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29/02/2008

Apoio dos Estados Unidos a Musharraf irrita paquistaneses

The New York Times
David Rohde*
Em Islamabad
O apoio persistente do governo Bush ao presidente Pervez Musharraf, apesar da rejeição maciça ao seu partido demonstrada pelos eleitores neste mês, está alimentando mais uma frustração dos paquistaneses em relação aos Estados Unidos.

Esse apoio tem enfurecido o povo, os políticos e os jornalistas daqui, além de provocar uma ira profunda a ações que são vistas como uma interferência dos Estados Unidos e à recusa de Washington em apoiar o novo governo, eleito democraticamente. O vice-secretário de Estado, John D. Negroponte, disse na quinta-feira (28/02) durante uma audiência no Senado que os Estados Unidos manterão os seus vínculos estreitos com Musharraf.

Os paquistaneses dizem que o governo Bush está interpretando de forma completamente errada o clima político no Paquistão, e desperdiçando uma oportunidade de angariar apoio do povo paquistanês para a sua luta contra o terrorismo. Os partidos de oposição que venceram as eleições parlamentares de 18 de fevereiro afirmam que são moderados e pró-americanos. Segundo os analistas, caso trabalhasse em conjunto com esses partidos, Washington poderia ganhar um novo e vital aliado.

Asif Hassan/AFP - 28.fev.2008 
Muçulmanos xiitas do Paquistão protestam sobre a bandeira dos EUA em Karachi

De acordo com eles, a insistência dos Estados Unidos em acreditar que Musharraf desempenha um papel significante só gerará uma luta pelo poder com o presidente, e distrairá o novo governo das iniciativas para implementar alternativas às políticas de Musharraf para melhorar a economia e combater o terrorismo. Essas políticas do presidente são tidas por um grande número de paquistaneses como fracassadas.

"Nunca vi uma ação tão irracional e destituída de praticidade por parte dos Estados Unidos", afirma Rasul Baksh Rais, um cientista político da Universidade Lahore de Ciências Gerenciais. "O país inteiro votou contra Musharraf. Este foi um referendo contra Musharraf".

No decorrer da semana passada, mais de doze editoriais e artigos de opinião foram publicados nos principais jornais paquistaneses acusando as autoridades graduadas dos Estados Unidos de imiscuírem-se nos assuntos do país. Muitos sentiram-se particularmente afrontados por uma série de declarações do presidente Bush e de outras autoridades do governo norte-americano elogiando Musharraf, apesar de este carecer nitidamente de apoio entre os eleitores.

Uma série de encontros pós-eleitorais entre autoridades da Embaixada dos Estados Unidos e Asif Ali Zardari, o chefe do vitorioso Partido do Povo Paquistanês, também foi criticada.

As autoridades norte-americanas reuniram-se três vezes com Zardari após a eleição. Eles também reuniram-se em duas ocasiões com Nawaz Sharif, o ex-primeiro-ministro cujo partido de oposição conquistou o segundo maior número de cadeiras no parlamento.

Nas reuniões, as autoridades norte-americanas pediram a ambos os líderes que trabalhassem em conjunto com forças moderadas e com Musharraf, segundo membros dos dois partidos e funcionários da embaixada. O que irrita os paquistaneses é esta insistência em incluir Musharraf no processo político do país.

As autoridades norte-americanas declararam que as reuniões foram rotineiras, e que o embaixador dos Estados Unidos e duas delegações parlamentares reuniram-se com partidos de todo o espectro político. "Isto é diplomacia-padrão", afirmou uma autoridade dos Estados Unidos, pedindo que o seu nome não fosse revelado.

Mas observadores paquistaneses afirmam que a solicitação de que os partidos atuem em conjunto com Musharraf foi inapropriada, tendo em vista a derrota estrondosa do presidente na eleição. Um exemplo típico da indignação com as reuniões foi um editorial publicado no domingo pelo "The News", um importante jornal diário em língua inglesa, com o título, "Por favor, tire as mãos!"

"Não se deve fazer mais nenhuma tentativa de intervir no processo democrático no Paquistão", disse o editorial. "O homem que os Estados Unidos continuam a apoiar tornou-se, de várias maneiras, parte dos problemas do Paquistão".

Uma autoridade graduada do governo dos Estados Unidos admitiu que existe de fato o temor, dentro do governo Bush, de que este seja visto como um agente de interferência nos assuntos internos do Paquistão. A autoridade, que pediu que o seu nome não fosse divulgado, já que não tem autorização para se pronunciar publicamente sobre o assunto, reconheceu que as tentativas norte-americanas no ano passado de criar um acordo de divisão de poder entre Musharraf e a ex-primeira-ministra Benazir Bhutto, que foi assassinada em 27 de dezembro, "na verdade não funcionaram como esperávamos".

"A última coisa da qual precisamos é de sermos vistos novamente pelos paquistaneses como um país que interfere nos seus assuntos internos", disse ele.

Mas embora as autoridades norte-americanas tenham procurado retratar os Estados Unidos como um elemento neutro em relação aos assuntos políticos paquistaneses, as suas declarações ressaltam repetidamente que Musharraf continua no centro da política de Washington no Paquistão.

Na última segunda-feira, Dana Perino, a porta-voz da Casa Branca, disse que Bush continua apoiando Musharraf devido "a todo o trabalho que este tem feito para ajudar Washington na área de contra-terrorismo".

"Agora caberá ao povo do Paquistão analisar como será o seu novo governo", declarou ela. "Mas o presidente certamente apóia Musharraf, e continuará apoiando".

Durante a sua audiência no Senado na quinta-feira, Negroponte declarou: "Creio que, como proposta genérica, nós pediríamos que as forças políticas moderadas trabalhassem juntas. E é claro que o Musharraf ainda é o presidente do seu país, de forma que esperamos continuar também trabalhando bem como ele".

Negroponte recusou-se a pedir a restituição dos cargos dos juízes expulsos no ano passado por Musharraf, quando este impôs estado de emergência no Paquistão. "Temos nos mantido silenciosos em relação a este assunto". A seguir, ele acrescentou: "Até onde sei".

O silêncio da parte dele e de outras autoridades norte-americanas fez com que os paquistaneses acusassem os Estados Unidos de ignorarem a vontade dos eleitores, dizem os analistas. A questão estimulou a fúria contra Musharraf e o voto de protesto contra ele.

No Paquistão, cada declaração dos Estados Unidos é dissecada pela mídia, e vista por grande parte da população como pressão norte-americana ostensiva.

No seu editorial da segunda-feira, o "Daily Business Recorder", um importante jornal de língua inglesa, criticou um telefonema dado por Bush a Musharraf, após o líder norte-americano ficar sabendo daquilo que o jornal chamou de "derrota eleitoral dos seus aliados". O editorial também citou Richard A.Boucher, um secretário assistente de Estado, que teria dito após a eleição que "Musharraf continua sendo importante para Washington".

Bush e outras autoridades governamentais ainda vêem em Musharraf um ator político significante e uma força mantenedora da estabilidade no Paquistão. Washington acredita que ele possa recuperar-se politicamente, segundo uma autoridade envolvida nas deliberações de políticas norte-americanas.

Esta autoridade afirmou que Washington está aguardando para ver se a oposição poderá formar a maioria de dois terços necessária para transformar Musharraf em um presidente impotente e meramente decorativo, ou até mesmo para submetê-lo a um impeachment. Mas os norte-americanos ainda não acreditam que o jogo tenha acabado para Musharraf.

"Musharraf ainda acredita contar com opções, o que é verdade", disse um funcionário do governo que conversou com a reportagem com a condição de que o seu nome não fosse divulgado. "O governo norte-americano também acredita nisso, mas apenas se Musharraf não exagerar nas suas ações".

No decorrer do ano passado, as avaliações dos Estados Unidos mostraram-se repetidamente equivocadas. Antes das eleições de 18 de fevereiro, um oficial de inteligência graduado norte-americano previu em uma entrevista coletiva que nenhum partido obteria uma maioria nítida e que Musharraf continuaria sendo a figura política mais forte no país.

Wamiq Zuberi, editor-chefe do "Daily Business Recorder", diz: "Obviamente, Washington não conta com a avaliação correta do clima político daqui". Ele e outros dizem que o fato de os Estados Unidos apoiarem Musharraf gerou consternação entre os analistas que acreditam não só que o presidente seja impopular, mas também que ultimamente ele tem apresentado um desempenho medíocre na guerra contra o terrorismo, polarizando o Paquistão e firmando uma série de armistícios com militantes nas áreas tribais remotas do país.

"Eu acompanhei isso durante anos, e nunca vi o problema se apresentar de forma tão clara, aparente e contínua", afirma Naseem Zehra, uma famosa analista e escritora paquistanesa, referindo-se àquilo que ela considera interferência norte-americana. "Não é de se surpreender, tendo em vista a mentalidade que prevalece em Washington".

Um fator crucial para a decisão do governo norte-americano de apoiar Musharraf é a sensação de que ele garante a lealdade do exército paquistanês, ainda que em dezembro tenha renunciado ao posto de comandante daquela instituição. Autoridades do atual governo norte-americano, bem como de governos passados, dizem temer que uma retirada do apoio norte-americano a Musharraf aliene as forças armadas paquistanesas, que continuam sendo as instituições mais poderosas do país.

"Ele ainda é valioso devido ao seu relacionamento com o exército", opina Daniel Markey, que ajudou a coordenar as politicas norte-americanas para o Paquistão, no Departamento de Estado, de 2003 a 2007. "Ele é uma pessoa com a qual os Estados Unidos devem trabalhar - e irão trabalhar - por temerem alienar um parceiro tão importante".

Oficiais militares ocidentais afirmam que as forças armadas paquistanesas - o último bastião potencial de apoio de Musharraf - transferiram a sua lealdade do presidente para o sucessor que ele escolheu, o general Ashfaq Parvez Kayani.

E dizem ainda que Kayani optará pela estabilidade, e não por salvar Musharraf.

"Se Kayani e Musharraf divergissem diametralmente, creio que Kayani prevaleceria", afirmou um oficial militar ocidental, solicitando que o seu nome não fosse divulgado.

Zehra, a analista, diz que Kayani distanciou-se de Musharraf ao emitir uma ordem surpreendente em janeiro, impedindo oficiais militares de ocuparem postos no governo ou de se engajarem na política.

A medida impediu efetivamente Musharraf de utilizar as poderosas agências de inteligência do Paquistão para manipular as eleições, como já fez no passado. Segundo Zehra, a lealdade das problemáticas forças armadas paquistanesas está deslocando-se irreversivelmente para Kayani. "O exército sempre será liderado pelo seu chefe", afirma Zehra. "O ex-chefe é sempre o ex-chefe..."

* Jane Perlez e Salman Masood, em Islamabad, e Helene Cooper, em Washington, contribuíram para esta matéria. UOL

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