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04/03/2008

Krugman: Barack Obama é um ponto de interrogação que divide os progressistas

The New York Times
Paul Krugman
Colunista do The New York Times
Após sua vitória nas eleições legislativas de 2006, parecia certo que os democratas tentariam transformar a campanha presidencial deste ano em outro referendo das políticas republicanas. Afinal, o público parecia cheio não apenas do presidente Bush, mas também do partido. Por exemplo, uma recente pesquisa do Centro Pew de Pesquisa mostrou que os democratas são preferidos em todos os temas exceto o terrorismo. Eles até mesmo contam com uma vantagem de 10 pontos percentuais em "moralidade".

Adicione a isto o fato de que as percepções sobre a economia estão piorando semana a semana e alguém poderia esperar que o tema central da campanha democrata seria "vamos expulsar os vagabundos".

Mas uma coisa engraçada aconteceu no caminho para a eleição de 2008.

A menos que Hillary Clinton consiga uma grande vitória na terça-feira, Barack Obama será o candidato democrata. E ele não é o tipo de candidato que alguém poderia esperar que surgiria de uma reação contra a governança republicana.

Ninguém confundiria Obama com um republicano -apesar de contrariando as alegações tanto de simpatizantes quanto oponentes, seu retrospecto de votação o coloca, juntamente com Hillary, mais ou menos no centro do Partido Democrata, e não em sua ala progressista.

Mas Obana, em vez de enfatizar o mal causado pelo governo do outro partido, gosta de culpar ambos os lados pelo nosso estado político lamentável. E em seus discursos ele promete não uma rejeição do republicanismo, mas uma era de unidade pós-partidária.

Isto -juntamente com sua adoção de argumentos conservadores na questão crucial da saúde- é o motivo para a ascensão de Obama estar causando tanta divisão entre os ativistas progressistas, as próprias pessoas que alguém esperaria que estariam unidas e energizadas diante da perspectiva de finalmente colocar um fim a uma longa era de domínio político republicano.

Alguns progressistas estão atônitos com a direção que seu partido parece estar seguindo: eles queriam outro Franklin Delano Roosevelt, mas sentem que estão obtendo uma versão de Michael Bloomberg com oratória melhorada.

Mas outros insistem que a mensagem de Obama de esperança e seu carisma pessoal resultarão em uma vitória eleitoral esmagadora, e ele implantará uma agenda dramaticamente progressista.

O problema é que a fé na capacidade transformadora de Obama se apóia em surpreendentemente pouca evidência.

A habilidade de Obama de atrair multidões entusiasmadas a comícios é um bom sinal para a eleição geral; assim como sua habilidade de levantar grandes somas. Mas nenhuma aponta para uma vitória esmagadora.

Os números das pesquisas não são de grande ajuda: por ora, pelo menos, é possível encontrar pesquisas que dizem tudo o que alguém quer ouvir, da pesquisa CBS News/New York Times que dá a Obama uma vantagem nacional de 12 pontos sobre John McCain, a uma pesquisa Mason-Dixon que mostra McCain vencendo na Flórida por 10 pontos.

O que sabemos é que Obama nunca enfrentou um adversário republicano sério -e que ele ainda não enfrentou o tratamento hostil da mídia dado a cada candidato presidencial democrata desde 1988.

Sim, eu sei que tanto a campanha de Obama quanto muitos repórteres negam que ele tenha recebido um tratamento mais favorável do que Hillary Clinton. Mas eles estão brincando, não é? Dana Milbank, o repórter de política nacional do "Washington Post", disse a verdade em dezembro: "A imprensa será selvagem com ela independente de realmente estar sedenta ou não pelo sangue dela, não há a menor dúvida. Obama recebe uma cobertura significativamente melhor".

Se Obama conseguir a indicação, a lua-de-mel acabará ao enfrentar um oponente que a imprensa adora tanto quanto odeia Hillary. Se Hillary Clinton não é capaz de fazer nada certo, McCain não é capaz de fazer nada errado -mesmo quando ele explora as fraquezas dos outros de forma ultrajante, ele é perdoado por parecer desconfortável fazendo aquilo. Sério.

Bob Somerby, do site de crítica à mídia dailyhowler.com prevê que Obama será "Dukakisado": "tratado como uma presença alienígena, perturbadora". Soa plausível demais.

Se Obama chegar à Casa Branca, será que ele conseguirá promover as políticas transformadoras que promete? Assim como a fé de que poderá obter uma vitória eleitoral esmagadora, a fé de que ele poderá superar uma oposição conservadora amarga à legislações progressistas se apóia em muito pouca evidência -um ano produtivo no Senado estadual de Illinois, após os democratas dominarem o Estado, e não muito mais.

E alguns legisladores de Illinois aparentemente sentem que mesmo assim Obama recebeu um pouco mais de glória do que merecia. "Ninguém gosta de carregar a bola por 99 jardas até a linha de 1 jarda, e então passar a bola para o halfback (jogador de meio-campo) para que ele receba todo o crédito", se queixou um senador estadual para um jornalista local.

Ao todo, os democratas estão em uma posição que poucos esperavam há um ano. A campanha de 2008, ao que parece, será travada com base na personalidade, não em filosofia política. Se a mágica funcionar, tudo será perdoado. Mas se não funcionar, as recriminações poderiam devastar o partido. George El Khouri Andolfato

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