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23/02/2008

Itália segue trilha de seqüestros secretos de sul-americanos da Operação Condor

The New York Times
Alexei Barrionuevo
Em Buenos Aires, Argentina
Em uma investigação extraordinariamente ampla, a justiça italiana está buscando processar altas autoridades em sete países sul-americanos por seu papel em uma operação secreta nos anos 70 e 80, das forças de segurança da região, para reprimir a oposição política de esquerda.

A amplitude extraordinária da investigação italiana, de sete anos, sobre uma operação que ficou conhecida como Operação Condor, envolveu países que antes não se pensava estarem profundamente envolvidos no programa nebuloso, particularmente o Peru. Ela também agitou o estabelecimento político de todo o continente.

A investigação e documentos recentemente divulgados, que foram analisados pelo "New York Times", sugerem um papel cúmplice dos EUA nas ações freqüentemente fatais da Operação Condor, algumas das quais as autoridades americanas sabiam a respeito, mas pouco fizeram para impedir.

Paco Chuquiure/EFE - 8.jan.2008 
Ricardo Letts (esq.), Genaro Ledesma (c) e Javier Diez Canseco, vítimas da Operação Condor

No final de dezembro, a juíza Luisianna Figliolia, em Roma, emitiu ordem de prisão para 143 autoridades da Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai, Peru e Uruguai, buscando processá-las em conexão com o desaparecimento forçado de 25 cidadãos italianos.

Países Condor ajudaram os outros a localizar, transportar, torturar e, por fim, fazer desaparecer dissidentes por suas fronteiras, e até colaboraram em operações de assassinato na Europa e nos EUA.

Em uma operação que os historiadores dizem lembrar o programa moderno de rendição terrorista dos EUA, os países Condor algumas vezes usaram uma rede de inteligência para acompanhar e transportar suspeitos de terrorismo para um terceiro país, para interrogatórios.

"Esta é a análise mais ambiciosa da Operação Condor", disse Reed Brody, advogado da Human Rights Watch, em Bruxelas, Bélgica. "Não conheço nenhum outro caso que envolveu tanto."

Enquanto a Argentina e o Chile são conhecidos por terem sido centro da Operação Condor, os mandados de prisão forçaram uma nova auto-análise no Peru e uma reconsideração do envolvimento do país.

O indiciamento de 250 páginas emitido por Figliolia, parte do qual foi revista pelo "Times", nomeia quatro ex-autoridades peruanas, inclusive o ditador do Peru de 1975 até 1980, general Francisco Morales Bermudez, e seu comandante militar Pedro Richter Prada.

As ordens de prisão para os peruanos lidam indiretamente com os seqüestros de junho de 1980 de quatro rebeldes de esquerda, chamados Montoneros, em Lima, por um grupo de agentes de segurança leais a Morales Bermudez e membros da polícia militar argentina. Na época, o Peru tinha evitado em grande parte os movimentos de guerrilha e as contra-insurgências brutais que dominavam a Argentina, o Chile e o Uruguai, onde a Operação Condor foi mais ativa.

No entanto, em junho de 1980, nos últimos dois meses da ditadura de Morales Bermudez, membros do batalhão 601 da Argentina, unidade especial de inteligência do exército, foram para o Peru caçar Montoneros dedicados a derrubar a junta argentina.

Os agentes argentinos haviam capturado um membro do grupo rebelde, Federico Frias Alberga, em Buenos Aires, e levaram-no para o Peru para ajudar a identificar seus camaradas, em uma elaborada emboscada.

No dia 12 de junho de 1980, agentes de inteligência argentinos e peruanos assumiram posições em um parque em Lima, capital do Peru, vestidos de vendedores, artistas de rua e transeuntes. Depois que Alberga trocou uma mensagem codificada com um Montonero, os agentes pularam.

Eles o prenderam com dois outros Montoneros, Noemi Giannotti de Molfino e Julio Cesar Ramirez, de acordo com um livro de 2004 de um jornalista peruano, Ricardo Uceda.

Os argentinos, mais tarde, torturaram os presos em uma instalação militar peruana, de acordo com o relato de Uceda, que entrevistou um agente da inteligência do exército peruano que testemunhou as sessões de tortura. Uma semana depois, no dia 19 de junho, de acordo com documentos recém divulgados, James J. Blystone, da embaixada americana em Buenos Aires, escreveu em um memorando a seu chefe o que aconteceria em seguida.

Blystone disse a seu chefe, o embaixador Raul H. Castro, que uma fonte de inteligência argentina o havia informado que os quatro Montoneros seriam detidos no Peru, "expulsos para Bolívia" e enviados para Argentina, onde seriam "interrogados e depois permanentemente desaparecidos".

Naquele mesmo dia, Castro escreveu ao secretário de Estado em Washington que uma fonte argentina havia confirmado o seqüestro e o plano de levar os Montoneros capturados de volta para a Argentina.

As notícias das prisões, entretanto, chegaram à mídia peruana e, por causa da revolta pública, o plano de enviar os rebeldes à Argentina foi abandonado, de acordo com uma cópia do memorando de Castro que está entre os documentos recém liberados e obtidos pelo Arquivo Nacional de Segurança, um instituto de pesquisa privado.

Em entrevista telefônica, Castro, hoje com 91 anos, disse que se lembrava de "estar preocupado" com a operação dos Montoneros. Entretanto, disse que não se lembrava se alguma ação havia acontecido na época.

O nível de envolvimento do Peru na Operação Condor foi debatido fortemente nos círculos de inteligência americanos, disse ele. "Nós -o Serviço Exterior e Washington e os serviços de inteligência- não conseguimos concordar se o Peru estava envolvido", disse Castro. "Eu achava que eles estavam muito envolvidos. Parecia muito claro, depois que aqueles Montoneros foram levados para Bolívia."

Blystone, também contatado por telefone, disse que as autoridades americanas deveriam ter feito um lobby mais forte pela liberação dos prisioneiros. "Eu recebi toda a informação e a transmiti, e poderíamos ter feito algo" disse ele. "Mas, sejamos francos, nós deixamos cair a peteca."

Um mês depois, o escândalo ainda não tinha morrido, quando Castro reuniu-se com o comandante do exército argentino, general Leopoldo Galtieri. Castro instigou-o tanto sobre os Montoneros que Galtieri acenou com a mão e disse: "Chega, é o bastante", de acordo com relatório de Castro a Washington.

Apesar da publicidade, os agentes de segurança argentinos continuaram com seus planos, que aparentemente incluíam levar Molfino para a Espanha. Pouco depois, no dia 21 de julho de 1980, ela foi encontrada morta em um apartamento em Madri. Os três outros Montoneros nunca foram encontrados.

O Peru já está enfrentando o longo julgamento de violação dos direitos humanos de Alberto K. Fujimori, que foi presidente por uma década até 2000, e as autoridades foram rápidas em defender os acusados no caso italiano.

O presidente peruano Alan García viu os mandados de prisão como uma afronta à soberania do Peru. Ele descreveu a medida de Figliolia como uma tentativa de retratar o Peru como "uma república de bananas" e ofereceu seu apoio a Morales Bermudez.

A investigação italiana lida não só com casos individuais envolvendo cidadãos italianos, mas também com a responsabilidade maior pelas Operações Condor de seqüestro e tortura internacionais, de acordo com duas pessoas na Itália envolvidas no caso.

A Itália alega jurisdição porque acredita que os crimes ocorreram contra seus cidadãos. No entanto, apenas um dos acusados, um oficial de reserva da marinha uruguaia, foi preso na Itália e depois liberado pelo que a magistrada citou como falta de evidências. Parece improvável que os países sul-americanos façam as extradições.

Remigio Morales-Bermudez Pedraglio, filho de Morales Bermudez, o ex-ditador, disse em uma entrevista que o caso era "uma desgraça".

O general Morales Bermudez, que hoje tem 88 anos, assumiu o poder em 1975 em um golpe, mas ainda é admirado por muitos peruanos por ter permitido as eleições presidenciais em 1980.

Em entrevista com o jornalista peruano Uceda, em 2000, o general admitiu que havia dado ordens de capturar os Montoneros, seguindo o conselho de Richter, seu comandante militar. "Não podíamos nos dar ao luxo de ter subversivos à solta no país durante a transição de poder", disse.

Em declarações à mídia peruana, Morales Bermudez refutou a afirmativa que o Peru fazia parte da Operação Condor, mas disse estar disposto a esclarecer os eventos em questão.

* Colaboraram Simon Romero, de Caracas, e Andrea Zarate, de Lima. Deborah Weinberg

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