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29/02/2008

Sucessor de Putin, Medvedev deve impor estilo menos gelado

The New York Times
C. J. Chivers
Em Alabino, Rússia
Dmitri A. Medvedev, o homem escolhido para ser o próximo presidente da Rússia, estava cercado de soldados. Era 23 de fevereiro, dia dos Defensores da Pátria, e Medvedev tinha viajado para o local de paradas da Divisão Motorizada de Rifles Tamanskaya, perto de Moscou.

A divisão há muito faz parte da vida política russa. Seus batalhões marcharam por décadas em formação na Praça Vermelha.

Há oito anos, quando o presidente Vladimir V. Putin apresentou-se ao mundo, seus batalhões lutaram pela capital da Tchetchênia, ajudando a forjar a personalidade de Putin como líder de resolução de ferro.

James Hill/The New York Times 
Outdoor em Moscou mostra Putin (esq.) e Medvedev com a legenda "juntos venceremos"

Agora, Medvedev, sucessor presidencial pessoalmente selecionado por Putin, está criando sua própria identidade pública, de acordo com um roteiro programado. E aqui, em uma mistura de símbolos soviéticos e russos, o homem que está subindo ao poder evita os temas duros que freqüentemente acompanharam as aparições de Putin.

Ele preferiu falar sobre as condições de vida, de soldados e civis. "Vamos falar sobre os problemas que existem", disse aos soldados ao seu lado, diante de uma bancada de câmaras de televisão. "Vamos ter uma conversa normal. Por favor."

O resultado da campanha presidencial de um mês, que culmina no domingo, quando os eleitores irão às urnas, já é conhecido. A menos que algo de extraordinário e imprevisto aconteça, Medvedev, 42, um burocrata pouco impressionante que nunca ocupou um cargo eleito, vencerá por grande maioria e irá se tornar o novo líder do Kremlin.

Medvedev, que não tem o histórico imponente de ex-membro da KGB de seu patrocinador, disse que nomeará Putin como seu primeiro-ministro.

Ao se tornar o segundo homem mais observado do país, Medvedev apresentou-se implicitamente como leal a Putin e, ao mesmo tempo, um futuro presidente que empunhará o poder de forma mais suave do que seu predecessor.

Se isso é apenas pose, não se sabe. Medvedev, em comentários fora dos círculos oficiais russos, é considerado uma marionete, um presidente que vai trabalhar de acordo com o comando de Putin.

Medvedev, entretanto, deu passos imprevistos. Em discurso no dia 15 de fevereiro, ele disse que a liberdade era necessária para o Estado ter legitimidade entre seus cidadãos. Ele também estabeleceu objetivos de política interna no que pareceu um comunicado a classe consumidora russa em expansão.

Medvedev também passou uma imagem comum -martelando-a com Deep Purple, a banda de heavy metal britânica cuja música era popular nos tempos soviéticos- que sugere brincadeiras de vida de dormitório que certamente não são putinescas.

Suas palavras e comportamentos geraram perguntas inesperadas, mas freqüentes. Será que Medvedev de fato abraça o que diz? Poderá suavizar o controle sobre a vida política russa que foi característico do governo Putin? E se assim fizer, não entrará em atrito com Putin, sua principal fonte de poder?

Os analistas estão divididos. Michael A. McFaul, diretor do Centro de Democracia e Desenvolvimento e Estado de Direito da Universidade de Stanford, disse que Medvedev tinha uma orientação mais ocidental do que muitos dentro do Kremlin. Ele sugeriu, contudo, que sua adoção oficial da liberdade era mais verniz do que a substância. "Isso é uma questão de relações-públicas", disse ele. "Não é mudança estratégica."

Sergei Markov, cientista político próximo ao Kremlin e membro do parlamento russo, disse que Medvedev promoverá maior liberdade política, até certo ponto. "Medvedev tentará estimular a competição política dentro do sistema, sem desestabilizá-lo", disse ele. "Como ele fará isso, veremos. Acho, porém, que e estabilidade será uma prioridade."

Ele também disse que o modelo que Putin havia escolhido para sua transição do mais alto cargo da Rússia e os surtos de inclinações liberais de Medvedev podem levar a divisões não intencionais dos círculos de poder russos. Por isso, disse ele, Medvedev não fará muita pressão.

"O governo russo tem instituições fracas", disse Markov. "Uma divisão entre duas personalidades poderia desestabilizar a situação política. Como a política tem um papel importante na economia russa, se houver uma divisão, pode desestabilizar a economia também. Então, é um grande risco."

Enquanto os russos e os analistas contemplam o futuro com Putin fora da presidência, os contrastes entre ele e o futuro presidente e entre as últimas palavras do Kremlin e sua recente história são visíveis em muitas formas, até no próprio contexto da discussão.

A temporada de eleições aqui não é uma campanha que um ocidental compreenderia. É uma certificação.

Medvedev, que é vice-primeiro-ministro e diretor da Gazprom, empresa que monopoliza o gás russo, fez uma excursão pelo país sem as distrações da competição, em parte porque o governo tirou da cédula o único verdadeiro candidato de oposição.

Há três outros candidatos: Gennadi A. Zyuganov, líder do Partido Comunista, que foi marginalizado em parte pela popularidade de Putin e seu domínio da nostalgia soviética; Andrei V. Bogdanov, o quase desconhecido diretor de um partido democrático ainda menos poderoso; e Vladimir V. Zhirinovsky, ultranacionalista que serviu de bobo da corte não oficial do Kremlin.

A oposição organizada sugeriu que esses candidatos são um trio estimulado a concorrer pelo Kremlin para criar a aparência de uma disputa. As pesquisas prevêem que, juntos, os candidatos devem receber tão pouco quanto 20% dos votos.

Sem um candidato viável na oposição, o Kremlin usou as formalidades de campanha para introduzir um novo líder. Medvedev, que emana inteligência e calma, mas pouca intensidade, é praticamente supremo; apenas Putin continua acima dele.

A televisão estatal dá a ele uma cobertura extensa e calorosa. Há pouca contestação pública das idéias sobre o curso da Rússia, muito menos um questionamento das qualificações de Medvedev para ser o próximo líder de um país com 140 milhões de habitantes, um arsenal nuclear e as maiores reservas de hicrocarboneto do mundo.

Em vez disso, Medvedev usou a campanha como um microfone aberto, ressaltando seu projeto de tornar a Rússia -que se recuperou de uma crise financeira nos anos 90, mas tem problemas duradouros com infra-estrutura, saúde pública, corrupção e uma economia que depende da extração de recursos- um Estado vibrante e economicamente diversificado.

Medvedev prometeu melhorar as escolas, construir moradias, estimular empresas e fazer uma reforma tributária de forma a estimular a estabilidade social e doméstica, incluindo alívios fiscais para a poupança de aposentados, doações e gastos com educação e saúde. As mudanças estão a caminho, disse.

Medvedev disse que vai modificar o sistema de saúde para permitir maior escolha. Ele desafiou a noção persistente que o governo russo, cuja burocracia cresceu com Putin e continua ineficiente e corrupta, é inevitavelmente gigantesco e impossível de mudar.

Grande parte da sua agenda cobre os projetos que o próprio Putin estabeleceu, inclusive o combate à corrupção e a reversão do debilitado estado da saúde pública russa.

As diferenças entre os estilos dos dois homens, porém, pode ser profunda.

Quando Medvedev chegou para encontrar-se com os soldados, teve que passar por um enorme cartaz com o rosto de Putin ao lado de cenas de armas e combate.

"O trabalho de um homem de verdade - defender a pátria, a família e os entes queridos", dizia o cartaz.

Putin, com músculos fortes e especialista em artes marciais, passa a imagem de um homem em forma, que fica à vontade em conflitos. Medvedev é magro, mas não tem a mesma aura. Ele passou rapidamente pelo cartaz, olhando para o chão.

Diferentemente de Putin, Medvedev, em quase todas as suas aparições, também evitou falar de política externa ou das tensões da Rússia com o Ocidente.

As capitais ocidentais estão esperando uma mudança em relação à assertividade de Putin. Mas além de uma declaração de apoio à Sérvia e uma recusa de reconhecer Kosovo, Medvedev não ofereceu propostas pontuais de como administrará o papel da Rússia no mundo.

Poucos analistas esperam mudanças significativas.

"As personalidades trocam, mas isso não muda os interesses de uma nação", disse Boris Kagarlitsky, diretor do Instituto de Estudos de Globalização e Movimentos Sociais em Moscou.

McFaul, de Stanford, acredita que os EUA e a Rússia enfrentarão dificuldades diplomáticas quando Medvedev mudar-se para o Kremlin, independentemente de suas inclinações.

"Ele é mais pró-Ocidente e mais ocidental em suas atitudes do que qualquer um dos outros candidatos", acrescentou. "Apesar disso, é fraco."

Um alto diplomata ocidental disse que aqueles que estudam a Rússia de perto formularam um teste do poder que Medvedev terá: no verão, o Kremlin enviará uma delegação à reunião do Grupo dos Oito no Japão. As apostas informais já estão sendo feitas de quem irá. Putin, Medvedev ou ambos? Deborah Weinberg

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