UOL Notícias Internacional
 

04/03/2008

Mapa genético se torna item de luxo

The New York Times
Nicholas Bakalar
Em um dia frio de janeiro, Dan Stoicescu, um milionário vivendo na Suíça, se tornou a segunda pessoa no mundo a comprar uma seqüência inteira de seu próprio código genético.

Ele também está entre o grupo relativamente pequeno de indivíduos que podem pagar o preço de US$ 350 mil.

Stoicescu é o primeiro cliente da Knome, uma empresa com sede em Cambridge, Massachusetts, que prometeu analisar seu mapa genético até o final do primeiro semestre. Um executivo chinês contratou o mesmo serviço junto a uma parceira da Knome, o Instituto de Genômica de Pequim, disse a empresa.

Fred Merz/The New York Times 
Stoicescu é a segunda pessoa a comprar uma seqüência inteira de seu código genético

Os cientistas decifraram até o momento apenas um punhado de genomas humanos completos, todos financiados por governos, fundações e corporações em nome da pesquisa médica. Mas à medida que o custo do sequenciamento do genoma passa de estratosférico a apenas muito caro, ele está atraindo o interesse de uma nova clientela.

"Eu prefiro gastar meu dinheiro no meu genoma do que em um Bentley ou um avião", disse Stoicescu, 56 anos, um empreendedor de biotecnologia que se aposentou há dois anos, após vender sua empresa. Ele disse que checará diariamente sua seqüência de genoma à procura de descobertas sobre risco de doença genética, "como um portfólio de ações".

Mas apesar do dinheiro poder comprar uma leitura plena das 6 bilhões de unidades químicas do genoma de um indivíduo, os biólogos dizem que os super-ricos terão que esperar como todo mundo para descobrir como as pequenas variações em sua seqüência influenciam a aparência, comportamento, habilidades, suscetibilidade a doenças e outras características.

"Eu já andei no Bentley de outra pessoa -um belo carro", disse James D. Watson, co-descobridor da estrutura do DNA, cujo genoma foi seqüenciado no ano passado por uma empresa que doou US$ 1,5 milhão para os custos de demonstração de sua tecnologia. "Eu preferiria ter meu genoma seqüenciado ou um Bentley? A decisão vai ser no cara ou coroa."

Ele provavelmente escolheria o genoma, disse Watson, porque poderia revelar um gene de risco de doença herdado. Nenhum foi encontrado até agora. Mas o que é preciso, ele disse, é um "genoma Chevrolet", que seja acessível a todos.

Os biólogos têm sentimentos ambíguos em relação à ascensão do genoma como item de luxo. Alguns temem que uma fama de "elitismo genômico" possa azedar o sentimento do público em relação à pesquisa genética, que há muito promete um atendimento de saúde melhor, individualizado, para todos. Mas outros vêem o genoma de butique como algo como o turismo espacial de US$ 20 milhões -um rito de passagem necessário para uma tecnologia que poderá em breve estar ao alcance de todos.

"Nós certamente não queremos um mundo no qual haja um grande desequilíbrio de acesso a testes genéticos abrangentes", disse Richard A. Gibbs, diretor do centro de sequenciamento do genoma humano da Faculdade de Medicina Baylor. "Mas a ponto disto poder ser visto como um exercício idiossincrático de indivíduos curiosos que podem bancá-lo, isto poderia ser um fenômeno positivo."

Foi uma série de ofertas de indivíduos ricos ao laboratório de George M. Church, em Harvard, dispostos a papar por suas seqüências pessoais de genoma, que levou Church a fundar a Knome no ano passado (a maioria das pessoas pronunciam "nome", apesar dele preferir "know-me" -"me conheça").

"Era uma coisa que causava distração em um laboratório acadêmico", disse Church. "Mas me fez pensar que poderia ser um negócio."

Os cientistas dizem que precisam que dezenas que milhares de seqüências de genoma se tornem publicamente disponíveis para que se possa começar a compreender a variação humana.

Mas a Knome espera que muitos de seus clientes insistirão em manter privados seus genomas comprados a um preço bem caro, fornecendo um sistema de banco de dados descentralizado para esse fim.

Stoicescu disse se preocupar em ser visto como auto-indulgente (apesar de doar muito mais a cada ano para causas filantrópicas), egoísta (por motivos óbvios) ou estúpido (o custo da tecnologia, ele sabe, está caindo tão rapidamente que ele certamente pagaria menos se aguardasse alguns meses).

Mas ele concordou em ser identificado para ajudar a persuadir outros a participar. Com apenas quatro seqüências de genoma humano completas anunciadas por cientistas ao redor do mundo -juntamente com o Projeto Genoma Humano, que concluiu a montagem de um genoma obtido de vários indivíduos ao custo de cerca de US$ 300 milhões em 2003- cada um dos novos aumentará consideravelmente o conhecimento coletivo.

"Eu vejo como uma espécie de patrocínio", ele disse. "De certa forma você também pode participar desta aventura, que acredito que mudará muitas coisas."

Stoicescu, que tem PhD em química medicinal, nasceu na Romênia e viveu nos Estados Unidos no início dos anos 90, antes de fundar a Sindan, uma empresa de produtos oncológicos que ele dirigiu por 15 anos. Atualmente vivendo com sua esposa e filho de 12 anos em uma aldeia próxima de Genebra, ele descreve a si mesmo como um "transumanista" que acredita que a vida pode ser prolongada por meio de nanotecnologia e inteligência artificial, assim como por meio de adaptações na dieta e estilo de vida. Sua seqüência de genoma, ele argumenta, poderá lhe dar um melhor indício de quais elas devem ser. No ano passado, Stoicescu pagou US$ 1 mil por um vislumbre de seu código genético pela deCODE Genetics. Este serviço, e um semelhante oferecido pela 23andMe, olha aproximadamente um milhão de nucleotídeos do genoma humano onde é de conhecimento que o DNA difere de uma pessoa para outra.

Mas Stoicescu ficou intrigado com a idéia de um quadro mais completo. "É apenas uma parte da verdade", ele disse. "Ter uma seqüência plena decodificada pode deixar você mais perto da realidade."

Quão perto é motivo de muito debate. A Knome está usando uma tecnologia que lê o genoma em fragmentos curtos que podem ser difíceis de montar. Todos os métodos existentes de sequenciamento apresentam margem de erro, e a jovem indústria ainda não possui padrões de qualidade reconhecidos.

A Knome não é a única firma no ramo de genoma privado. A Illumina, uma firma de sequenciamento em San Diego, planeja vender a seqüência integral do genoma para o "mercado dos ricos e famosos" neste ano, disse seu executivo-chefe, Jay Flatley. Se a concorrência derrubar os preços, o genoma pessoal poderá perder rapidamente sua exclusividade. A X Prize Foundation sem fins lucrativos está oferecendo US$ 10 milhões para o primeiro grupo que sequenciar 100 genomas humanos em 10 dias, por US$ 10 mil ou menos por genoma. O governo federal está apoiando o desenvolvimento de tecnologia visando um genoma por US$ 1 mil na próxima década.

Mas por ora, os clientes potenciais da Knome são decididamente de alta renda. A empresa foi abordada por administradores de fundos hedge, executivos de Hollywood e um indivíduo do Oriente Médio que só podia ser contatado por intermédio de um terceiro, disse Jorge Conde, o presidente-executivo da Knome.

"Eu sinto que todo mundo terá o seu seqüenciado a certa altura, então por que não ser o primeiro?", disse Eugene Katchalov, 27 anos, um administrador de capital em Manhattan que se encontrou duas vezes com Conde.

Stoicescu, que deseja criar um banco de dados aberto sobre a informação genômica alimentado por sua própria seqüência, espera que outros em breve se juntem a ele.

Poucos dias depois de ter feito seu depósito de US$ 175 mil para a empresa, uma associada da Knome pegou um vôo em Cambridge para se encontrar com ele em uma clínica local.

"O que raios estou fazendo?", Stoicescu lembrou de ter se perguntado. "E quantas crianças na África poderiam ter sido alimentadas?"

Então ele estendeu seu braço e ela colheu três tubos de ensaio de seu sangue. George El Khouri Andolfato

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