50 anos de esforços de segurança para tornar manifestações abertas improváveis.

O principal dissidente de Cuba tentou diminuir as expectativas.

"Isto não é novidade", disse o dissidente, Elizardo Sanchez, em uma entrevista por telefone, após tomar conhecimento por meio de amigos que Fidel Castro estava cedendo o poder. "Era esperado e não muda nada a situação de direitos humanos, que permanecerá desfavorável, nem colocará um fim ao Estado de partido único. Não há motivo para celebrar."

O ritmo da vida cotidiana cubana prosseguia.

Em Varadero, funcionários recolhiam o lixo e limpavam as piscinas como normalmente fazem. Na estrada, trabalhadores pintavam as barreiras de branco.

Na cidade litorânea de Matanzas, Eliana Lopez, uma fiscal de transportes de 55 anos que soube da notícia a caminho do trabalho, disse que espera que a revolução continue, com a mudança ocorrendo de forma lenta mas certa. "Não há surpresa", disse Lopez. Ela acrescentou: "Esta é a decisão correta", se referindo à declaração de Fidel.

Em Havana, uma geração mais velha de cubanos que mantém sua admiração por Fidel Castro e sua revolução, apesar da condição decadente da capital, estava desapontada. Alba, uma enfermeira aposentada de 67 anos que, como muitos cubanos, teve medo em dizer seu nome completo, disse para a agência de notícias "France Presse" que esperava que Fidel seria presidente por toda a vida e que "morreria no cargo".

Mas membros da geração mais jovem, cansados do que consideram promessas vazias de uma vida melhor que nunca se materializou, disseram esperar que ocorram mudanças significativas, apesar de suas esperanças se basearem mais em desejo do que em uma avaliação realista da situação política.

"Demorou, mas ele finalmente disse e é uma notícia fantástica", disse Armando, um estudante de 28 anos que disse que já era hora de Fidel abrir mão do poder.

E há muitos cubanos como Evelyn, 45 anos, que nem comemorou e nem chorou com a notícia da saída de Castro.

"Eu nem estou surpresa e nem me sinto triste", disse Evelyn. "Todos sabiam que ele renunciaria. Fidel é um atleta da política. Ele sabe o que faz."

Ao tentar avaliar o futuro, analistas apontam para sinais de que Raúl Castro tem uma postura mais pragmática.

Como presidente em exercício, ele encorajou mais debate sobre as dificuldades econômicas de Cuba, patrocinou uma série de reuniões locais para permitir que as pessoas se manifestassem livremente sobre seus problemas econômicos e sobre as restrições aos direitos de viagem.

Ele também abordou questões nunca tratadas por seu irmão. Ele criticou os agricultores por serem ineficientes. Ele também criticou o alto custo do leite. Ele reconheceu que os salários oficiais que o governo cubano paga são terrivelmente baixos e que não atendem às necessidades mínimas de uma família. Ele criticou o grau de corrupção na sociedade, até mesmo permitindo que os jornais controlados pelo Estado publicassem artigos investigativos sobre saques e má administração em muitas empresas estatais.

O Castro mais jovem também tem uma reputação como administrador que exige resultados de seus ministros. Diferente de Fidel, que gosta de cuidar de cada detalhe do governo pessoalmente, Raúl delega autoridade e cobra seus ministros.

Após décadas em que o controle do governo por Fidel parecia inquebrável, incertezas surgiram em julho de 2006. Fidel, sofrendo de um mal abdominal não revelado, foi submetido a uma cirurgia de emergência e transferiu temporariamente o poder para Raúl.

Na carta de terça-feira, que também foi publicada no "Granma", Fidel disse que não quis renunciar antes para evitar desferir um golpe contra o governo cubano antes do povo estar pronto para uma mudança traumática "em meio ao combate" com os Estados Unidos pelo controle do futuro do país.

"Preparar as pessoas para minha ausência, psicológica e politicamente, era minha primeira obrigação após tantos anos de luta", ele disse. Mais de 70% do povo cubano nasceu após ele ter tomado o poder em 1959.

O presidente Bush, o 10º presidente americano a duelar com Fidel, tentou reforçar o antigo embargo americano e aumentar a pressão internacional sobre Cuba durante seu mandato, restringindo visitas a parentes a cada três anos e limitando o valor da remessa de dinheiro que os cubano-americanos podem enviar para parentes em Cuba.

Bush, em Ruanda em meio a uma visita a países africanos, reagiu à decisão de Castro de ceder o poder dizendo que a renúncia deveria ser o início da transição democrática em Cuba, levando a eleições livres. "Os Estados Unidos ajudarão o povo de Cuba a perceber as bênçãos da liberdade", ele disse.

Bush pediu que Cuba liberte os prisioneiros políticos e comece a construir "as instituições necessárias para a democracia, que no final levarão a eleições livres e justas".

Analistas nos Estados Unidos disseram que mesmo após a morte de Fidel Castro, Raúl Castro, como presidente, ainda permaneceria sob imensa pressão para manter o legado do irmão, trabalhando ao mesmo tempo para rompê-lo e fornecer um grau de liberdade política e econômica para o povo cubano.

Se a Assembléia Nacional selecionar inesperadamente no domingo outra pessoa que não Raúl Castro -os nomes do presidente da Assembléia, Ricardo Alarcon, do vice-presidente Carlos Lage e do ministro das Relações Exteriores, Felipe Perez Roque, são mencionados com freqüência- isto poderia ser um sinal de que Cuba está mais disposta a acelerar as mudanças do que o que se acredita, incluindo um melhor relacionamento com Washington.

Os Estados Unidos declararam repetidas vezes que não negociarão com qualquer governo cubano chefiado tanto por Fidel quanto por Raúl Castro.

* James C. McKinley Jr., na Cidade do México, e Marc Lacey, em Cancún, México, contribuíram com reportagem. George El Khouri Andolfato

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