UOL Notícias Internacional
 

25/02/2008

Amsterdã quer revitalizar distrito de luz vermelha

The New York Times
Marlise Simons
Em Amsterdã, Holanda
Um dos bordéis mais visitados no distrito da luz vermelha de Amsterdã ganhou alguns vizinhos inesperados.

Durante anos, as vitrines do bordel voltadas para a rua exibiam mulheres de todas as raças, usando peças mínimas de roupa enquanto se exibiam e acenavam para seus clientes. Mas em algumas vitrines, as mulheres recentemente foram substituídas por manequins em roupas de estilistas.

O que pode parecer uma nova forma de teatro de rua é, em vez disso, o sinal mais visível de um ambicioso plano de revitalização que pode levar anos para ser completado. A prefeitura da cidade votou por limpar o famoso bairro histórico, que havia se tornado muito maior com a expansão da vulgaridade. A prefeitura está comprando os bordéis, e alugou as primeiras 18 vitrines e salas para jovens estilistas e fotógrafos durante um ano.

Herman Wouters/The New York Times 
Prostitutas se exibem em vitrines de bordel no distrito da luz vermelha em Amsterdã

Os mais velhos da capital holandesa, conhecidos há muito por suas mentes abertas, insistem que não foram cooptados por uma nuvem de puritanismo. Eles dizem que há novos dados de que quadrilhas de criminosos, que incluem europeus do leste e russos, tomaram conta da área, transformando-a num lugar mais violento e à mercê do tráfico sexual internacional.

Isso não que dizer que as autoridades da cidade acreditassem que o comércio do sexo era algo benigno. Mas o negócio se expandiu rapidamente, e junto com a violência, fez multiplicar os hotéis baratos, lojas baratas de souvenir e botecos engordurados ao longo das antes elegantes ruas vizinhas.

"Percebemos que isso não tinha mais a ver com pequenos empresários, mas as grandes organizações criminosas estão envolvidas aqui com o tráfico de mulheres, drogas, assassinatos e outras atividades criminais", diz o prefeito Job Cohen. "Não estamos banindo a prostituição, mas sim cortando todo o circuito: os salões de apostas, os cafetões, a lavagem de dinheiro". O prefeito disse que a limpeza é possível agora por causa do novo e mais rígido código de zoneamento. O governo federal também deu às cidades mais liberdade para revogar alvarás.

De acordo com estimativas oficiais, só as transações sexuais rendiam cerca de US$ 100 milhões por ano. Mas os planejadores da cidade esperam reduzir a pornografia e atrair galerias, butiques, restaurantes finos e hotéis para o bairro mais antigo da cidade, um bairro valioso que abriga sete igrejas medievais e centenas de construções históricas.

Antes, a prostituição estava confinada a uma pequena área próxima ao porto. Os bordéis eram normalmente gerenciados por mulheres mais velhas que havia se aposentado na função. Mas um relatório preparado pelo gabinete da prefeitura no ano passado mostrou que nos últimos 20 anos, o poder se transferiu dessas mulheres para cafetões holandeses e do leste europeu. O turismo, a disseminação da pornografia e a mudança de valores também foram responsáveis por transformar o velho centro em um vasto e obsceno bazar.

Na maior parte do tempo o distrito, que cobre menos de 1,3 quilômetros quadrados, tem uma procissão de homens caminhando ao longo dos canais e alamedas, repletas de peep shows, teatros de sexo ao vivo, cafés onde o consumo da maconha é permitido e uma infinidade de lojas de filmes eróticos e brinquedos sexuais para equipar todo um batalhão. Os bordéis foram legalizados em 2000, e de acordo com as estatísticas da cidade, hoje existem 142, com cerca de 500 vitrines para prostitutas. Muitos mais, que trabalham com imigrantes ilegais, funcionam secretamente na cidade.

A revitalização enfureceu a população que mora e trabalha no distrito, além dos proprietários, que contrataram advogados e formaram grupos de ação para defender "o caráter singular" da vizinhança, como dizia um dos manifestos. Pôsteres dizendo "Hands Off" (algo como "saiam daqui") apareceram nas janelas dos cafés e lojas.

No Love Club Thai 21, onde um quarteto de mulheres asiáticas esperava por clientes, o dono do clube, Robin Fischer, convidou o jornalista a entrar. "Venha ver, nós somos um estabelecimento normal", disse, num pequeno escritório com um computador, uma máquina de lavar roupas e um varal de toalhas secando sobre a cabeça. "Nós temos um alvará, pagamos impostos."

Ele e seus amigos dizem que os líderes da cidade estão sendo hipócritas em pedir a mudança no distrito. "São os negociantes de diamantes, o povo do setor hoteleiro, os bancos, que querem nos tirar daqui", disse ele. "O negócio deles também não é limpo".

Fischer, que trabalha no distrito da luz vermelha há 20 anos, e outros dois proprietários holandeses que não quiseram ser identificados, culpam os cafetões estrangeiros por estragar a atmosfera.

"Os caras do Leste Europeu trazem mulheres jovens e amedrontadas, eles as ameaçam e batem nelas", diz Fischer. "Antigamente, os cafetões seguiam mais as regras, e a polícia avisava as pessoas, diziam 'Hey Jan, você está passando dos limites'. Havia uma espécie de equilíbrio. Mas os chefões locais do sexo estão muito velhos ou mortos ou na prisão, e o mercado se abriu."

De certa forma, as autoridades municipais admitem que estão tendo de lidar com problemas criados pela sua própria política condescendente. Um inquérito parlamentar e diversos relatórios de criminologistas e de grupos de apoio às prostitutas alertaram, nos últimos anos, que a prostituição e a legalização da venda de maconha eram cada vez mais um ímã para o crime organizado internacional.

Em um relatório sobre o negócio do sexo, Karina Schaapman, uma ex-prostituta e hoje membro da administração da cidade, descreveu um livro de retratos falados de suspeitos da polícia que continha cerca de 80 "cafetões violentos" dos quais apenas três eram nascidos na Holanda. Ela disse que mais de 75% das 8 a 11 mil prostitutas de Amsterdã, incluindo cerca de mil homens, eram da Europa Oriental, África e Ásia.

O prefeito Cohen lembra-se que os holandeses legalizaram a prostituição em 2000, com o objetivo de fazer o negócio do sexo mais transparente e proteger as mulheres lhes dando vistos de trabalho. "Percebemos que isso não funcionou, que o tráfico de mulheres continua. Agora as mulheres são movimentadas de um lugar para outro com mais freqüência, tornando o trabalho da polícia mais difícil."

Uma força-tarefa especial criada pelo gabinete do prefeito informou, num relatório do ano passado, que os cafés de maconha e os bordéis licenciados ajudaram a gerar mais crime fornecendo a fachada legal. "A maconha e as mulheres têm de vir de algum lugar, e o crime organizado preenche a maior parte dessa demanda", diz o estudo. O dinheiro ganho com esse lucrativo negócio é reinjetado na área, expandindo o círculo do crime, dizia o relatório.

Metje Blaak, que coordena o Red Thread, um grupo de apoio para prostitutas, diz que o grupo tem diferentes opiniões sobre os planos da prefeitura. Erradicar o tráfico e o crime é ótimo, mas eliminar os bordéis será pior para as mulheres. "Pode ser que elas acabem num quarto escuro em algum lugar em que não possamos ajudá-las", disse ela.

Enquanto os moradores de Amsterdã ignoravam o distrito da luz vermelha quando queriam, os problemas de tráfico humano e as guerras entre gangues começaram a se tornar assunto das manchetes. No ano passado, depois que várias brigas de gangues se transformaram em tiroteios, a polícia prendeu uma quadrilha de 12 homens da Turquia que comandavam uma rede de prostituição com cerca de 90 mulheres da Polônia, Romênia, Bulgária e Alemanha. Em fevereiro, uma corte holandesa julgou o caso de três mulheres polonesas que a polícia afirmou terem ordenado o assassinato de seu cafetão polonês.

Ao longo de algumas ruas como Korte Niezel e Lange Niezel, há alguns sinais da nova campanha de limpeza. Pierre van Rossum, o gerente de projeto da campanha, apontou para o Mata Hari, um salão de apostas, e para o Venekamp, um açougue, que tinham acabado de se mudar dali. "O açougueiro administrava alguns quartos de bordel ao lado; ele vendia carne fria e carne quente ao mesmo tempo", diz van Rossum. Outros estabelecimentos serão fechados ao passo que a prefeitura aplica o novo rígido código de zoneamento e realiza auditorias de impostos. "Nesse momento as pessoas parecem estar mais preocupadas em vender do que em brigar", disse. "Começou uma onda de proprietários e administradores que querem vender seus negócios."

No quarteirão em frente à igreja mais antiga de Amsterdã, a prefeitura acabou de comprar cinco prédios que eram usados como bordéis. Nas ruas próximas, comprou outros 18 imóveis similares no ano passado, a maioria agora alugados para jovens estilistas.

Herbert van Hasselt, que coordena a fundação que toma conta da igreja do século 14 e dos seus túmulos de cidadãos proeminentes, disse que está "ansioso por um pouco mais de disciplina amorosa."

"Não estou em busca de uma chatice burguesa", disse ele, "mas seria bom ver um pouco mais de gente comum e alguns restaurantes normais por aqui. Estou cansado dos bêbados perambulando que urinam todas as noites nas nossas paredes ancestrais."

O prefeito Cohen, um simpático ex-reitor de universidade que pouco se parece com um caçador de mafiosos, recentemente assumiu um ponto de vista cauteloso. "É claro que o bairro não vai ficar impecável e maravilhoso", disse ele. "Não é possível regularizar esse tipo de negócio". Eloise De Vylder

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -1,03
    3,146
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,09
    68.714,66
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host