UOL Notícias Internacional
 

22/02/2008

Mudança no Paquistão pode impedir ataques contra suspeitos de terrorismo

The New York Times
Eric Schmitt e David E. Sanger*

Em Washington
As autoridades americanas chegaram a um discreto acordo com o líder paquistanês, no mês passado, para intensificar os ataques secretos contra suspeitos de terrorismo com aeronaves não tripuladas, lançadas de dentro do Paquistão, disseram altos funcionários de ambos os governos. Mas a perspectiva de mudanças no governo do Paquistão deixaram o governo Bush preocupado com uma possível restrição às operações.

Entre outras coisas, os novos acordos permitiam um aumento no número, área de patrulha e ataques por aeronaves de vigilância armadas Predator, lançadas de uma base secreta dentro do Paquistão -uma estratégia bem mais agressiva para atacar a Al Qaeda e o Taleban.

Mas desde que os partidos de oposição saíram vitoriosos nas eleições no início desta semana, as autoridades americanas temem que o novo acordo mais permissivo possa ser sufocado em sua infância.

Nas semanas que antecederam as eleições de segunda-feira, uma série de encontros com os conselheiros de segurança nacional do presidente Bush resultaram em um relaxamento significativo das regras, segundo as quais as forças americanas poderiam atacar combatentes suspeitos da Al Qaeda e do Taleban nas áreas dos Paquistão próximas da fronteira com o Afeganistão. A mudança, descrita por altos funcionários americanos e paquistaneses que não quiseram ser identificados porque o programa é confidencial, permite aos comandantes militares americanos maior liberdade para escolher entre o que uma autoridade que participou do debate chamou de "cardápio chinês" de opções de ataque.

Em vez de serem obrigados a confirmar a identidade de um líder militante antes de atacar, a mudança permite que os operadores americanos ataquem comboios que tenham as características de conterem líderes da Al Qaeda e do Taleban em fuga, por exemplo, desde que o risco de baixas civis seja considerado baixo.

As novas regras de combate mais flexíveis poderiam ter seu maior impacto na base secreta da CIA no Paquistão, cuja existência foi descrita por altos funcionários americanos e paquistaneses como mantida até agora em segredo para evitar embaraço para o presidente Pervez Musharraf. O presidente, cujo partido foi derrotado nas eleições desta semana por margens que surpreenderam as autoridades americanas, é acusado pelos adversários políticos de ligação estreita demais com os Estados Unidos.

A base no Paquistão abriga um punhado de Predators -aeronaves não tripuladas que são controladas dos Estados Unidos. Dois mísseis de um desses Predators teriam matado um alto comandante da Al Qaeda, Abu Laith al-Libi, no noroeste do Paquistão no mês passado, apesar de um alto funcionário paquistanês ter dito que seu governo ainda não confirmou a presença de Libi entre os mortos. Um porta-voz da CIA se recusou a comentar na quinta-feira qualquer operação no Paquistão.

Os novos acordos com o Paquistão ocorreram após uma viagem ao país, em 9 de janeiro, de Mike McConnell, o diretor de inteligência nacional, e do general Michael V. Hayden, o diretor da CIA. As autoridades americanas se encontraram com Musharraf e com o novo chefe do exército, o general Ashfaq Parvez Kayani, e ofereceram um aumento das operações secretas.

Mas funcionários do governo Bush e especialistas americanos em contraterrorismo estão expressando preocupação com a possibilidade desses acordos poderem ser revistos ou reduzidos pelos vencedores das eleições parlamentares do Paquistão. Os dois partidos vencedores disseram que desejam promover negociações com os líderes tribais pashtun, que se opõem ao governo de Musharraf e que às vezes apóiam o Taleban e dão abrigo aos combatentes estrangeiros da Al Qaeda.

"Um novo governo poderia chegar a um acordo com os extremistas, o que daria uma certa trégua para o governo", disse Robert L. Grenier, ex-diretor do Centro de Contraterrorismo da Agência Central de Inteligência (CIA). "Mas isto daria aos extremistas espaço para fornecer santuário para a Al Qaeda e outros extremistas envolvidos em ataques no Afeganistão."

Xenia Dormandy, a diretora para Sul da Ásia do Conselho de Segurança Nacional até 2005, disse na quinta-feira que se as negociações resultassem no tipo de trégua -e recuo de tropas- negociada por Musharraf há quase dois anos, os extremistas provavelmente continuariam se fortalecendo. "Se tentarem reproduzir o que já vimos, eu não sei por que o resultado seria diferente", ela disse. Mas ela acrescentou que se o exército paquistanês permanecer na área, o governo poderá manter alguma vantagem.

A pergunta sobre o que fazer a seguir no Paquistão provavelmente preocupará o último ano de mandato do governo Bush. Funcionários disseram que há uma pressão clara, mesmo que não declarada, para fazer um último esforço para capturar ou matar Osama Bin Laden antes que Bush deixe o cargo. Mas vários altos funcionários no Departamento de Estado vinham alertando que o apoio pleno do governo a Musharraf era uma estratégia errada que agora poderá fracassar.

Outros funcionários do governo alertaram contra as pessoas fazerem uma interpretação exagerada dos comentários iniciais de Asif Ali Zardari, o líder do Partido do Povo Paquistanês e viúvo da ex-primeira-ministra Benazir Bhutto, sobre fechar acordos com os líderes tribais. Zardari, eles notaram, deixou claro que deseja acabar com o terrorismo e apontou que os terroristas mataram sua esposa, de forma que deseja derrotá-los.

Os partidos de oposição e analistas disseram que as autoridades americanas estavam interpretando erroneamente o resultado das eleições, que foram dominadas pelos partidos seculares, liberais, do país. Uma aliança de partidos religiosos que controlava o governo provincial da Fronteira Noroeste foi retirada do poder e até mesmo perdeu a maioria das cadeiras nas áreas tribais.

Segundo os partidos de oposição, um novo governo civil será mais eficaz no combate aos extremistas do que o dominado pelos militares sob Musharraf. Eles pediram por uma estratégia nas áreas tribais semelhante às novas estratégias de contra-insurreição empregadas pelos militares americanos no Afeganistão e no Iraque. Nesses lugares, os Estados Unidos tentaram usar uma combinação de força militar, reconstrução e diálogo político para voltar as tribos locais contra os radicais fundamentalistas.

A pergunta, disseram altos funcionários americanos e paquistaneses na quinta-feira, é como a estratégia para atingir estas metas comuns poderia mudar.

"A curto prazo, haverá alguma confusão e alguns tropeços", disse Henry A. Crumpton, uma ex-autoridade de contraterrorismo do Departamento de Estado. "Mas a médio e longo prazo, haverá a continuidade da cooperação, talvez até mesmo uma mais estreita, devido aos nossos interesses comuns."

* David Rohde, em Peshawar, Paquistão, contribuiu com reportagem. George El Khouri Andolfato

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