UOL Notícias Internacional
 

23/02/2008

Autogoverno iraquiano em Basra não consegue conter a violência

The New York Times
Solomon Moore*
Em Basra, no Iraque
Esta cidade portuária no sul do Iraque está de fato por conta própria desde setembro, quando as forças britânicas deslocaram-se para a periferia, delegando a autoridade aos líderes locais. Autoridades britânicas e norte-americanas dizem que a experiência de autogoverno de Basra poderia servir como um modelo para o futuro do Iraque. Só que neste caso - de acordo com diversos assessores locais e estrangeiros - esse futuro continua sombrio.

O que torna a situação em Basra - a segunda maior cidade do Iraque e um centro comercial do país - tão alarmante, dizem eles, é o fato de este ser um teste de governança iraquiana sob condições relativamente ideais: Basra conta com a melhor base econômica do país, há pouca tensão étnica em meio a uma população xiita homogênea, e não existe a presença de nenhuma força ocidental de ocupação para inflamar as tensões nacionalistas.

No entanto a cidade permanece profundamente mergulhada em problemas. Desaparecimentos de médicos, professores e outros profissionais são comuns, assim como alguns confrontos entre milícias rivais, a maioria das quais está ligada a partidos políticos. As vítimas de assassinato incluem investigadores judiciais, políticos e xeques tribais. Um fato especialmente perturbador foi o massacre de pelo menos cem mulheres no ano passado, segundo estimativas da polícia. As autoridades iraquianas culparam as milícias xiitas por vários desses assassinatos, afirmando que os militantes provavelmente consideraram as mulheres infiéis.

Essam Al-Sudani/AFP - 21.fev.2006 
Soldado iraquiano inspeciona local de explosão em Basra, localizado no sul do Iraque

"A maioria das execuções é realizada por homens armados que deslocam-se em viaturas policiais", diz o xeque Khadem al-Ribat, um líder tribal de Basra que afirma não ser filiado a nenhum partido político. Ele fala sobre as milícias na antecâmera da sua mesquita no centro da cidade, com a voz quase sussurrada. "Essas viaturas foram fornecidas por partidos políticos. Teoricamente a cidade tem 16 mil policiais, mas vemos pouquíssimos deles nas ruas, e a maioria dos que são vistos não passa de fundamentalistas com uniforme de policial".

Em Basra, 24 partidos políticos e as suas respectivas milícias competem, muitas vezes violentamente, pelo controle do setor petrolífero, dos lucros portuários, das operações de contrabando pela fronteira iraniana próxima e da autoridade política sobre o centro nervoso da economia do Iraque. Assim, embora aqui não exista a tensão racial que tem infernizado a vida da população em outras partes do país, as disputas violentas estão presentes.

Um líder local cita uma rixa política como um exemplo da diferença entre a percepção e a realidade em Basra.

Os partidos políticos xiitas rivais, liderados pelo Conselho Supremo Islâmico do Iraque e por seguidores do clérigo Muqtada al-Sadr, tentaram no ano passado depor o governador Mohammed Mosbeh al-Waeli, devido às exigências de que ele compartilhasse mais cargos no governo entre as facções provinciais, especialmente no setor petrolífero.

Autoridades britânicas disseram que sentiram-se encorajadas pelo fato de as disputas terem sido transferidas para o conselho provincial de deliberações e para o sistema judicial do Iraque, e viram nisso um sinal de que a política e a lei começavam a suplantar o derramamento de sangue em Basra.

"Eles fizeram tudo isso através do judiciário", afirma o tenente-coronel Michael Shearer, um porta-voz das forças armadas britânicas. "Certamente, até onde se sabe, não houve nenhum assassinato".

Porém, o assessor político de al-Waeli, o xeque Abbas al-Zaidi, afirma: "Eles tentaram matar o governador diversas vezes". Al-Zaidi acrescenta que não se sabe quem atacou o governador, mas ele tem certeza de que foram milícias rivais. Houve explosões de bombas plantadas no trajeto de al-Waeli para o trabalho, tiros disparados contra a sua casa, e pelo menos dois dos seus guarda-costas foram mortos. Segundo al-Zaidi, os milicianos também confrontaram-se no ano passado devido a disputas por cargos no setor petrolífero.

Mesmo assim, ele reconhece: "As tentativas de assassinato fracassaram, e nós vencemos nos tribunais".

Segundo os especialistas daqui, o que mais preocupa é essa violência diária misturada à política normal.

"Existem esferas sobrepostas de banditismo e política, milícias e empresariado legítimo, bem como política legítima", afirma Rob Tinline, porta-voz da Equipe Britânica de Reconstrução Provincial.

As forças de segurança do Iraque são o exemplo mais evidente da tensão entre política e violência em Basra, e a Unidade de Crimes Graves da Polícia de Basra - que tem um nome bem apropriado - talvez seja o exemplo mais flagrante disso. O exército britânico determinou que a unidade não passava de um grupo de extermínio vinculado a milícias xiitas e, em dezembro de 2006, despachou tanques Warrior para bombardear as instalações dessas forças renegadas, reduzindo-as a escombros.

Mas os mandados iraquianos de prisão dos membros da unidade jamais foram executados. Uma mandado emitido pelo Ministério do Interior em janeiro identifica Abdullah Najim, também conhecido como Abu Muslim, e o acusa de ter orquestrado seqüestros, torturas e assassinatos, enquanto chefiava a unidade policial.

Abu Muslim escapou do ataque britânico em 2006 e ainda está em liberdade. Na verdade, ele ainda é um policial de Basra.

"Ou ele ainda está atuando como policial, ou recebeu aprovação para passar-se por policial", diz Jonathan Ratel, um empreiteiro canadense que trabalha como assessor de justiça para o Departamento Britânico de Relações Exteriores em Basra.

Ratel trabalha com autoridades provinciais da área de segurança e judicial há mais de um ano, a fim de ajudar o sistema de justiça iraquiano a erradicar a corrupção que o assola. Ele suspeita que Abu Muslim esteja recebendo proteção de membros graduados do Exército Mahdi, a milícia armada de al-Sadr. Recentemente Al-Sadr prorrogou uma declaração de cessar-fogo que impôs às suas milícias em agosto passado, mas Ratel afirma que o domínio da milícia sobre a polícia de Basra constitui-se em uma espécie de brecha para burlar essa determinação.

"Nós jamais acreditamos estar entregando uma província cercada por muros brancos que lembrasse algo como o filme 'Stepford Wives'", explica Shearer, o porta-voz das forças armadas britânicas, ao explicar a política adotada pelo Reino Unido. "O que fizemos foi transferir para eles uma situação administrável; administrável pelos iraquianos".

O índice de homicídios chegou ao seu ápice em maio do ano passado, quando 112 pessoas foram assassinadas. Em dezembro o número de mortos caiu para 38, e o ano de 2007 terminou com um total de 848 homicídios identificados. Em Basra também ocorreram 383 seqüestros noticiados em 2007, segundo as estatísticas das autoridades provinciais.

Mas as autoridades britânicas, que tiveram uma atuação discreta em Basra mesmo no início da guerra, estão agora praticamente ausentes da cidade, e admitem que são muito pressionadas para monitorar a governança iraquiana diariamente.

Assim, embora os moradores de Basra concordem de forma geral com a saída dos militares britânicos, nenhum iraquiano entrevistado para esta reportagem definiu a complexa fragmentação da província em facções, muitas vezes controladas por militantes, como "administrável".

Como os seguidores de al-Sadr boicotaram as eleições de 2004 que estruturaram o governo local, eles carecem de representatividade oficial no conselho local. O Exército Mahdi vem compensando esta falta de autoridade oficial em Basra com as pressões pela obtenção de cargos para os seguidores de Sadr nos principais setores governamentais, incluindo o de saúde, petróleo, portuário e educacional. Elementos das milícias também montaram estruturas para proteção armada, esquemas de seqüestros para a obtenção de resgates e operações de contrabando, segundo autoridades norte-americanas e iraquianas.

O maior sucesso das milícias consistiu em formar as forças de segurança.

"A única forma de organizar uma força policial era conversar com as milícias e dizer àquelas que concordassem, 'Você aí! Me arrange 100 soldados, você 200 e você 300'", diz Ratel, o assessor. Ele descreve a força policial como sendo um conjunto de "mercenários contratados pelas milícias", a maioria analfabeta e submetida a pouco ou nenhum treinamento.

A retirada das forças armadas tornou os esforços de treinamento e monitoramento por parte dos britânicos mais difícil, afirma Ratel. Por exemplo, nenhum ocidental visita as prisões controladas pelas milícias desde setembro, e Ratel afirma temer que violações dos direitos humanos estejam ocorrendo nesses centros carcerários.

Ele conta que três xeques tribais e um policial da divisão de assuntos internos foram assassinados há poucos dias. Ele acusa as milícias. Ribat, durante a entrevista na sua mesquita, disse ter passado um tempo enorme negociando com policiais ligados às milícias que haviam seqüestrado soldados do exército iraquiano para a obtenção de resgate. Ele ajudou na libertação de pelo menos 50 soldados desde que os britânicos transferiram a autoridade aos iraquianos.

"Os policiais podem seqüestrar os soldados porque estes não fazem parte das milícias, e portanto têm medo", explica Ribat. "Os soldados querem apenas receber os seus soldos, e por isso não lutam".

O quartel do exército General Mohan Fahad al-Fraji fica no velho hotel Shatt al Arab, construído décadas atrás em estilo Art Deco como um resort para visitantes ocidentais. Recentemente o saguão foi ocupado por doze jovens sentados no assoalho, todos algemados e vendados.

Eles eram suspeitos de pertencer ao Ansar al Mahdi, um culto milenarista bem armado, cujos integrantes atacaram peregrinos xiitas durante o período da Ashura, sagrado para os muçulmanos, em janeiro. A organização emergiu faz quase dois anos no sul xiita, mas a maioria dos policiais iraquianos acredita que ela não passa de um grupo marginal, que não possui um grande número de seguidores. Durante várias horas de intensos tiroteios, as forças de segurança de Basra derrotaram os rebeldes de forma convincente, tendo prendido centenas deles. As autoridades britânicas argumentaram que o incidente comprovou a capacidade das forças de segurança de Basra de proteger a população.

Mas Mohan teme a ameaça mais concreta representada pela força policial repleta de membros das milícias. Ele admite que esses policiais seqüestram rotineiramente os seus soldados. Ele também reclama da presença das milícias dentro das suas próprias unidades.

"Eu diria que 70% do exército é puro. Quantos aos outros 30%, não sei. As milícias são como um fogo latente. Elas podem explodir a qualquer momento", declara Mohan.

Jaleel Khalaf, um general da polícia, acredita que os seus próprios homens estejam tentando matá-lo. O general, que gosta de usar boinas e uniformes camuflados, inclina-se para trás no sofá super estofado do seu escritório e descreve calmamente as dez tentativas de assassinato às quais sobreviveu desde que assumiu este posto em julho do ano passado. Ele culpa os policiais vinculados às milícias por esses atentados. A maioria dos ataques foi feita com bombas.

Khalaf diz que o seu maior desafio é profissionalizar a força policial e erradicar a corrupção. Mas ele admite que problemas graves ainda estão além do seu controle. Quando assumiu o cargo no ano passado ele descobriu que 250 viaturas policiais e 5.000 pistolas tinham sido roubadas pelos vários partidos políticos xiitas de Basra e que esse material estava sendo utilizado pelos grupos de extermínio das milícias.

E Khalaf critica os seus colegas policiais que "assumiram os seus cargos pobres, e agora estão muito ricos".

"Eu demiti vários deles", conta Khalaf. "Centenas. Mas ainda temos integrantes das milícias em nosso meio. Nós os botamos porta a fora e eles retornam pela janela..."

* Qais Mizher, Ahmad Fadham e um funcionário iraquiano do "New York Times" contribuíram para esta matéria.

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,54
    3,265
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,36
    64.085,41
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host