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27/02/2008

Uma história de vício contada duas vezes: pelo pai e pelo filho

The New York Times
Charles McGrath
David Sheff e seu filho de 25 anos, Nic, são muito próximos hoje em dia. Estão tão sintonizados que algumas vezes um termina a frase do outro. Houve um tempo em que não se falavam.

Os dois acabam de lançar livros - cada um, coincidentemente, começa com um epigrama de John Lennon. Em um café da manhã em Nova York recentemente, eles descreveram em quase exatamente os mesmos termos a experiência de ler o trabalho do outro.

"Foi muito, muito doloroso", disse Nic Sheff.

"Foi torturante", disse seu pai.

O livro de Nic, "Tweak: Growing Up on Methamphetamines" (em português, 'Distorção: Crescer com Metanfetaminas'), é um relato em primeira pessoa de seu vício em drogas, que começou quando ainda estava na escola (onde aprendeu a injetar estudando um diagrama na Internet) e durou mais de uma década. Por grande parte deste tempo, ele morou nas ruas, prostituindo-se, vendendo drogas ocasionalmente (apesar de nunca ter sido muito bom nisso) e comendo das lixeiras; ele aparecia na vida dos pais ocasionalmente, algumas vezes para roubá-los. (David Sheff e a mãe de Nic se divorciaram quando Nic tinha quatro anos; ela mudou-se para Los Angeles, e Nic foi criado pelo pai no Norte da Califórnia.)

Internado várias vezes para tratamento, Nic teve vários encontros com a lei e, certa vez, quase morreu de overdose. Em outra ocasião, ele quase perdeu um braço quando o furo de uma agulha infectada infeccionou-se e virou uma bola. Na primeira metade do livro, especialmente, ele escreve sobre essas experiências com o vividez e desapego angustiantes, como se estivesse observando outra pessoa. Ele diz que a primeira vez que tomou metanfetaminas, pareceu-lhe um presente. Ele pensou: "Meu Deus, era isso que eu estava perdendo minha vida toda".

O livro de David, "Beautiful Boy: A Father's Journey Through His Son's Addiction" (em português, 'Lindo Menino: A Jornada de um Pai pelo Vício do Filho), que foi lançado na terça-feira (26/02) e selecionado pela Starbucks como seu próximo livro recomendado, é a mesma história vista pelos olhos do pai. Ele descreve como um jovem aparentemente perfeito (Nic era aluno de honra e capitão do time de pólo da escola) passou, quase da noite para o dia, do uso ocasional de maconha - só uma fase, disse um de seus professores - para um vício pleno. No início, David negou o que via; depois, ficou magoado e raivoso; por fim, em sua preocupação e medo e em seus esforços de compreender o que acontecia, ele se tornou, com efeito, viciado no vício do filho, incapaz de parar de se torturar. O que havia feito de errado?

"Lendo o livro meu pai, vi uma coisa que eu não tinha compreendido plenamente, ou seja, como eu machucava as pessoas", disse Nic. "Eu pensava que, se quisesse me matar, era assunto meu - ninguém tinha direito a mim. O que entendi no livro foi que se matar é um ato egoísta que afeta muitas pessoas. Mas quando você está no meio do vício, não vê isso. Tudo que você vê é a sua própria dor. Parte da minha recuperação é saber de todas as pessoas que estão dependendo de mim."

David disse: "Para mim, a pior parte de ler o livro de Nic foi que, por pior que imaginasse as coisas, elas eram ainda piores. O volume de drogas que ele estava tomando, as situações perigosas pelas quais ele passou tantas vezes, eu nunca soube que ele quase deixou seu braço cair. Fiquei muito mal por um tempo depois da leitura, apesar de respeitar o fato de ele contar a verdade."

O livro de David Sheff, publicado pela Houghton Mifflin, nasceu de um artigo que escreveu para a revista do "New York Times" em 2005. O mesmo artigo levou um editor da Atheneum a entrar em contato com Nic. Quando estavam pela metade, os dois livros foram interrompidos temporariamente. David sofreu uma hemorragia craniana, e Nic, que estivera limpo por 18 meses, teve uma recaída. Ele escreve sobre a crise, associada à volta a um relacionamento romântico destrutivo, de tal forma que o leitor pode senti-la chegando quase antes do autor sentir.

A experiência e seu esforço seguinte para se limpar novamente foram responsáveis pela mudança no tom na segunda metade do livro, disse Nic. "Eu comecei a sentir e a fazer conexões", disse ele. "Antes, eu tendia a me inventar com uma espécie de personagem de ficção e não me apropriava realmente das coisas que aconteciam comigo."

Da parte de David, ele teve de aprender a escrever novamente, começando com frases muito curtas, depois as ligando. A hemorragia deixou-o com um cérebro que parecia uma mala quebrada, cheio de itens embaralhados que ele tinha que reunir, diz ele em "Beautiful Boy".

"É isso que é escrever", disse. "Arrumar as peças do quebra-cabeça na sua cabeça."

A última recaída do filho foi devastadora, e ele quase desistiu da idéia de intervir mais uma vez. Nic tinha sido descoberto invadindo a garagem da mãe e resistiu à idéia do tratamento. Seus pais deram um ultimato: reabilitação ou prisão.

"Sou super-agradecido por ele não desistir de mim", disse Nic no café da manhã. "Estaria morto."

Nic está limpo há dois anos e meio - um marco significativo, diz o pai, já que tipicamente levam dois anos para os exames cerebrais de ex-viciados em metanfetamina parecerem normais. O que torna a droga tão perniciosa é que parece refazer as conexões dos circuitos neurais do viciado.

Nic hoje mora em Savannah, Geórgia, com sua namorada, e está trabalhando em um segundo livro, um romance sobre adolescentes moradores de rua e o fim do mundo. Ele também trabalha como modelo em uma escola de arte local.

"Tirar a roupa na frente das pessoas não é nada, comparado a escrever o livro", disse ele, e acrescentou: "Todo o ponto da minha recuperação é não escolher quem eu sou, mas aceitá-lo."

David Sheff, enquanto isso, voltou a sua carreira de jornalista. (Ele é colaborador antigo da revista "Playboy", para a qual fez a última entrevista com John Lennon). "Por mais que amasse meu filho, eu tive de aprender a me separar dele", disse ele.

"Nós realmente estávamos embolados", explicou David. "É uma coisa impressionante. A minha geração, a gente queria ser diferente. Tínhamos uma fantasia de não amadurecer, suponho, e há um perigo de não saber escolher entre ser pai ou amigo."

Ele acrescentou que ainda pensava o tempo todo sobre o que poderia ter feito de forma diferente. "Acho que eu poderia intervir mais cedo", disse ele. "Antes de Nic fazer 18 anos, eu poderia tê-lo forçado a entrar para um programa. Poderia tê-lo arrastado - ao menos eu o teria tirado das ruas." Deborah Weinberg

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