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21/02/2008

Os meninos que nos perdoem, mas quem manda na Internet são as garotas

The New York Times
Stephanie Rosembloom
O gênio de computação típico da imaginação popular -homem pálido de óculos- não correspondeu a sua fama.

As pesquisas mostram que entre os mais jovens usuários da Internet, os principais criadores de conteúdo na Web (blogs, gráficos, fotografias, sites) não são pessoas mal ajustadas parecidas com Lone Gunmen de "Arquivo X". Pelo contrário, os cyber-pioneiros do momento são meninas adolescentes digitalmente efusivas.

"A maior parte dos meninos não tem paciência para esse tipo de coisa", disse Nicole Dominguez, 13, de Miramar, Flórida, cujos hobbies incluem desenhar ícones livres, layouts e "glitters" (animações trêmulas) para as páginas de Web e MySpace de outras adolescentes. "É muito difícil".

Nicole publica seus gráficos, assim como seus próprios códigos html e CSS (ela aprendeu sozinha) no sodevious.net, um domínio que sua mãe comprou para ela em outubro, cor de rosa e violeta.

ALGUMAS GAROTAS DA INTERNET
Natasha Calzatti/The New York Times
Sarada Cleary, 14, ajudou a criar jogo online para o National Spay Day
Natasha Calzatti/The New York Times
Martina Butler, 17, possui podcast de música indie no Emogirltalk.com
Natasha Calzatti/The New York Times
Lauren Renner, 16, tem um blog pessoal e trabalha no site "My first prom"
"Se você fizesse uma pesquisa, acho que descobriria que os meninos raramente têm sites", disse ela. "A maioria é menina."

De fato, um estudo publicado em dezembro pelo Projeto Pew de Internet e Vida Americana revelou que entre usuários da Web com 12 a 17 anos de idade, o número de meninas com blogs é significativamente maior do que o de meninos (35% contra 20%), assim como é maior o número de meninas que criam ou trabalham em suas próprias páginas da Web (32% contra 22%).

As meninas também fazem sombra aos meninos na construção de sites da Web para outras pessoas e na criação de perfis em sites de redes sociais (70% de meninas entre 15 e 17 anos têm um, contra 57% dos meninos entre 15 e 17). A publicação de vídeo foi a única área na qual os meninos superaram as meninas: quase o dobro de meninos publicam arquivos de vídeo.

As explicações para o desequilíbrio entre os sexos são tão variadas quanto as cyber-meninas. As meninas incluem blogueiras que pontificam questões adolescentes eternas, tais como "professores cruéis" e ficar "de castigo para sempre", até futuras Martha Stewarts -empresárias cujas experiências online geram mais dinheiro que um verão trabalhando de babá.

"Fui a primeira podcaster adolescente a receber um patrocínio importante", disse Martina Butler, 17, de San Francisco, que há três anos vem gravando um show de música Indie, Emo Girl Talk, em seu porão. Seu primeiro patrocínio corporativo, do remédio para acne Nature's Cure, foi assunto de uma revista de marketing do ramo, Brandweek, em 2005.

Desde então, mais de meia dúzia de empresas, incluindo o provedor de Internet Go Daddy, pagaram para ser mencionadas em seus podcasts, que são publicados aos domingos no emogirltalk.com.

"As coisas só estão crescendo para mim", disse Martina, uma aspirante a anfitriã de rádio e televisão, que achou graça quando soube sobre o estudo do Pew.

"Não estou surpresa, porque as meninas são muito criativas", disse ela, "algumas vezes mais criativas que os homens. Somos corajosas, e os meninos...", sua voz virou uma risada.

A tendência ao reino das meninas na criação de conteúdo vem surgindo há alguns anos -um estudo do Pew publicado em 2005 também revelou que meninas adolescentes eram as principais criadoras de conteúdo- mas a diferença entre os sexos nos blogs, em particular, cresceu.

Enquanto o número de blogueiros adolescentes praticamente dobrou de 2004 a 2006, quase todo o crescimento deveu-se à "maior atividade das meninas", disse o relatório Pew.

As descobertas têm implicações além dos blogs, de acordo com o projeto Pew, porque os blogueiros "têm muito maior probabilidade de se engajar em outras atividades de criação de conteúdo do que adolescentes não blogueiros".

Apesar das meninas superarem os meninos como criadoras de conteúdo da Web, o desequilíbrio entre adultos na indústria de computação continua. As mulheres detêm cerca de 27% dos empregos nas ocupações de computação e matemática, de acordo com o Escritório de Estatísticas do Trabalho.

Nas escolas americanas em 2006, dos alunos que fizeram a prova de ciências de computação, menos de 15% eram do sexo feminino, e houve um declínio de 70% no número de mulheres formando-se em ciências da computação de 2000 a 2005, de acordo com o Centro Nacional de Mulheres e Tecnologia da Informação.

Acadêmicos que estudam a ciência da computação dizem que há várias razões para a escassez de mulheres: muitas vezes os cursos introdutórios são tediosos; é difícil se desfazer dos estereótipos dos homens serem excelentes em ciências; e há poucos modelos femininos. É possível que as meninas que produzem "glitters" desenvolvam um interesse pela ciência rigorosa por trás da computação, mas alguns acadêmicos relutam em tirar essa conclusão.

"Podemos esperar que isso se traduza (em mais mulheres na computação), mas até agora o vão continua", disse Jane Margolis, autora de "Unlocking the Clubhouse: Women in Computing" (MIT Press, 2002). Apesar de ficar contente em saber que as meninas estão dominando programas como Paint Shop Pro, Margolis enfatizou a profunda distinção entre usar softwares existentes e o desejo de inventar novas tecnologias.

Perguntar por que as meninas são prolíficas criadoras de conteúdo da Web em geral leva à especulação e à generalização. Apesar das meninas terem superado os meninos em leitura e redação por anos, de acordo com o Centro Nacional de Estatísticas de Educação, isso não automaticamente se traduz em um desejo coletivo de blogar ou criar uma página no MySpace. Em vez disso, alguns acadêmicos argumentam que as meninas são criadoras de conteúdo online porque os dois sexos são influenciados por expectativas culturais.

"As meninas são treinadas a contar histórias sobre elas mesmas", disse a professora Pat Gill, diretora interina do Instituto de Pesquisa de Comunicações e professora de estudos da mulher na Universidade de Illinois em Urbana-Champaign.

Desde jovens, elas aprendem que são objetos, disse Gill, então aprendem a se descrever. Historicamente, espera-se de meninas e mulheres que sejam sociáveis, comunitárias e hábeis em artes decorativas.

"Isso seria a 'feminização' da Internet", disse ela.

Os meninos em geral aprendem a "se engajar de formas que não são confessionais, não são emocionais".

Uma pesquisa do Centro Berkman de Internet e Sociedade da Faculdade de Direito de Harvard, fez entrevistas com jovens de 13 a 22 anos que sugerem que as práticas das meninas online tendem a ser sobre seu desejo de se expressar, particularmente sua originalidade.

"Com as jovens, é muito mais uma forma de se expressar aos outros, como é vestir certas roupas para ir a escola", disse John Palfrey, diretor executivo do Centro Berkman. A tendência "está associada à expressão da identidade no mundo real".

Esse desejo nunca é tão evidente como quando as meninas criticam farsantes online que essencialmente roubam o visual de suas páginas e gráficos fazendo hotlinking (um link para a imagem de outra pessoa de forma que aparece na própria página). Além de sobrecarregar as linhas de comunicação, é o equivalente digital de chegar a uma festa usando o mesmo vestido que outra menina, disse Palfrey.

Não é de espantar que as meninas façam advertências agressivas em seus sites, como: "Não copie, roube ou redistribua nada das minhas coisas!" ou "Faça um hotlink e morra."

Apesar da criação de conteúdo permitir que as meninas experimentem formas de se apresentar ao mundo, obviamente elas estão interessadas em manter e fazer relacionamentos.

Quando Lauren Renner, 16, estava na quinta série, ela e uma amiga, Sarada Cleary, hoje com 14, de Oceanside Califórnia, começaram a escrever sobre suas vidas em agirlsworld.com, uma revista online interativa com artigos escritos por e para meninas.

"Meninas de toda parte liam e faziam perguntas, sobre o que fazer com um problema", disse Lauren. "Eu acho que as meninas gostam de ajudar os outros com seus problemas, assim, tipo mãe."

Hoje, Lauren e Sarada estão entre mais de 1.000 meninas que regularmente submetem conteúdo ao agirlsworld. Elas fazem alguns trocados escrevendo artigos online e criando atividades relativas às férias, como receitas de café da manhã para o Dia das Mães, que são publicadas no site.

"No colégio, há um certo tipo de gente", disse Sarada. "São locais. On-line, você vivencia a cultura de outras pessoas."

A única área na qual os meninos superam as meninas em criar conteúdo da Web é na publicação de vídeos. Isso não é porque as meninas não sabem usar a tecnologia, disse Palfrey. Ele sugeriu que os vídeos são menos uma questão de expressão pessoal e mais para impressionar os outros. É uma forma ideal para os membros de uma subcultura -skatistas, snowboarders- de demonstrar seu atletismo, disse ele.

Zach Saltzman, 17, de Memphis, disse que a criação de conteúdo no seu círculo de amigos inclui ter um perfil no Facebook e colocar vídeos de jogos lacrosse e curtas originais no YouTube.

"De fato, nunca pensei em fazer meu próprio site", disse Zach depois de voltar de uma aula. Ele não publicou vídeos de si mesmo e não tem um blog porque, como ele diz: "Nunca me interessou e não tenho tempo de manter."

Zach, entretanto, tem um perfil no Facebook, que inclui fotografias digitais.

"É realmente a única forma de manter minhas fotos organizadas, porque não faço álbuns de fotografia e coisas assim", disse ele.

Perguntado se as descobertas do estudo Pew pareciam precisas, ele disse: "É isso que vejo acontecendo. As meninas estão muito mais envolvidas em criar seu material e obter respostas." Deborah Weinberg

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