UOL Notícias Internacional
 

25/02/2008

Buscando o sentido da vida com a ajuda de um burro

The New York Times
Simon Romero
Em Tinaco, Venezuela
Jonathan Dunham está cruzando o planeta a pé. Auxiliando-o em seu empreendimento está seu burro, chamado Judas. Eles pararam para descansar por alguns poucos dias em Colinas de San Lorenzo, uma favela desta cidade empoeirada, situada nas planícies de criação de gado no noroeste da Venezuela.

Em uma recente manhã de domingo, reggaeton era ouvido em uma casa perto do barraco abandonado onde Dunham estava dormindo no chão. Crianças descalças iam até seu barraco, para acariciar Judas. Elas riam e olhavam para Dunham, 33 anos, cuja aparência desgrenhada lembra a de um estudante universitário para o qual surfe é a grande arte.

"Você é um atleta?" perguntou uma das crianças. "Ou um missionário?"

"Não", respondeu Dunham. "Sou só um sujeito qualquer."

Na verdade, Dunham é apenas um sujeito em busca do sentido da vida.

Scott Dalton/The New York Times 
Jonathan Dunham caminha com seu burro Judas em Tinaco, vilarejo pobre da Venezuela

Ele iniciou sua busca há mais de dois anos em Portland, Oregon, onde trabalhava como professor substituto em escolas públicas. Certo dia, ele decidiu começar a caminhar para o sul, cruzando o oeste dos Estados Unidos. Do Texas, ele atravessou a fronteira para Tamaulipas, um Estado do norte do México, onde fez uma parada. Ele disse que esperava caminhar por mais dois anos pela América do Sul até chegar à Patagônia.

Em uma entrevista aqui, Dunham retraçou seus passos. Ele disse que uma família em Tamaulipas permitiu que ele cuidasse de algumas de suas vacas leiteiras durante sua estadia com ela por vários meses. Foi lá que ele aperfeiçoou seu espanhol e sua técnica de ordenha. Quando partiu, eles lhe deram um burro para ajudar a carregar sua bagagem: alguns poucos livros, um pouco de comida, algumas roupas de segunda mão.

Dunham batizou o burro de Whothey (a origem do nome é obscura), que a pronúncia lembra Judas em espanhol. Atualmente com quatro anos, Judas é uma espécie de pequena celebridade em partes da América Latina. O burro e Dunham despertam curiosidade onde quer que passem.

"Judas não é um burro qualquer", disse em outubro o "El Heraldo", um jornal em Barranquilla, Colômbia, quando autoridades de saúde o impediram de entrar no país devido às regras sanitárias que regem a importação de burros. "Ele nasceu e cresceu em uma hacienda bela e bem administrada."

"Jon é um bioquímico tímido e educado", prosseguiu o jornal em sua descrição de Dunham, que realmente é formado em bioquímica pela Universidade de Denison. "Ele estava insatisfeito com a vida no reino materialista, com a eterna angústia de obter dólares para a glutonice da sociedade de consumo: laptop, carro novo, Chanel Nº5, celular, o mais recente lançamento de Madonna ou Shakira."

Bem, mais ou menos.

O motivo preciso para as viagens de Dunham não é totalmente claro nem mesmo para ele; talvez nunca seja, apesar de no mínimo se tratar de uma jornada de autodescoberta e resistência. Enquanto isso, jornais ao longo de sua rota noticiaram que ele estava caminhando pela paz mundial, para estabelecer um recorde mundial ou para divulgar a palavra de Deus.

"Eles sempre encontram algo para dizer", disse Dunham sobre os repórteres que buscam conhecê-lo e a Judas.

Dunham passou a contar com a gentileza de estranhos ao longo de seu caminho pelo México, América Central e, agora, Venezuela. Ele se mantém distante das grandes cidades, ciente de que não são lugares para um burro como Judas. Ele freqüentemente procura uma igreja assim que chega a uma nova cidade ou aldeia, em busca de um lugar seguro para dormir. Judas o ajuda a conhecer pessoas, disse Dunham.

Aqui em Tinaco, por exemplo, Dunham e Judas estavam dormindo recentemente em um parque onde artesãos vendiam seus trabalhos. "Eu puxei conversa com o gringo quieto e seu burro", disse Williams Exaga, 38 anos, um dos artesãos. "Eu pensei: 'Eis uma chance de curar parte da animosidade entre nossos governos'."

Exaga permitiu que Dunham ficasse em um barraco vazio em um terreno do qual é dono, onde espera algum dia construir uma casa. O barraco, explicou Exaga, fica no meio da favela mais pobre da cidade mais pobre de um dos Estados mais pobres da Venezuela, Cojedes. Dunham não perdeu a oportunidade.

Tinaco fica muito longe de onde Dunham cresceu, em Laramie, Wyoming, filho de um professor universitário. Apesar de ter estudado bioquímica, ele cita confortavelmente filósofos como Hegel e Sartre na mesma frase. De vez em quando, ele encontra uma lan house para enviar um e-mail para manter sua família e amigos atualizados sobre sua viagem.

Dunham, que planejava entrar na escola de medicina antes de iniciar sua caminhada, fala um pouco de árabe, já tendo viajado de camelo no Sudão, e um pouco de tok pisin, após ter passado parte de sua infância em Papua-Nova Guiné, para onde seu pai foi de licença. "A Bíblia", ele respondeu após ser perguntado sobre o que estava lendo no momento. "E um pouco de Plantinga."

Ele fala de Alvin Plantinga, o filósofo religioso americano da Universidade de Notre Dame. Dunham também carrega um player de MP3 que usa para ouvir palestras de professores renomados. Ele disse que deu a maioria dos livros que leu nos últimos dois anos.

"As pessoas provavelmente acendem fogueiras com os livros que deixo para trás", disse Dunham.

Sua jornada teve altos e baixos. Enquanto caminhava nos Estados Unidos, ele disse, ele às vezes hesitava tanto em gastar dinheiro que chegou a comer restos de comida, como meio cheeseburger ou pedaços de pizza. Na Nicarágua, Dunham, que não tem plano de saúde, contraiu dengue. Tanto ele quanto Judas sofreram com infecções parasitárias. Ele viajou de navio do Panamá para a Venezuela para evitar a travessia do perigoso estreito de Darién que separa a Colômbia do Panamá. Mesmo tomando precauções, e apesar de não levar quase nenhum dinheiro e pouca coisa de valor, Dunham já foi roubado duas vezes. O incidente mais traumático ocorreu no porto fora de Puerto La Cruz, Venezuela, onde ele e seu burro estavam em um navio mercante panamenho aguardando para entrar no país. Piratas armados invadiram o navio e roubaram todos a bordo.

Dunham passou outro apuro recentemente em uma estrada rural em Guarico, um Estado no interior da Venezuela, onde soldados da Guarda Nacional o interrogaram por oito horas, tentando determinar se era um espião. Eles deixaram ele seguir viagem após perguntarem qual era sua opinião sobre o presidente Hugo Chávez.

"Eu não sei o suficiente para dar uma opinião honesta sobre Chávez", disse Dunham.

Apesar da Venezuela às vezes parecer um local hostil para um americano caminhando sozinho, ele disse que testemunhou uma maior generosidade neste país do que na maioria dos outros lugares, com exceção do México, onde lhe deram Judas.

Um venezuelano lhe deu um velho celular pré-pago (é o primeiro aparelho do tipo que Dunham possui). Outros lhe deram comida, roupas e calçados, presentes cruciais para alguém que sobrevive com cerca de US$ 2 por dia.

Em um café da manhã aqui com Pepsi e arepas, um pão de milho que é um item básico da dieta venezuelana, Dunham comeu silenciosamente sob o olhar da cozinheira, Ada Boza, 47 anos, uma dona de casa em Colinas de San Lorenzo que tem preparado a comida para Dunham durante sua estadia aqui. Ela mora no barraco em frente àquele em que ele está.

"Jonathan entrou em nossas vidas há poucos dias, mas compartilhou conosco seu bom espírito", disse Boza enquanto dava atenção para Dunham e dois outros visitantes de longe. "Nós sentiremos muita saudade dele quando ele partir." George El Khouri Andolfato

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