UOL Notícias Internacional
 

21/02/2008

Sinais de estagflação da economia aumentam nos Estados Unidos

The New York Times
Graham Bowley
Ultimamente, muitas pessoas estão ouvindo um eco -talvez levemente, mas claramente audível- da estagflação dos anos 70.

Enquanto cai o crescimento econômico, os preços do petróleo e da gasolina estão atingindo novas altas recordes. O ouro está valorizando, juntamente com os preços de commodities básicos como trigo e aço. E na quarta-feira, com o mais recente relatório do governo sobre os preços ao consumidor, há sinais de que a inflação em geral, após anos de aumentos apenas modestos, pode estar acelerando.

Para o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) e seu presidente, Ben S. Bernanke, tudo isto não poderia vir em pior momento. Com os mercados de crédito em desarranjo após o estouro da bolha imobiliária, Bernanke está reduzindo as taxas de juros em uma tentativa de conter os riscos de recessão.

Mas ao enfatizar acima de tudo a retomada do crescimento, o banco central americano, segundo alguns economistas e até mesmo alguns poucos diretores do Fed, poderá enfrentar um problema maior de inflação mais à frente.

"Eles estão reduzindo os juros com uma conta que será paga mais à frente", disse John Ryding, economista chefe para os Estados Unidos da Bear Stearns. "A pergunta não é, nós teremos inflação, mas quanto custará para recolocar o gênio na garrafa. Isto parece a estagflação dos anos 70."

Nos últimos 12 meses, os preços ao consumidor subiram em média 4,3%, segundo o Departamento do Trabalho. A inflação no núcleo do índice de preços ao consumidor, que exclui alimentos e combustíveis, foi 2,5% maior do que em janeiro do que no ano anterior, significativamente acima da zona de conforto não oficial de 1% a 2% de índice de inflação. Isto está longe das taxas de inflação de dois dígitos que às vezes agrediam a economia nos anos 70, mas ainda assim é preocupante.

Analistas como Ryding dizem que ao tolerar esses aumentos de preço e até mesmo permitir que acelerem, o Fed está colocando em risco sua credibilidade duramente conquistada como combatente da inflação, que no final exigirá um aumento maior do que o habitual das taxas de juro para conter os danos.

A maioria dos economistas ainda espera que o comitê de política do Fed cortará novamente as taxas de juros quando se reunir em 18 de março, aquela que seria a sexta redução desde setembro. Mas os temores de uma volta da inflação ressaltam as decisões difíceis que o banco central agora enfrenta.

Como o Fed, os economistas geralmente se preocupam mais com a ameaça imediata de recessão do que com o temor mais distante de uma inflação mais alta. Dados recentes sugerem uma economia que pode estar em desaceleração ou próxima disto. O consenso é de que a desaceleração esperada provavelmente criará bastante capacidade ociosa para sugar as pressões inflacionárias para fora da economia.

Além disso, mesmo se alguma inflação adicional for um efeito colateral da prescrição do Fed, dizem muitos economistas, ela certamente é melhor do que a alternativa. Assim que as reduções das taxas de juros tiverem cuidado da economia durante os próximos trimestres difíceis, eles dizem, o Fed poderá aumentar facilmente os juros de novo em resposta a qualquer aceleração da inflação.

"Eles cuidarão do ferimento agora", disse David Durst, estrategista chefe de investimento do Global Wealth Management Group do Morgan Stanley. "Eles cuidarão da situação do crescimento e então combaterão a inflação quando a economia estiver mais forte."

Reforçando esta visão, há poucos sinais de que a inflação está se infiltrando no mercado de trabalho e elevando os salários em antecipação a futuros preços mais altos.

Isto pode ser reconfortante para o Fed, mas manter a inflação contida ainda assim poderá não ser fácil. Nos últimos dias, alguns diretores do banco central não mediram esforços para alertar que não estão preparados para baixar a guarda -mesmo que isto signifique que o Fed precise ser menos agressivo nas reduções das taxas de juros.

Em um discurso neste mês, Richard W. Fisher, presidente do Federal Reserve Bank de Dallas, disse que "o Fed precisa ser bem cuidadoso agora em adicionar a quantidade certa de estímulo à tigela de ponche, sem aumentar o potencial de inflação assim que o efeito do novo ponche se faça sentir".

Charles I. Plosser, presidente do Federal Reserve Bank da Filadélfia, repetiu essa visão, dizendo em um discurso que "não podemos confiar que uma economia em lento crescimento, no início de 2008, reduzirá por si só a inflação".

"Como aprendemos com a experiência dos anos 70", acrescentou Plosser, "assim que o público perde a confiança no compromisso do Fed com a estabilidade dos preços, custa muito caro à economia o Fed reconquistar essa confiança".

Em uma entrevista por telefone, Plosser explicou que o Fed pareceu fazer progresso contra a inflação na primeira metade de 2007, mas que começou a ficar mais preocupado durante a segunda metade.

"Desde a metade do ano, quase todos dados de inflação que vimos começaram a acelerar de novo, e em alguns casos acentuadamente", disse Plosser. "Talvez as pressões inflacionárias sejam mais amplas do que apenas a energia."

Apesar de Plosser ter dito que espera que a inflação se mantenha moderada por conta própria, "nós temos um mandato duplo -a estabilidade dos preços e o crescimento".

"Nós não podemos jogar um deles pela janela quando é conveniente."

Para Bernard Baumohl, diretor administrativo do Economic Outlook Group, essa conversa é vista em Wall Street como uma tática esperta visando influenciar as expectativas inflacionárias para baixo enquanto o Fed continua reduzindo os juros por mais algum tempo.

"Nós esperamos que os diretores do Fed aumentarão a retórica, nos discursos e depoimentos, de que trabalharão diligentemente para manter as expectativas de inflação sob controle", Baumohl escreveu para os clientes após a divulgação dos mais recentes números do índice de preços ao consumidor na quarta-feira. "Meras palavras, certamente. Mas seria um erro considerá-las vazias."

Zach Pandl, um economista da Lehman Brothers, disse que as declarações até o momento foram de diretores menos importantes do Fed e que a verdadeira visão do Fed deve ser avaliada por suas ações, que são reduções agressivas de juros com menor preocupação com a inflação.

Essas ações levaram vários economistas a alertarem que as medidas agressivas de alívio do Fed, combinadas com a forte demanda por commodities industriais e agrícolas por parte de potências globais emergentes como a China e a Índia, podem estar preparando o terreno para uma nova era de crescente inflação.

"O período de queda da inflação que tivemos nos anos 80, 90 e início dos anos 2000 chegou ao fim", disse Michael Darda, economista-chefe da MKM Partners, uma corretora e firma de pesquisa em Greenwich, Connecticut. "Ela acabou."

Darda apontou para o aumento dos preços dos commodities, incluindo alimentos e petróleo. As taxas de juros de longo prazo estão subindo no mercado de títulos, refletindo a visão de que tanto o crescimento quanto a inflação poderão acelerar neste ano e em 2009, assim como os temores com dívidas ruins.

E, segundo Pandl, uma medida das expectativas de inflação dos investidores é fornecida pelo fato da diferença entre o rendimento dos títulos normais do Tesouro e os títulos protegidos contra inflação do Tesouro "ter apresentado um salto bem alto" depois que o Fed reduziu os juros em janeiro, apesar de "estarem sendo negociadas bem mais baixo de lá para cá".

E há o ouro, que historicamente é um refúgio para investidores que procuram proteção contra desvalorização das moedas.

O ouro "está subindo desde que o Fed começou a reduzir os juros", disse Darda. "Este é um sinal preocupante. Assim que estivermos em 2009 e 2010, nós descobriremos que a inflação é bem menos benigna." George El Khouri Andolfato

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