UOL Notícias Internacional
 

24/02/2008

Vilarejo coreano supera rivalidade e vingança da guerra

The New York Times
Choe Sang-hun
Em Kurim, Coréia do Sul
O vilarejo de Kurim já esteve um dia encharcado pelo sangue. Corpos de moradores mortos a tiros ou esfaqueados se alinhavam nas ruas, e o cheiro de pessoas queimadas vivas saturava o ar.

O que faz com que Kurim se destaque hoje, todavia, não é a morte de cerca de 300 pessoas nos meses que duraram a Guerra da Coréia em 1950. Erupções de violência entre vizinhos envolvidos no conflito ideológico da época eram comuns na Coréia do Sul, dizem sobreviventes e historiadores.

Em vez disso, o que destaca o vilarejo, numa nação onde ainda perdura a divisão causada por uma guerra de meio século atrás, é o fato de que seus moradores deram início a um processo público de reconciliação nos últimos anos. Eles organizaram um serviço funeral conjunto em homenagem a todos os mortos, de ambos os lados da guerra, e estão levantando fundos para a construção de um memorial.

Seokyong Lee/The International Herald Tribune 
Choi Jae-sang (dir.), 70 anos, e Hyun Sam-sik no vilarejo de Kurim, na Coréia do Sul

Investigadores do governo citam Kurim como um possível modelo para curar as feridas de guerra ainda abertas em outras comunidades e, eventualmente, entre as Coréias do Norte e do Sul.

"É tempo de enterrar o passado e a vingança", diz Choi Jae-woo, que, aos 85 anos, está entre os moradores mais velhos de Kurim. "Ambos os lados precisam perceber que fomos todos vítimas da guerra. Precisamos perdoar e seguir em frente."

Kurim é um agrupamento de 600 famílias na fronteira sudoeste da Coréia do Sul. Os ancestrais de muitos moradores se assentaram no lugar há mais de um milênio. Os fazendeiros mais velhos guardam a memória da insanidade da guerra, quando o vilarejo foi tomado pelo terror.

Quando a Coréia foi dividida ao final da Segunda Guerra Mundial, entre a Coréia do Sul pró-americana e a do Norte pró-soviética em 1945, Kurim, como muitos outros vilarejos, foi engolfado por um conflito sangrento entre as guerrilhas que sonhavam em unificar a Coréia sob a bandeira comunista e as forças pró-americanas que perseguiam os guerrilheiros nas escarpas montanhosas.

As guerrilhas desciam das montanhas depois do entardecer, confiscavam comida, matavam moradores que não colaborassem com eles e pressionavam os jovens a se juntarem a seus grupos. Quando o dia amanhecia, vinha a polícia, batendo e executando os suspeitos de colaborar com os comunistas.

Para muitos, a "colaboração" era a única forma de permanecerem vivos. Mas conforme mudavam as linhas de frente da guerra, as pessoas que perdiam seus parentes eram rápidas em acertar as contas. Os mais velhos se lembram com terror dos "esquadrões de enxadas" - formados por moradores que atacavam moradores rivais com ferramentas agrícolas ou lanças de bambu.

Em 7 de outubro de 1950, enquanto as forças das Nações Unidas lideradas pelos EUA avançavam ao norte, as guerrilhas comunistas e os partidários da esquerda de Kurim prenderam 28 pessoas que estariam supostamente ligadas à polícia, incluindo seis cristãos, em uma hospedaria e os queimaram vivos.

Dez dias depois, oficiais da polícia na caça de simpatizantes comunistas realizaram uma chacina em Kurim, matando mais de 90 pessoas, apesar de os sobreviventes afirmarem que os organizadores da esquerda haviam fugido antes.

"Eles mandaram minha irmã de 17 anos tirar a roupa", diz Choi Jae-sang, hoje com 70 anos, descrevendo o que testemunhou quando tinha 12. "Ela se recusou, e então um policial atirou na cabeça dela com um rifle, na minha frente e na frente dos meus pais."

Um grupo de moradores mais velhos saiu de suas casas segurando bandeiras da Coréia do Sul para mostrar que não eram comunistas.

"Quando a polícia chamou o mais novo deles, um homem demente deu um passo à frente", lembra-se Choi Jae-sang. "O policial deu-lhe um chute no peito, fazendo com que ele tropeçasse. Então ele apontou seu rifle com baioneta para o peito do homem e atirou".

Hoje, numa pequena colina próxima à entrada da vila, há dois monumentos em homenagem aos mortos na hospedaria, um construído em 1976 pelo governo do condado e o outro construído em 2000, por igrejas cristãs.

Mas não há nenhum monumento para os que foram mortos pela polícia e pelos simpatizantes da direita. Os moradores de Kurim dizem que, sob os rígidos governos anticomunistas da Coréia do Sul, tiveram que mentir sobre as mortes de seus parentes.

Mas durante as últimas décadas, dois governos mais abertos se sucederam e fizeram pressão por uma reconciliação com a Coréia do Norte. Muito antes de os políticos começarem a discutir a reconciliação nacional, todavia, os moradores de Kurim já estavam trabalhando em sua própria e silenciosa abertura.

Os moradores dão o crédito dessa atitude à sobrevivência do sistema tradicional de clãs, que em muitas outras regiões da Coréia do Sul foi desintegrado com a chegada da industrialização, e à liderança dos quatro principais clãs do vilarejo, por ajudarem a reprimir a sede de vingança.

Choi Yong-jin, 54, um nativo de Kurim que hoje vive em Seul, disse que os mais velhos do clã cuidaram para não provocar mais violência depois da guerra.

"Os mais velhos tiveram o cuidado de não revelar quem matou seus filhos, levando o segredo para seus túmulos", disse ele.

"Uma vez, quando um jovem descobriu e jurou vingança", diz ele, "um ancião do clã o desencorajou, lembrando ao jovem que sua própria família havia matado membros do outro clã."

Choi Jae-sang, o homem que presenciou a morte da irmã, também tem exercitado essa prudência. "Acho que sei quem foi o policial que matou minha irmã", diz Choi Jae-sang. "Mas nunca mencionei seu nome para ninguém. Ele já morreu. Mas, quando estava vivo, sempre tentou ser gentil comigo, talvez por causa do que fez para a nossa família."

Em 2006, os moradores, reunindo as lembranças dos mais velhos, publicaram um livro de 530 páginas contando a história de Kurim. A publicação foi um marco para a Coréia do Sul, já que o livro dedicou 15 páginas para os assassinatos que ocorreram durante a guerra - um assunto que até então era raramente mencionado em público e abordado apenas de passagem nos livros escolares. Apesar de o livro listar as pessoas que foram mortas e a forma que morreram, ele não identificou os assassinos.

No mesmo ano, os moradores começaram a realizar serviços memoriais em conjunto. Eles compraram um terreno e passaram a levantar dinheiro para a construção de um parque memorial para os mortos de ambos os lados do conflito. Eles esperam concluir a obra em 2010.

"Não vejo as vítimas como sendo de esquerda ou de direita", diz Choi Kyu-chul, 53, cujos avós, dois tios e uma tia estavam entre as 28 pessoas mortas na hospedaria.

Choi Kyu-chul compareceu aos serviços memoriais junto a moradores que perderam parentes do outro lado do conflito. "Eles também são apenas vítimas da trágica história de nossa nação", disse. Eloise De Vylder

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