UOL Notícias Internacional
 

28/02/2008

Mão-de-ferro de Putin na Rússia sufoca seus oponentes

The New York Times
Clifford J. Levy

Em Nizhny Novgorod, Rússia
Pouco depois das eleições parlamentares em dezembro, capatazes se espalharam pela ampla fábrica de veículos da GAZ aqui, chamando os operários da linha de montagem e lhes dando uma ordem: vote no partido do presidente Vladimir V. Putin, se não... Eles foram instruídos a telefonarem após saírem das cabines de votação. Nomes seriam contados, desobediência seria punida.

As crianças da cidade também foram pressionadas a trabalhar. Nas escolas, professores lhes davam panfletos promovendo o "Plano de Putin" e lhes dizendo para convencerem seus pais. Algumas foram ameaçadas com notas ruins caso não participassem dos "Referendos das Crianças" nos locais de votação, um artifício para assegurar a presença dos pais e a votação deles no partido do governo, conhecido como Rússia Unida.

Ao mesmo tempo, voluntários daqui de um partido de oposição, a União das Forças de Direita, receberam centenas de telefonemas sem parar, alertando para pararem de trabalhar pelos seus candidatos. Caso contrário, eles seriam machucados, diziam os autores dos telefonemas, juntamente com o restante de suas famílias.

James Hill/The New York Times 
Stanislav Dmitriyevsky, líder de grupo que faz críticas ao Kremlin, em seu escritório

Nos últimos oito anos, supostamente visando restaurar a posição da Rússia após o tumulto dos anos 90, Putin tem realizado uma campanha implacável para restringir a democracia e ampliar o controle sobre o governo e grande parte da economia. Ele suprimiu a imprensa independente, estatizou indústrias importantes, oprimiu a oposição política e empregou os serviços de segurança para promover os desejos do Kremlin.

Apesar dessas táticas serem amplamente conhecidas, elas são empregadas particularmente com mão pesada na esfera local, em lugares distantes como Nizhny Novgorod, a 400 quilômetros de Moscou. Às vésperas da eleição presidencial de 2 de março, que foi praticamente decidida em dezembro, quando Putin escolheu seu assessor próximo, Dmitri A. Medvedev, como seu sucessor, Nizhny Novgorod é um exemplo de como Putin e seus seguidores estabeleceram o que se tornou, basicamente, um Estado de um só partido.

A Rússia de Putin não é a União Soviética. Para a maioria dos russos, a vida é mais livre agora do que era nos velhos tempos. Críticas ao Kremlin são toleradas, desde que não sejam feitas de qualquer forma organizada, e o acesso à Internet é irrestrito. A economia, com sua abundância de bens de consumo e forte taxa de crescimento, tem pouca semelhança com a do comunismo.

Ainda assim, como foi revelado em dezenas de entrevistas com líderes políticos, autoridades e moradores de Nizhny Novgorod ao longo de várias semanas, uma nova autocracia agora governa a Rússia. Por trás da fachada de democracia se esconde uma autoridade centralizada, que faz uso de um grupo nacional de seguidores leais que não reluta em esmagar aqueles que desafiam o partido do governo. Temendo retaliação, muitas das pessoas entrevistadas para este artigo pediram para não serem identificadas.

O PRÓXIMO PRESIDENTE RUSSO
Kalininskiy via The New York Times
Vladimir Putin e Dmitri Medvedev (criança) em caricatura de Valentin Kalininskiy
ENTENDA AS ELEIÇÕES RUSSAS
O ESTILO DE MEDVEDEV
PUTIN SUFOCA OPOSIÇÃO
ÚLTIMO COMUNISTA FAZ CAMPANHA
CANDIDATO FOLCLÓRICO
CLASSE MÉDIA DA ERA PUTIN
O governo fechou jornais em São Petersburgo e invadiu diretórios de partidos políticos na Sibéria. Não foi incomum quando em Samara, no centro do país, policiais do departamento de crime organizado acusaram um diretor de campanha da oposição de crimes financeiros pouco antes das eleições parlamentares, em dezembro, e congelaram as contas bancárias do partido.

Aqui nesta região histórica do Rio Volga, os aliados de Putin agora controlam quase todos os postos, e as eleições se tornaram apenas uma formalidade. E é como deve ser, eles disseram.

"Na minha opinião, a certa altura, como agora, não é apenas útil, mas necessário -nós estamos cansados das reviravoltas democráticas", disse o líder do partido de Putin em Nizhny Novgorod, Sergei G. Nekrasov. "Pode soar sacrílego, mas eu proporia a suspensão de toda esta coisa de eleição por ora, pelo menos para os cargos administrativos."

Putin, que pretende manter o poder se tornando primeiro-ministro sob Medvedev, declarou nos últimos dias que a Rússia possui uma democracia saudável, um senso renovado de orgulho nacional e um papel proeminente no cenário mundial. Seus simpatizantes em Nizhny Novgorod apontam para seus altos índices de popularidade como evidência de que suas políticas funcionam.

Um refrão ouvido com freqüência aqui e por toda a Rússia é que os anos difíceis logo após o colapso do comunismo deixaram as pessoas mais ávidas por estabilidade e uma economia robusta do que por uma democracia ao estilo ocidental. Atualmente, elas não se importam se uma eleição é contestada desde que um líder forte esteja no comando.

"Agora há alguma esperança para nós", disse Nina Aksyonova, 68 anos, uma moradora de Nizhny Novgorod, explicando a popularidade de Putin.

Assalto de propaganda
Nizhny Novgorod, um centro industrial com 1,3 milhão de moradores, era conhecida como Gorky durante a era comunista, quando era fechada a estrangeiros e era lar do físico dissidente Andrei D. Sakharov, que foi enviado para cá em um exílio interno. Após o colapso da União Soviética, ela se tornou um ninho de liberalismo, obtendo reconhecimento internacional após as autoridades terem buscado descartar a velha estrutura econômica esclerosada e abraçar o que eram consideradas reformas políticas prescientes.

Hoje, a autoridade flui do Kremlin para um governador regional nomeado por Putin, que aboliu a eleição de governadores na Rússia em 2004. O governador, Valery P. Shantsev, veio de Moscou e está encarregado de administrar a região e assegurar que o partido de Putin, o Rússia Unida, vença as eleições. A separação entre membros do governo e do partido se tornou tão indistinta que no dia da eleição, em dezembro, os membros da comissão eleitoral regional usavam grandes crachás do Rússia Unida.

Boris Y. Nemtsov se tornou um astro político na Rússia e no Ocidente como governador de Nizhny Novgorod e vice-primeiro-ministro nos anos 90, mas nos últimos meses ele e seu partido de oposição foram duramente atacados aqui. As emissoras de televisão nacional e regional, controladas pelo Kremlin e seus representantes, o atacam repetidamente -o chamando de tudo, de burocrata corrupto a traidor.

"Sua carreira é acompanhada de escândalos", dizia uma reportagem típica no popular Canal Um, pouco antes das eleições de dezembro. "Foram os idosos os primeiros a sentir os resultados do trabalho do governo de Nemtsov em seus bolsos. As aposentadorias caíram para o nível mais baixo em toda a história da Rússia. Boris Nemtsov costumava reunir a imprensa apenas para dizer que não se importava em quem os aposentados, carentes de dinheiro, votariam. Segundo os planos dos jovens reformistas, apenas os mais fortes deveriam viver até o próximo século."

Enquanto isso, um tipo diferente de guerra de propaganda estava sendo travada nas ruas. A Rússia tem posturas relativamente conservadoras em relação à homossexualidade, e durante todo o terceiro trimestre do ano passado, Nizhny Novgorod foi coberta com dezenas de milhares de panfletos dizendo que o partido de oposição liberal, pró-Ocidente, de Nemtsov, a União das Forças de Direita, defendia fervorosamente os direitos dos gays e empregava propagandistas com Aids. Nada disso era verdadeiro.

Os panfletos freqüentemente incluíam o nome e telefone do líder da chapa regional de candidatos do partido, Andrei Osipenko. Alguns continham camisinhas afixadas e anunciavam as ofertas de enviar simpatizantes para participarem de um evento do orgulho gay em Amsterdã.

Intimidação e violência vieram a seguir. As empresas cancelaram as doações após receberem ameaças de autoridades do governo, disse Sergei Veltishchev, um organizador da União das Forças de Direita. Alguém obteve a lista confidencial dos membros do partido -dirigentes do partido suspeitam que foram os serviços de segurança- e centenas de telefonemas ameaçadores foram feitos aos voluntários, dizendo que eles ou suas famílias seriam machucados caso ajudassem o partido.

Foi rejeitado espaço publicitário ao partido, de outdoors a jornais e televisão. Quando Nemtsov tentou fazer campanha em Nizhny Novgorod no final do ano passado, ninguém quis lhe alugar um salão para uma reunião. Em novembro, a sede do partido foi saqueada e pichada com palavrões e o chamando de "Partido dos Gays".

Poucas semanas antes das eleições, Osipenki desistiu, renunciando seu partido em uma coletiva de imprensa que contou com ampla cobertura da televisão estatal e lembrava as confissões públicas da era stalinista, que se seguiam aos julgamentos "espetáculo". Outros membros do partido fizeram o mesmo.

Os candidatos restantes do partido na região não fizeram campanha por medo.

"Você começa a pensar: você tem família, tem um negócio, e pode valorizar mais isso do que uma carreira política", disse Artur Nazarenko, um dirigente da União das Forças de Direita. O partido, antes uma potência regional, recebeu apenas 1% dos votos nas eleições parlamentares, tanto em Nizhny Novgorod quanto nacionalmente.

Outras figuras de oposição em Nizhny Novgorod foram tratadas de forma igualmente dura no último ano. Os líderes da coalizão chamada Outra Rússia foram repetidamente presos, com alguns acusados de incitar o terrorismo. Quando o grupo realizou uma manifestação aqui em março do ano passado, as emissoras de televisão locais tentaram afugentar o público, rotulando o evento como encontro de skinheads racistas ou de defensores dos direitos dos gays.

"Quanto à chamada oposição, apesar de haver grande dúvida de que exista no país", afirmou um apresentador do canal "Seti NN", "ela está agindo em violação da lei."

O prefeito de Nizhny Novgorod, Vadim Bulavinov, um líder do Rússia Unida, disse que a oposição fracassou por ser mal organizada.

"Se uma organização é fraca porque as pessoas não querem trabalhar para ela ou ajudá-la, por que o Rússia Unida deve ser culpado disso?" disse o prefeito. "Eu acho que se os partidos de oposição querem descobrir quem é o culpado, eles precisam olhar no espelho."

Ataques na imprensa
Com a oposição suprimida nos meses que antecederam as eleições de dezembro, o ativismo anti-Kremlin se agrupou em torno de jornais independentes e grupos sem fins lucrativos, os tornando alvos para as forças de segurança.

Em agosto, policiais arrombaram a porta da sucursal do "Novaya Gazeta", um jornal de oposição que criticava Shantsev e o prefeito Bulavinov. Investigadores acusaram o jornal de usar software ilegal e apreenderam os computadores, fechando o jornal até depois das eleições.

Promotores também fecharam ou impediram a distribuição de dois outros jornais regionais, o Leninskaya Smena e Trud, e realizaram auditorias agressivas das finanças de vários outros. "É uma demonstração de força: 'Se você se comportar mal, nós puniremos você'", disse Zakhar Prilepin, editor do "Novaya Gazeta" em Nizhny Novgorod.

O promotor regional, Valery Maksimenko, não respondeu aos vários pedidos de comentário.

No dia da batida no "Novaya Gazeta", a polícia apreendeu computadores dos escritórios da Fundação de Apoio à Tolerância, um grupo sem fins lucrativos que foi molestado por quatro anos após criticar o Kremlin e a guerra na Tchetchênia.

As autoridades parecem particularmente desconfiadas da fundação por receber dinheiro do Fundo Nacional para a Democracia, um grupo americano sem fins lucrativos financiado pelo governo americano. O Kremlin acusa grupos ocidentais pró-democracia de fomentarem levantes populares na Ucrânia, Geórgia e em outras partes nos últimos anos, prometendo que este tipo de coisa nunca acontecerá na Rússia.

O Serviço Federal de Segurança, conhecido pela sua sigla em russo, FSB, interrogou funcionários da fundação pela tolerância, parentes e amigos. Seus líderes, Stanislav Dmitriyevsky e Oksana Chelysheva, receberam ameaças de morte. E como parte da campanha de difamação, a emissora de televisão regional do Volga exibiu soldados russos sendo decapitados na Tchetchênia e disse que o grupo justificava aquelas mortes.

Em outubro, quando a fundação realizou um memorial por Anna Politkovskaya, uma jornalista de oposição morta em 2006, vários defensores estrangeiros de direitos humanos foram presos em Nizhny Novgorod. A polícia realizou nova batida nos escritórios da fundação, e as autoridades congelaram suas contas bancárias, sob acusação de que ela apoiava o terrorismo.

"A elite de governo atualmente não tem ideologia", disse Chelysheva. "A única meta dela é obter o máximo poder possível, manter esse poder de qualquer modo e lucrar com este poder. Neste sentido, essas pessoas, que são tão cínicas, são muito mais perigosas do que o Partido Comunista da URSS."

O grupo se chamava Sociedade para Amizade Russa-Tchetchena e se concentrava em expor o que considerava violações de direitos humanos na guerra russa contra os separatistas na Tchetchênia. Mas entrou em conflito com o Kremlin, que considerou seu trabalho como sendo colaboração com o inimigo.

Promotores acusaram a sociedade de extremismo e a fecharam depois dela ter republicado cartas de dois líderes separatistas tchetchenos. Dmitriyevsky foi condenado de incitar o ódio étnico e recebeu uma pena de prisão.

Pressão por Legitimidade
Apesar do Kremlin ter tido sucesso em desacreditar e suprimir os partidos de oposição, ele ainda assim enfrenta um problema criado por ele mesmo. As eleições atraem pouco interesse público por não serem competitivas, e os líderes do partido do governo temem um baixo comparecimento dos eleitores. Se relativamente poucas pessoas votarem, então a alegação de Putin de um forte apoio poderia ser questionada. Assim, as autoridades também têm concentrado suas energias em assegurar que as pessoas compareçam para votar.

Apesar do prefeito Bulavinov e Nekrasov, o líder do Rússia Unida, terem dito que os moradores não são obrigados a apoiar o partido, várias entrevistas na cidade e uma análise dos registros municipais indicam o contrário. Ficou claro que fortes táticas de pressão foram comuns antes das eleições de dezembro em Nizhny Novgorod, e a oposição disse que as espera novamente antes da eleição presidencial em 2 de março.

Na fábrica de veículos da GAZ, conhecida por seu sedã Volga, os operários não apenas foram ordenados a votar e então telefonar dos locais de votação logo em seguida: alguns tiveram que obter cédulas de voto em trânsito e preenchê-las na frente de seus chefes.

"Se você não votar pelo Rússia Unida, será muito ruim", lembrou um operário chamado Aleksandr, caracterizando a pressão sofrida pelos funcionários.

O esforço para coagir o eleitor claramente teve o efeito desejado, pelo menos na visão do Kremlin. Após a eleição, o presidente da GAZ, Nikolai Pugin, que é um alto líder do Rússia Unida e um legislador regional, anunciou que quase 80% de seus funcionários tinha votado, bem mais do que o comparecimento total da cidade, que foi de 51%. O Kremlin recompensou Pugin tornando um de seus funcionários um deputado no Parlamento federal.

Ao ser perguntado neste mês sobre o alto comparecimento, Pugin disse em uma entrevista que seus trabalhadores votaram livremente. "As pessoas vêem mudanças positivas e, como resultado, expressam sua opinião", ele disse.

As escolas públicas também foram envolvidas na campanha. Os pais em algumas escolas foram ordenados a participarem de reuniões obrigatórias com representantes do Rússia Unida, e as crianças foram usadas para arrastar seus pais até as urnas.

"Foi o mesmo cenário em todas as escolas", disse um professor. "E tudo vinha da liderança da cidade. Os diretores das escolas recebiam instruções e eles a executavam."

Autoridades regionais vigiavam os desdobramentos nas universidades locais, particularmente em duas das maiores, a Estadual de Lobachevsky e a Estadual do Volga. Os estudantes disseram que foram alertados a não participarem de marchas patrocinadas pela coalizão Outra Rússia. E disseram que antes das eleições, os administradores emitiram uma ameaça: se vocês não votarem no partido do governo, vocês serão expulsos de seus dormitórios.

"Todos ficaram assustados e nosso grupo inteiro foi e votou, como uma fila de soldados marchando", disse um estudante da Estadual do Volga.

Administradores de ambas as universidades disseram que as declarações dos estudantes sobre pressão eram falsas.

Mas ela não se limitou à votação.

Logo após o dia da eleição, várias centenas de estudantes de Lobachevsky foram informados que seriam levados de ônibus até Moscou, mas a universidade não disse o motivo. Quando desembarcaram perto da Praça Vermelha, eles se viram em meio a uma grande multidão.

Foi quando perceberam que eram participantes involuntários de um comício patrocinado pelo Nashi, um grupo jovem fortemente pró-Kremlin, para celebrar o triunfo do Rússia Unida e parabenizar Putin. George El Khouri Andolfato

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