UOL Notícias Internacional
 

04/03/2008

Juventude iraquiana mostra desilusão com o extremismo religioso - parte 1

The New York Times
Sabrina Tavernise
Em Bagdá
Após quase cinco anos de guerra, muitos jovens iraquianos, exaustos pelas constantes exposições diretas à violência do extremismo religioso, dizem ter se desiludido com os líderes religiosos e ficado céticos em relação à fé que estes pregam.

Em dois meses de entrevistas com 40 jovens em cinco cidades iraquianas, detectou-se uma tendência à desilusão, que faz com que os jovens iraquianos, tanto os pobres quanto os de classe média, culpem os clérigos pela violência e as restrições que limitaram as suas vidas.

"Eu odeio o islamismo e todos os clérigos porque eles tolhem a nossa liberdade todos os dias, e as suas instruções são um fardo para nós", declarou Sara Sami, uma aluna de segundo grau em Basra. "A maioria das garotas na minha escola odeia o fato de os muçulmanos serem as autoridades, porque eles não merecem governar".

Johan Spanner/The New York Times 
Um muezzin convoca os fiéis para a oração em uma mesquita de Bagdá, no Iraque

Atheer, um rapaz de 19 anos de um bairro pobre e predominantemente xiita no sul de Bagdá, disse: "Os religiosos são mentirosos. Os jovens não acreditam neles. Os caras da minha idade não estão mais interessados em religião".

A mudança no Iraque vai de encontro a tendências de aumento da prática religiosa entre os jovens de grande parte do Oriente Médio, onde a religião substituiu o nacionalismo como ideologia unificadora.

Embora os extremistas religiosos sejam admirados por inúmeros jovens em outras partes do mundo árabe, o caso do Iraque se constitui em um teste do que pode acontecer quando são aplicadas teorias extremistas. Pessoas pegas fumando tiveram os dedos quebrados. Quem usava cabelos compridos teve a cabeleira cortada à força, e a seguir foi obrigado a comer os cabelos. Foi nesse laboratório que firmou-se a desilusão com os líderes islâmicos.

Ninguém sabe se a mudança significa uma grande fuga da religião. Uma religiosidade tremenda ainda predomina nas vidas privadas dos jovens iraquianos, e os líderes religiosos, apesar do crescente ceticismo, ainda detêm um poder enorme. Além do mais, mensurar a adesão à religião é algo complicado no Iraque, onde o acesso de forasteiros às cidades e vilas distantes de Bagdá é limitado.

Mas, pelo menos de forma casual, observa-se uma mudança nas escolhas que vêm sendo feitas pelos jovens iraquianos.

Professores relatam dificuldade para recrutar alunos para aulas de religião. O comparecimento às orações semanais parece ter diminuído, até mesmo nas áreas onde a violência em grande parte reduziu-se, segundo religiosos e imames em Bagdá e Falluja. Em duas visitas no outono passado às sessões semanais de orações de seguidores do clérigo xiita Muqtaad al-Sadr em Bagdá, as multidões que compareceram eram bem menores do que em 2004 e 2005.

Tais tendências, caso perdurem, podem levar ao enfraquecimento do poder político dos líderes religiosos no Iraque. Em um reconhecimento de tal mudança, os partidos políticos deixaram de fazer referências ostensivas à religião.
JUVENTUDE IRAQUIANA
Johan Spanner/The New York Times
Xeque Qasim, um clérigo xiita moderado, em seu escritório
PARTE 2


"No início, os jovens deram seus olhos e suas mentes aos clérigos, acreditando neles", afirma Abu Mahmoud, um clérigo sunita moderado em Bagdá, que trabalha no sentido de desprogramar extremistas religiosos detidos pelos Estados Unidos. "É doloroso admitir, mas as coisas mudaram. As pessoas perderam muito. Eles dizem aos clérigos e aos partidos: vocês nos deram este prejuízo".

"Quando decapitam alguém, eles dizem 'Allahu akbar' (Alá é grande) e lêem versos do Alcorão", diz um xeque xiita moderado de Bagdá.

"Os jovens acham que isso é o islamismo", explica ele. "Assim, o islamismo é um fracasso, não apenas na cabeça dos estudantes, mas também na comunidade".

Uma professora da Escola de Direito da Universidade de Bagdá, que identificou-se apenas como Bushra, disse a respeito das suas alunas: "Elas modificaram os seus pontos de vista a respeito da religião. Começaram a detestar os homens religiosos. Fazem piadas sobre esses homens porque sentem nojo deles".

As coisas nem sempre foram assim. Nos últimos anos Saddam Hussein encorajou a religião na sociedade iraquiana, tendo construído mesquitas e injetado mais religião no currículo das escolas públicas, mas sempre garantindo que isso atendesse às suas necessidades autoritárias.

Os xiitas, considerados uma força política de oposição e uma ameaça ao poder de Saddam Hussein, eram mantidos sob severa vigilância. Jovens xiitas que praticavam religião eram vistos como subversivos políticos e corriam o risco de atrair a atenção da polícia.

Por essa razão a ocupação norte-americana foi bem recebida por parte dos xiitas, que pela primeira vez foram capazes de praticar livremente a sua religião. Eles logo tornaram-se uma potente força política, à medida que os líderes políticos voltaram-se para o seu passado comum e doloroso e para o seu respeito à hierarquia religiosa xiita.

"Depois de 2003, era impossível colocar um pé na husseiniya (lugar de oração dos xiitas), porque o lugar estava superlotado de fiéis", diz Sayeed Sabah, um líder religioso xiita de Bagdá.

A religião deslocou-se abruptamente para o espaço público xiita, mas muitas vezes de maneiras que fizeram com que iraquianos com alto nível de escolaridade e religiosos sentissem-se desconfortáveis. As milícias ofereciam cursos corânicos. Qualquer um virava clérigo. No bairro de Mahmoud, um açougueiro que nada conhecia sobre o islamismo tornou-se líder de uma mesquita.

O xeque Qasim, um clérigo moderado, lembra-se de ter visto com assombro um ex-aluno seu, que só tirava notas medíocres, passar pelo trânsito parado em um longo comboio de veículos utilitários esportivos em Bagdá. Ele havia se tornado um líder religioso.

"Eu achei que fosse sair do carro, agarrá-lo e dar-lhe um tapa", conta o xeque. "Essas pessoas não merecem tais postos".

Um funcionário do Ministério da Educação em Bagdá, xiita secular, descreveu a fé recém-descoberta da seguinte maneira: "Foi como se eles quisessem vestir uma roupa nova e de última moda".

Os religiosos sunitas também viram aumentar o número de fiéis nas mesquitas, mas logo tornaram-se reféns de grupos de extremistas religiosos, tanto estrangeiros quanto iraquianos, que se prepararam para combater os Estados Unidos. Continua UOL

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    11h29

    0,19
    3,285
    Outras moedas
  • Bovespa

    11h37

    0,72
    63.710,89
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host