UOL Notícias Internacional
 

20/02/2008

Parlamentares paquistaneses prometem nova tática para lidar com fundamentalistas

The New York Times
Carlotta Gall e Jane Perlez*
Em Islamabad
Os vitoriosos nas eleições parlamentares paquistanesas disseram na terça-feira (19/02) que adotarão uma nova abordagem para combater os militantes fundamentalistas islâmicos - buscando mais o diálogo do que o confronto militar -, que acabarão com as medidas repressivas contra a imprensa e que restaurarão a independência do judiciário.

Perto do final da contagem dos votos da eleição de segunda-feira, com a indicação de que conquistarão a maioria das cadeiras no parlamento, o partido da líder oposicionista assassinada, Benazir Bhutto, liderado pelo seu viúvo, Asif Ali Zardari, deixou claro que uma nova ordem política prevalecerá no Paquistão.

Zardari, o líder do Partido dos Povos do Paquistão, disse que o novo parlamento reverterá várias das políticas impopulares que geraram intensos votos de protesto contra o presidente Pervez Musharraf e o seu partido.

Liu Jin/AFP 
Simpatizantes do ex-primeiro-ministro Nawaz Sharif comemoram resultado das eleições

Autoridades do governo Bush disseram que os Estados Unidos ainda gostariam que os líderes oposicionistas paquistaneses encontrassem uma forma de trabalhar com Musharraf, um aliado leal por mais de seis anos, mas admitiram que tal cenário parece cada vez mais improvável.

Embora Zardari afirme desejar um governo de consenso nacional, ele descartou trabalhar com qualquer pessoa do governo anterior liderado por Musharraf. Em vez disso, ele afirmou que está dialogando com o líder do outro principal partido de oposição, Nawaz Sharif, cuja agremiação ficou em segundo lugar, no intuito de formar uma coalizão.

Embora a vitória estrondosa dos dois partidos tenha sido bem recebida de forma geral no Paquistão, pairam sobre esta eleição as memórias dos fracassos de governos civis na década de 1990. As autoridades norte-americanas estão particularmente céticas com relação a Zardari, que foi acusado de corrupção no Paquistão e no exterior, e que só chegou à sua atual posição de liderança devido à morte da sua mulher.

Sharif foi primeiro-ministro duas vezes na década de 1990, e foi alvo de diversas acusações de corrupção após ser derrubado por Musharraf em um golpe de Estado. Sharif anunciou rapidamente várias condições para se juntar à coalizão. Entre elas estão o impeachment de Musharraf e a restauração do chefe do tribunal superior e de outros juízes da Suprema Corte suspensos pelo presidente em novembro passado.

Zardari foi menos categórico, não tendo, por exemplo, pedido o impeachment de Musharraf. A luta para acabar com o regime militar e restaurar a democracia é uma longa e penosa batalha, disse ele. "Temos que dar passos suaves e curtos", afirmou ele em uma coletiva de imprensa na sua casa na capital, na terça-feira, após uma reunião de 50 dirigentes do partido.

Mesmo assim, a primeira ordem será a de acabar com as restrições impostas à mídia e restaurar a independência do judiciário, anunciou ele. Mas Zardari não pediu especificamente que o chefe do tribunal superior e os seus colegas fossem reempossados. Devido às acusações de corrupção que ainda pesam sobre Zardari no Paquistão, não se sabe se ele teria interesse em reempossar esses indivíduos.

Embora tenha pouca experiência quanto a tais questões, Zardari criticou as políticas anti-terroristas de Musharraf, afirmando que o general presidente fez um jogo duplo que provocou um aumento da militância. "Sentimos que esse governo está ao mesmo tempo correndo com a lebre e caçando com os lebréus", criticou Zardari.

Os dois partidos oposicionistas compartilham as mesmas idéias sobre como lidar com o problema do terrorismo. É mais provável que a nova abordagem esteja mais sintonizada com a visão consensual da população paquistanesa do que a abordagem de Musharraf. Assim, a nova política consistiria em evitar a truculência militar e apelar para o diálogo com os militantes.

Zardari anunciou que o seu partido procurará dialogar com os militantes nas áreas tribais ao longo da fronteira com o Afeganistão, onde o Taleban e a Al Qaeda instituíram um reduto, bem como com os militantes nacionalistas que lutam contra o exército paquistanês na província do Baluquistão.

Muitos no Paquistão, incluindo diversos partidos que boicotaram as eleições, têm se oposto vigorosamente ao fato de Musharraf usar o exército para combater os membros das tribos em nome da guerra contra o terrorismo, algo que é visto como um plano norte-americano.

"Dialogaremos com aqueles que estão nas montanhas e com os que não se encontram no parlamento", afirmou Zardari. "Queremos conversar com todos aqueles que neste momento posicionam-se e trabalham contra o Paquistão".

Alguns analistas vêem oportunidades para os Estados Unidos caso um novo governo civil seja capaz de persuadir os paquistaneses a apoiar a luta contra os fundamentalistas. Mas tentativas anteriores de lidar com os fundamentalistas só os tornaram mais fortes, e qualquer política muito reconciliadora provavelmente gerará preocupações em Washington.

O general Jehangir Karamat, um ex-chefe do Estado Maior do exército paquistanês, afirmou que a eleição de um novo governo deverá ajudar os Estados Unidos, caso Washington deseje trabalhar com forças moderadas.

"Essa é uma oportunidade para rejuvenescer toda esta relação", opinou Karamat. "O que estamos vendo no decorrer destas eleições são forças moderadas e liberais, o que é ótimo".

Outros analistas concordam. Segundo Shuja Nawaz, analista de assuntos militares paquistaneses que mora em Washington, a emergência de um parlamento moderado deverá constituir-se em boas novas para os Estados Unidos.

"Se a partir de agora o parlamento tiver mais força do que antes no processo de tomada de decisões, os Estados Unidos ficarão satisfeitos, já que não precisarão implorar e bajular o Paquistão para que este aja de acordo com os seus interesses na luta contra os terroristas", disse Nawaz.

Mas os resultados fazem com que o governo Bush, que inclinava-se bastante na direção de Musharraf, empenhe-se para encontrar novos parceiros na campanha contra os militantes fundamentalistas islâmicos na região. Acredita-se que a eleição de um parlamento hostil marginalize ainda mais o presidente, ou que até mesmo resulte na sua deposição, em um país no qual o poder tradicionalmente está nas mãos dos primeiros-ministros ou dos chefes militares que os derrubam.

Os resultados das eleições, que estavam quase completos, mostravam o Partido dos Povos do Paquistão, de Zardari, com 87 das 268 cadeiras disputadas na assembléia nacional, e o partido de Sharif, a Liga Muçulmana Paquistanesa, com 66 cadeiras.

O ex-partido governista que apoiava Musharraf,conhecido como a "facção Q" da Liga Muçulmana Paquistanesa, obteve apenas 38 cadeiras. Esta foi uma derrota acachapante para o partido, que viu pelo menos dez dos seus ministros e altas lideranças perderem as suas cadeiras.

As outras cadeiras, das 268 disputadas na eleição, ficaram divididas entre sete partidos e facções menores e 27 candidatos independentes. Segundo a Comissão Eleitoral, os ocupantes de dez cadeiras ainda não foram definidos.

Zardari elogiou os resultados, afirmando que estes são a prova da popularidade do seu Partido dos Povos do Paquistão. O partido obteve cadeiras em todas as quatro assembléias provinciais, e encontra-se em uma posição que lhe permite participar de governos de três dessas províncias. "Acreditamos que nenhum outro partido conte com a liderança e a capacidade para tirar o Paquistão desta situação difícil", afirmou ele.

Musharraf disse a senadores dos Estados Unidos em visita ao Paquistão que aceitou os resultados eleitorais e a derrota do seu partido, e que trabalhará em conjunto com qualquer coalizão governamental que venha a ser criada.

Mas Zardari e Sharif têm motivos para nutrir rancores. Zardari, que só retornou do exílio após a morte de Bhutto, passou oito anos na prisão devido a acusações de assassinato e corrupção durante o governo de Sharif. À época, Musharraf era o comandante do exército.

Sharif foi deposto em 1999 por Musharraf, que organizou um golpe e a seguir prendeu e exilou o ex-líder. Muitos paquistaneses concordam que os governos de Bhutto e de Sharif não foram lá essas coisas. Ambos caracterizaram-se por inúmeros casos de corrupção.

Nem Zardari, que jamais ocupou um cargo obtido por votos, nem Sharif disputaram eles próprios cadeiras no parlamento, e portanto não podem assumir imediatamente o cargo de primeiro-ministro. Porém, acredita-se que Zardari concorrerá a uma cadeira para qualificar-se para o cargo, e que Sharif fará o mesmo.

Por ora, o vice-líder do Partido dos Povos do Paquistão, Makhdoom Amin Fahim, é um candidato a primeiro-ministro. No entanto, a escolha dependerá certamente da coalizão a ser formada.

Zardari enfrenta oposição e desconfiança no seu partido, e não se sabe como transcorreriam as negociações entre ele e Sharif. As conversações, que deverão ter início nos próximos dias, provavelmente serão prolongadas.

Embora não conte com experiência de governo, durante uma entrevista na semana passada Zardari falou sobre as opções do Paquistão em relação aos militantes. Ele disse que a guerra contra o terrorismo precisa ser inteiramente redefinida no Paquistão. Segundo ele, a guerra precisa ser mais bem explicada ao povo de forma que este entenda que o Paquistão não está empenhado em uma luta para os norte-americanos, mas sim enfrentando uma ameaça à própria nação.

Zardari afirmou que Musharraf perdeu apoio popular para a campanha e que a moral do exército despencou, e assegurou que somente um governo popularmente eleito que conte com o apoio do parlamento poderá reverter tal situação.

Ele acrescentou que uma contra-insurgência deve ser movida pela polícia nas áreas tribais, e que o Paquistão precisa treinar e equipar as suas forças policiais para a contenção de grande parte da criminalidade. Segundo ele, o exército é um instrumento duro e só deve ser usado de forma seletiva, de forma que os fundamentalistas fiquem temerosos do seu poder.

* Janes Perlez, de Lahore, e Carlota Gall e Salman Masood, de Islamabad, contribuíram para esta matéria. UOL

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