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23/02/2008

Krugman: Não reprise aquela novela dos anos 70

The New York Times
Paul Krugman
Será que o próximo presidente americano será uma nova versão de Jimmy Carter? Levando em consideração as manchetes econômicas desta quinta-feira (21/02), cheias de previsões terríveis sobre uma nova estagflação com altas taxas de inflação como aconteceu nos anos 70, pode-se pensar que sim.

Em realidade, entretanto, o paralelo entre os problemas da economia dos EUA hoje e no final dos anos 70 não é tão forte. Essa é a boa notícia.

A má notícia é que o cenário econômico pode ser o mesmo, ou talvez pior, do que o que derrubou o primeiro presidente George Bush. Também é fácil imaginar que o novo presidente poderá ter um destino político semelhante ao de Bush e Carter.

Vamos analisar primeiro a economia da era Carter.

A performance econômica de Jimmy Carter em geral era bem melhor do que muitos imaginam - a média de crescimento econômico sob sua administração foi de 3,4% ao ano, um pouco maior do que o crescimento no governo de Ronald Reagan e bem melhor do que durante os governos de ambos os Bush.

Ficou famosa a pergunta que Reagan fez ao povo americano, ao final de seu mandato, para sabe se o país estava melhor do que quatro anos antes; a resposta, na verdade, era um sim - a maioria das famílias teve uma renda anual maior em 1980 do que em 1976.

Mas as boas notícias econômicas do governo Carter aconteceram logo no começo, ao passo que seu último ano no poder foi marcado pelo crescimento do desemprego e pelas altas taxas de inflação, em boa parte impulsionadas pelo aumento do preço do petróleo.

Hoje esse cenário se repete: temos uma economia enfraquecida combinada a uma inflação crescente, novamente e sobretudo por causa dos preços do petróleo.

Entretanto, não acredito que estejamos de fato enfrentando uma situação comparável à recessão dos anos 70. Um dos motivos é que estamos menos dependentes do petróleo: os Estados Unidos têm um PIB duas vezes maior do que tinha em 1979, mas consome apenas um pouco mais de petróleo. Outra razão é que não há sinal da espiral de salários que naquela época levou a inflação às duas casas decimais - de fato, o crescimento dos salários tem diminuído mesmo com o aumento da inflação. O que é mais provável é que teremos um cenário econômico parecido com o do começo dos anos 80, apenas um pouco pior.

O primeiro presidente Bush manteve sua autoridade durante a recessão de 1990-91. Mas seu maior problema veio durante a suposta recuperação, que foi impedida por problemas financeiros em muitos bancos (que foram prejudicados pela crise imobiliária do final dos anos 80) e por um consumo fraco, desestimulado pelos altos custos dos débitos imobiliários.

Como resultado, a taxa de desemprego continuou subindo, atingindo o pico de 7,8% em junho de 1992.

Tudo isso soa bastante familiar. Muitos economistas chamaram a atenção para o paralelo entre a situação atual e a do começo dos anos 90: outra crise imobiliária, com as hipotecas "subprime" mais ou menos no mesmo papel antes exercido pelos empréstimos ruins feitos por fundos de poupança e instituições de crédito, problema financeiro de todos os lados.

A diferença é que os problemas agora parecem bem piores: a crise imobiliária é muito maior, há mais ansiedade financeira, maior inadimplência no consumo - e para completar o quadro, os preços do petróleo estão subindo aos céus. Assim, se nos guiarmos pela história, podemos esperar um período extenso de fragilidade econômica, provavelmente até 2010, e talvez até por mais tempo.

Há algo que o novo presidente possa fazer para evitar essas conseqüências? Em termos de simples economia, a resposta é sim, sem dúvida.

Até hoje, não está claro o que Carter poderia ter feito de diferente. A estagflação é um problema sem boas soluções. Mas o consumo fraco é uma condição tratável. Uma política séria de incentivo fiscal - que priorize o investimento público e a ajuda aos americanos em má situação econômica, em vez de uma redução geral de impostos que faria muitas pessoas deixarem de gastar dinheiro - poderia fazer muito para aliviar os males da economia do país.

Politicamente, todavia, é difícil ver isso acontecendo.

Se o próximo presidente for republicano, defenderá a doutrina de que o corte nos impostos é a resposta para todos os problemas, e então não procurará uma resposta efetiva para os problemas econômicos.

E mesmo que o presidente seja democrata, qualquer política séria de incentivo enfrentaria uma forte oposição ideológica no Congresso. Será que o novo presidente está preparado para lutar por um plano efetivo? Ou terminaremos com um acordo como o que os democratas do Congresso fizeram esse ano, uma legislação que pacificou as objeções dos conservadores ao custo de minar a efetividade do plano?

Até recentemente, eu achava que o maior problema político do novo presidente seria a reforma do sistema de saúde. Mas agora parece que a primeira coisa na agenda da nova administração será lidar com uma economia fraca.

E se nenhuma ação enérgica for tomada, o próximo presidente sofrerá o destino de Jimmy Carter, que começou sua administração com palavras de otimismo - "Vamos criar juntos um novo espírito nacional de unidade e confiança" - e terminou deixando o país nas mãos da extrema direita. Eloise De Vylder

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