UOL Notícias Internacional
 

01/03/2008

Opinião: A última esperança da Rússia

The New York Times
Victor Erofeyev*
Em Moscou
Se conseguir me recuperar de uma dor de barriga até domingo, lançarei meu voto nas eleições presidenciais russas. No entanto, não há necessidade de me apressar em ficar bom, porque meu voto não fará diferença.

Houve um tempo em que parecia que meu voto importava. Em 1996, vi-me na Irlanda no dia das eleições e fiz um enorme esforço para ir até a embaixada em Dublin para votar em Boris N. Yeltsin, porque temia que os comunistas voltassem ao poder com seu oponente, Gennadi A. Zyuganov, e eu novamente teria sérios problemas. Zyuganov está concorrendo à presidência novamente neste ano, mas eu não tenho mais medo. Ele perderá.

Isto não só me assegura, mas também me faz pensar sobre como o presidente Vladimir V. Putin, em seus oito anos no poder, conseguiu derrotar o comunismo. Ele o destruiu tão brutalmente que seria tolice até pensar sobre a possibilidade de sua volta. Ainda assim, algumas pessoas fora da Rússia acreditam que Putin livrou-se apenas dos democratas, dos partidos liberais e da mídia independente. Não, ele também descartou os oligarcas que buscavam poder, que são tão impopulares junto ao povo russo, e ele livrou o país do caos e da instabilidade, que, segundo ele, vicejavam nos anos 90.

Independentemente de como se olha para a questão, Putin também levou a ordem para a Tchetchênia: ao menos não há mais jovens soldados russos voando em caixões todo dia. E se a televisão está oferecendo mais programas de humor e música em vez de discussões políticas, isso é bem vindo. Quanto aos partidos de oposição, os verdadeiros, eles brigaram entre si e se tornaram tão indistintos em suas exigências radicais que as pessoas, com a ajuda de Putin, pararam de dar atenção a eles.

Para a maioria dos russos, Putin entrará para a história como uma figura positiva. O fato de ter contado ativamente com seus colegas da KGB durante seu governo não incomoda muita gente. Em quem mais ele dependeria em sua luta para impor a ordem? Ele trabalhou com o material humano que chegou para ele da profundidade da história russa, pessoas que até hoje bebem, roubam e consideram a política uma fonte de poder pessoal e enriquecimento. Se Putin preferiu não ter confiança, foi porque sentia claramente a sandice na amostra genética nacional.

Que ele foi longe demais em algumas coisas, que ele irritou a Europa, que às vezes foi vingativo - são questões separadas. Seus amigos na KGB foram criados com ódio do Ocidente. Agora, pelo menos, eles se limitam, na maior parte, à retórica negativa sobre o Ocidente. Então, houve um progresso. Putin deu ao seu povo fé no amanhã: não é por acaso que a Rússia hoje está cheia de restaurantes lotados, casas de jogos, cassinos, discotecas, carros e livros sobre tudo, desde o budismo até a homossexualidade. Putin teve sorte em todos seus oito anos no cargo: o preço do petróleo subiu, a Rússia ficou rica, e a vida ficou boa. A vida privada continua notavelmente livre.

Seu maior erro foi seu desejo de tornar a Rússia sucessora da União Soviética. Isso gerou o discurso imperial que tanto assustou os países vizinhos, sua defesa da política externa agressiva da União Soviética e os danos à imagem da Rússia no mundo. O que é pior é que nosso próximo presidente, Dmitri A. Medvedev, a quem Putin escolheu como seu herdeiro como se fosse um czar, terá que lidar com as fraquezas russas que estavam escondidas da população sob os lemas da propaganda. O fracasso em modernizar a indústria ou a agricultura, a corrupção crescente no governo, a bebida em toda parte, os recordes de assassinatos e suicídios, o terrível estado da saúde russa e os problemas que vêm com o encolhimento da população recairão sobre os ombros do jovem Medvedev.

Ninguém, provavelmente nem mesmo Putin, conhece os verdadeiros objetivos e valores de Medvedev. Ele nunca foi um político público -apesar de se dizer nas ruas que é liberal culto, moderado e até pró-Ocidente, visão não compartilhada pelos dissidentes. Quando jovem, ele lutou pela democracia ao lado do futuro prefeito de São Petersburgo, Anatoly Sobchak, e nunca foi conhecido por conexões profissionais com os serviços secretos. Mesmo assim, seus laços próximos com seu atual chefe falam de uma paciência sem limite e de uma capacidade de auto-limitação.

Se Medvedev vai emergir como um novo Khruschev, pronto para um descongelamento ideológico, ou um novo Gorbachev, que também chegou ao cargo sem sua equipe própria, é impossível dizer. Putin não morreu, como Stálin e uma série de líderes comunistas fizeram quando deixaram o poder. Está lá, sorridente, segurando Medvedev pela mão. O rei não está morto, e é cedo demais para gritar: "Longa vida ao novo rei!"

Novamente, o futuro da Rússia está em aberto e é imprevisível. Haverá um governo duplo? Haverá confronto entre os dois líderes ou coexistirão em paz? Será que Dmitri Medvedev desaparecerá ao longo do caminho, deixando o poder novamente para Vladimir Vladimirovich? Não tenho respostas. Mas direi o seguinte: para melhor ou para pior, Medvedev é a última esperança para mim e para Rússia que eu amo. Se ele se provar uma figura falsa da história, então a Rússia, não importa o quanto tente parecer um superpoder, afundará nas profundidades como aquele submarino Kursk. Dimitri Anatolevich, a escolha é sua.

*Victor Erofeyev é autor da coleção de contos "Life With an Idiot". Este artigo foi traduzido do russo pelo "International Herald Tribune". Deborah Weinberg

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