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04/03/2008

Juventude iraquiana mostra desilusão com o extremismo religioso - parte 2

The New York Times
Sabrina Tavernise
Em Bagdá
Zane Mohammed, um jovem magro e alto de 19 anos e expressão séria, observou os fatos com curiosidade quando os primeiros islamitas no seu bairro em Bagdá foram a barbearias, casas de chá e lojas de material de carpintaria, antes de assumirem o controle sobre as mesquitas. Segundo Mohammed, eles não eram pessoas de baixo nível de escolaridade nem pobres, embora se concentrassem naqueles que eram.

Então, certa manhã, enquanto aguardava o ônibus para a escola, ele viu um homem dirigir-se a um vizinho, um professor universitário cuja orientação religiosa Mohammed desconhecia, baleá-lo três vezes à queima-roupa e voltar calmamente ao seu carro, tão calmo como se estivesse saindo de uma mercearia".

"Ninguém está pensando", queixou-se Mohammed em uma entrevista em outubro do ano passado. "Nós só usamos as nossas mentes para decidir o que comer. Isso me deixa muito triste. Ouvimos certas coisas e simplesmente acreditamos nelas".

Johan Spanner/The New York Times 
Um homem lê versos do Alcorão para o seu filho em uma mesquita de Bagdá

Em 2006, até mesmo aqueles que inicialmente participaram da violência estavam se cansando. Haidar, que abandonou a escola de segundo grau, sentiu orgulho em dizer à sua família que estava seguindo um clérigo xiita na luta contra os soldados norte-americanos no verão de 2004. No entanto, dois anos depois, ele viu-se na companhia de bandidos.

Os jovens membros das milícias usavam drogas. Os presentes deixaram de ser motocicletas e passaram a ser armas. Em três anos, Haidar presenciou cinco assassinatos, a maioria de sunitas, incluindo o de um motorista de táxi que foi executado no seu carro.

E para os jovens sunitas as coisas foram tão ruins quanto para os xiitas, ou até piores.

Assediados pela Al Qaeda da Mesopotâmia, um grupo nativo de insurgentes sunitas que as agências de inteligência norte-americanas alegam ser dirigido a partir do exterior, eles viram-se encalhados em bairros governados por leis do século sete. Durante uma entrevista com doze adolescentes sunitas em um centro de detenção em Bagdá, durante vários dias de setembro passado, vários deles expressaram alívio por estarem presos, de forma que podiam usar calções. Nos seus bairros, se usassem tal vestimenta seriam punidos.

Alguns iraquianos argumentam que a política baseada na religião diz muito mais respeito à identidade do que à fé. Quando os xiitas votaram maciçamente em partidos religiosos em uma eleição em 2005, aquilo teria sido mais uma tentativa de exibir o seu número do que uma vitória do religioso sobre o secular.

"Foi uma luta para provar a nossa existência", diz um jovem jornalista xiita da cidade de Sadr. "Estávamos abraçando a nossa existência, e não uma religião".

A guerra se arrastou, e jovens de seitas sunitas e xiitas envolveram-se cada vez mais nela. Criminosos passaram a utilizar adolescentes e garotos para realizar assassinatos. O número de adolescentes iraquianos em centros de detenção norte-americanos em novembro do ano passado era sete vezes superior ao de abril do mesmo ano. E a principal prisão de adolescentes do Iraque, que fica em Bagdá, está com o triplo da população carcerária da época anterior à guerra.
JUVENTUDE IRAQUIANA
Johan Spanner/The New York Times
Xeque Qasim, um clérigo xiita moderado, em seu escritório
PARTE 1


Mas embora os jovens assumissem um papel mais ativo na violência, eles eram menos propensos do que os adultos a motivarem-se pela religião. Dos 900 menores de idade detidos em prisões controladas pelos Estados Unidos em novembro passado, menos de 10% alegava estar travando uma guerra religiosa, de acordo com as forças armadas norte-americanas. Já entre os prisioneiros adultos, um terço declarou que a motivação era religiosa.

Uma funcionária do sistema carcerário norte-americano no Iraque diz que, segundo a sua estimativa, apenas um terço da população carcerária adulta, que é preponderantemente sunita, pratica orações.

"Como grupo, eles não são religiosos", afirma o general Douglas Stone, chefe das operações de detenção das forças armadas dos Estados Unidos. "Quando lhes pergunto se estão fazendo isso pela jihad, a resposta é não".

Muath, um sunita esguio de 19 anos, que tem um olhar distante e as bochechas côncavas, é um exemplo típico. Ele vendia créditos para telefones celulares e flores de plástico, lutando para sustentar a mãe e cinco irmãos pequenos, quando um recrutador insurgente na zona ocidental de Bagdá, um homem de mais de 30 anos que era um cliente regular, ofereceu-lhe dinheiro na primavera passada para que ele participasse de um grupo insurgente cujas motivações eram um misto de dinheiro e seita.

Muath, o único provedor da família, concordou. De repente a sua família pôde novamente comer carne, disse ele em uma entrevista em setembro do ano passado.

Pelo menos parte da violência religiosa em Bagdá tem algo a ver com dinheiro. Um funcionário do centro de detenção Kadhimiya, onde Muath foi encarcerado no outono passado, conta que as gravações de decapitações garantem preços bem mais elevados no mercado de DVDs do que as de execuções a tiros, o que explica por que até mesmo seqüestradores não religiosos decapitam reféns.

"O terrorista adora o dinheiro", opina o capitão Omar, um carcereiro que não quis ser identificado pelo nome completo. "O dinheiro traz em si uma grande mágica. Eu dou a alguém US$ 10 mil para realizar determinada tarefa. Você acha que ele recusa?"

Quando Muath foi preso no ano passado, a polícia descobriu dois reféns, irmãos xiitas, em um cativeiro revelado por Muath. Fotografias mostravam os homens fitando a câmera de olhos arregalados; túnicas negras cobriam seus corpos.

A luta violenta contra os Estados Unidos era fácil de se romantizar à distância.

"Eu adorava Osama Bin Laden", revela uma estudante universitária iraquiana de 24 anos. Ela referia-se ao que sentia antes da guerra tomar conta da sua nativa Bagdá. O ataque de 11 de setembro de 2001 contra a supremacia dos Estados Unidos foi satisfatório, e as mortes abstratas.

Agora, a estudante expõe as reclamações familiares: a sua faculdade segregou as revistas de segurança com base no sexo do aluno; os guardas disseram a ela para deixar de usar saias; ela agora cobre a cabeça por uma questão de segurança.

"Atualmente eu odeio o islamismo", diz ela, sentada na sala de estar despojada da sua família, no centro de Bagdá. "A Al Qaeda e o Exército Mahdi estão disseminando o ódio. Pessoas estão sendo assassinadas sem nenhum motivo".

Os pais tomaram novas precauções para manter os filhos longe de problemas. Abu Tahsin, um xiita do norte de Bagdá, disse que quando os seus parentes construíram uma mesquita xiita, ele não se registrou junto às autoridades religiosas, ainda que isso fosse lhe proporcionar privilégios. Ele não queria acabar vinculado a algum dos principais grupos religiosos que controlam Bagdá.

Em Fallujah, uma cidade sunita a oeste de Bagdá que havia sido ocupada pela Al Qaeda, o xeque Khalid al-Mahamedi, um clérigo moderado, disse que atualmente os pais vêm com os filhos às mesquitas para conhecer os instrutores dos cursos corânicos. As famílias costumavam se preocupar mais com as filhas adolescentes, mas agora, segundo o xeque, preocupam-se mais com os filhos homens.

"Antes, os pais advertiam os filhos para que não fumassem ou bebessem", contou Mohammed Ali al-Juamili, de Fallujah, pai de um rapaz de 20 anos. "Mas agora todas as nossas energias concentram-se em não deixar que eles se envolvam com o terrorismo".

Os recrutadores são incansáveis e, além do mais, espertos, oferecendo coisas das quais os seus jovens alvos necessitam. Stone compara isso ao dinheiro que um cafetão oferece a uma possível prostituta. Oficiais militares dos Estados Unidos nos centros norte-americanos de detenção dizem que os detentos pertencentes a Al Qaeda são os mais bem preparados para sessões grupais e os que fazem a maior parte das perguntas.

Um recrutador da Al Qaeda aproximou-se de Mohammed, o rapaz de 19 anos, no campus universitário, oferecendo aulas de inglês. Embora tais aulas fossem uma ambição antiga de Mohammed, assim que ele soube o que o homem queria, evitou-o educadamente.

"Quando você conversa com eles, acha-os muito modernos e inteligentes", diz Mohammed, um xiita não praticante, que lembra-se de ter fingido sentir desdém pela sua própria seita para evitar suspeitas.

Porém, o grupo no qual eles se concentram é formado pelos pobres e os que não estudaram. Cerca de 60% da população carcerária adulta nas cadeias norte-americanas no Iraque é analfabeta, incapaz de ler sequer o Alcorão que os recrutadores religiosos pregam.

Isso leva a estranhos resultados. Um jovem detento, cliente de Abu Mahmoud, o clérigo sunita moderado, estava convencido de que tinha que matar os seus pais quando fosse solto, porque eles casaram-se de forma que não foi suficientemente islâmica. Stone está tentando corrigir o problema, oferecendo ao rapaz aulas de religião ministradas por moderados.

Existe um novo jogo favorito na animada moradia do jovem jornalista de Bagdá. Quando eles vêem na televisão um homem de turbante, gritam e fazem piadas. Em uma das piadas, as pessoas são advertidas a não fornecer os números dos seus telefones celulares a um religioso. "Se ele souber o número, roubará os créditos do telefone", diz o jornalista. "Os xeques estão criando uma sociedade de descrentes". UOL

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