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05/03/2008

Independente, Kosovo agora luta para criar a sua economia

The New York Times
Dan Bilefsky
Em Pristina, Kosovo
Bekim Kuqi enfrentou a guerra civil, o exílio, bombas em suas fábricas e um carro com explosivos detonado dentro de uma de suas lojas. Assim, o empresário albanês diz que está preparado para o incrível desafio de fazer negócios em Kosovo, que acaba de se tornar independente.

A rede de eletricidade é tão pouco confiável que apenas manter as luzes acesas em suas lojas é uma luta diária, forçando Kuqi, 33, a gastar cerca de US$ 1.500 (em torno de R$ 3.000) por dia com 25 geradores. Mesmo assim, os clientes fazem suas compras com as luzes piscando, ligando e desligando. O jovem empresário é estimulado pela forte anseio por bens de consumo em um local onde metade dos 1,9 milhão de habitantes tem menos de 25 anos. Entretanto, Kuqi também se desespera com o salário mensal médio de aproximadamente US$ 220 (R$ 440), que significa que a maior parte das pessoas pode comprar pouco mais do que uma Coca-Cola em suas lojas.

"Eu coloco minha fé em Deus", disse Kuqi de seu escritório perto de uma de suas novíssimas lojas de departamento Ben-af, onde manequins com estilo decoram a enorme fachada de vidro. "Eu penso freqüentemente que ficar aqui requer muito sacrifício e que eu deveria partir. Mas pertenço a este lugar."

Andrew Testa/The New York Times 
O shopping center Ben-af tem 13 lojas que totalizam vendas anuais de 30 bilhões de euros

Duas semanas depois da liderança albanesa de Kosovo declarar independência da Sérvia, com o apoio de Washington e da União Européia, Pristina pulsa com mais de vinte novos cafés e shopping centers. Mas esses sinais superficiais de rejuvenescimento escondem a dura realidade de uma nação recém-nascida, cuja existência é questionada pela Sérvia, Rússia e países da UE como a Espanha, que se recusam a reconhecê-la.

Mesmo que Kosovo consiga superar essas dificuldades políticas, sua economia está tão devastada que o país é forçado a importar artigos básicos como leite e carne. Enquanto isso, é classificado pelo Transparência Internacional, grupo de vigilância de corrupção com base em Berlim, como o quarto país mais corrupto do mundo, depois de Camarões, Camboja e Albânia. Se Kosovo conseguir construir uma economia de sucesso ficará mais fácil determinar se vai se tornar um país pleno e estabilizar os Bálcãs ou continuar sendo outro órfão adotado pelo Ocidente.

O legado de violência e incerteza não ajudou Kosovo. Quando Slodoban Milosevic era líder da Sérvia, ele revogou a autonomia da província em 1989 e reprimiu ferozmente os albaneses, alguns dos quais eventualmente voltaram-se para a rebelião armada. Nos últimos oito anos, Kosovo, um território predominantemente muçulmano sem saída para o mar, esteve sob administração da ONU, após a intervenção da Otan em 1999 para deter a violência de Milosevic.

Segundo analistas ocidentais, no futuro próximo, a economia de Kosovo permanecerá dependente da ajuda externa, sua segurança continuará dependente dos 16.000 soldados da Otan e seus assuntos políticos, dependentes de uma missão da União Européia que em breve assumirá o comando das mãos da ONU.

"Pode levar ao menos dez anos para Kosovo seguir com as próprias pernas", disse Joost Lagendijk, que avalia a política em Kosovo para o Parlamento Europeu, que tem o poder de aprovação sobre qualquer financiamento da UE para Kosovo. "Kosovo é um país agrícola pobre, onde o fornecimento de energia é caótico, o Estado de direito precisa ser mantido, e a economia está praticamente começando do zero."

Os moradores estão tão desesperados por dinheiro que vender metal velho de carros destruídos permanece uma das poucas formas de ganhar a vida e a maior exportação de Kosovo. A infra-estrutura é debilitada; o desemprego é estimado por autoridades do governo em cerca de 50%. Proprietários de empresas reclamam que às vezes é necessário subornar as autoridades para obter qualquer coisa, desde serviços básicos de saúde até licenças para fábricas.

Enquanto a independência trouxe com ela a expectativa de liberação econômica para os albaneses de Kosovo, que há tanto sofrem, os economistas dizem que as expectativas exigem uma administração cuidadosa. "Por muitos anos, usamos o fato de não termos independência como desculpa para tudo", disse Shpend Ahmeti, ex-economista do Banco Mundial que administra o Instituto de Estudos Avançados, uma organização de pesquisa com base em Pristina. "Agora que temos (a independência), precisamos mostrar que merecemos ser um país e que podemos criar economia viável."

Para isso, dizem os economistas, Kosovo precisa promover a indústria local; as importações estão em cerca de US$ 1,9 bilhão (em torno de R$ 3,8 bilhões) por ano, mas as exportações são débeis US$ 130 milhões (aproximadamente R$ 260 milhões). O sucesso dependerá parcialmente da iniciativa de empresários como Kuqi. Filho de agricultor, ele fundou a Ben-af em 1993, vendendo roupas em um quiosque em Suva Reka, uma cidade industrial pobre no sul de Kosovo, onde nasceu. O negócio cresceu rapidamente. Mas durante a guerra de 1998-99 entre albaneses e sérvios, suas fábricas foram incendiadas, e ele fugiu para a Albânia.

Quando Kuqi voltou em 2000, usou suas economias para reconstruir a empresa. Quatro anos mais tarde, diz a polícia, um rival invejoso incendiou sua principal loja. Uma bomba explodiu quatro horas depois, destruindo a loja e causando danos de 5 milhões de euros (cerca de R$ 15 milhões). Hoje, a Ben-af tem 13 lojas em Kosovo com vendas anuais de 30 bilhões de euros (em torno de R$ 90 milhões). Kuqi disse que o segredo do sucesso é criar uma força de trabalho ambiciosa e de salário baixo. "As pessoas aqui estão dispostas a trabalhar duro."

Ahmet Shala, ministro de finanças de Kosovo, negou as dúvidas sobre as perspectivas econômicas, apontando para histórias de sucesso em países vizinhos como Eslovênia, ex-república iugoslava de população similar, que fica perto da Áustria e da Itália. Shala argumentou que o potencial econômico de Kosovo reside na energia de sua população jovem, apesar de admitir que isso também é um desafio, porque 25.000 pessoas entram para a força de trabalho a cada ano, muitas com habilidades e educação limitadas.

Ele ressaltou que, até agora, a posição incerta de Kosovo impediu o país de ter os mesmos instrumentos econômicos, desde códigos de barra para produtos de supermercado até o acesso a ferrovias internacionais. A independência, argumentou, permitirá Kosovo a entrar para instituições financeiras importantes como o Banco Mundial e o FMI e isso ajudará a conseguir uma classificação de crédito necessária para atrair investidores estrangeiros. "Até agora, Kosovo era um bebê em uma incubadora, com oxigênio doado", disse ele. "Agora, o bebê precisa aprender a respirar sozinho."

Além da Sérvia, Rússia e Espanha, vários outros países da UE recusaram-se a reconhecer Kosovo: Eslováquia, Grécia, Romênia e Chipre.

Membros da UE advertem que o reconhecimento parcial pode deter o investimento e impedir Kosovo de aceitar empréstimos de instituições internacionais, ou a UE de assinar tratados de cooperação e comércio e limitar as viagens dos moradores de Kosovo.

Kosovo também enfrenta uma ameaça de embargo econômico da Sérvia, que ficou revoltada com a independência.

"A Sérvia pode nos prejudicar nos mantendo nos noticiários", disse Ahmeti. "Precisamos superar nosso problema de imagem."

Manifestantes sérvios já queimaram dois postos de fronteira da ONU. Economistas argumentam que um bloqueio comercial da Sérvia prejudicaria mais a Sérvia do que Kosovo, porque a Sérvia exporta 200 milhões de euros (em torno de R$ 600 milhões) de bens para Kosovo por ano.

Kosovo também precisa se desmamar de uma cultura de dependência. Apoiado por 370 milhões de euros (cerca de R$ 1,11 bilhão) de remessas de seus compatriotas no exterior, o país também recebeu quase US$ 3,8 bilhões (aproximadamente R$ 7,6 bilhões) de ajuda financeira internacional desde 1999. Ahmeti lamentou que US$ 0,80 de cada dólar foi gasto em um pequeno exército de consultores que oferece assistência técnica em tudo, desde a construção de estradas até treinamento de juízes, apesar de "haver cortes de energia oito vezes por dia" e pouca indústria nacional.

Muitos aqui estão apostando na riqueza mineral de Kosovo, inclusive 14 bilhões de toneladas de reservas de carvão que serão recolhidas para alimentar uma nova usina de energia de 2000 megawatts que deve entrar em operação até 2012, se os combates políticos e a burocracia não impedirem seu andamento.

Geólogos britânicos conduziram uma recente pesquisa dos recursos em Kosovo e disseram que tem ampla quantidade minerais, inclusive depósitos de níquel, chumbo, zinco, cádmio, bauxita e até pequenos veios de ouro. Ainda assim, a estrutura para extrair minerais está ultrapassada, e os especialistas dizem que o mais importante complexo de mineração de Kosovo, Trepca, precisará de pelo menos 200 milhões de euros (cerca de R$ 600 milhões) em investimento externo para criar um negócio de exportação lucrativo.

Em dia recente em Trepca, devastada pela guerra e má administração desde seus dias de glória sob o comunismo na Iugoslávia, os mineiros vestiam capacetes com iluminação ao descer para o labirinto de túneis quentes e escuros, que teriam sido usados por Milosevic para esconder os corpos dos albaneses mortos na guerra.

Dezenas de trabalhadores martelaram fendas e inseriram dinamite para abrir os depósitos de chumbo e zinco. "Este pode ser o futuro de Kosovo", disse o mineiro, Xhafer Peci, enquanto segurava pedras brilhantes nas mãos.

Ainda assim, Trepca tornou-se uma questão política, porque é administrada conjuntamente por albaneses e sérvios. Suas minas e fábricas de processamento estão espalhadas entre o Norte de Kosovo, dominado pelos sérvios, e o Sul, dominado pelos albaneses. Com Belgrado determinada a controlar o Norte de Kosovo, o futuro de Trepca continua duvidoso.

Nazmi Mikullovci, diretor de Trepca com ancestrais albaneses, disse que esperava que a cooperação étnica na minas continuasse. Segundo ele, pesquisas geológicas mostraram que 88% da riqueza mineral de Kosovo fica ao Sul do país; entretanto, a mina tem 300 milhões de euros (cerca de R$ 900 milhões) em dívidas não pagas e também precisa financiar as pensões de vários milhares de trabalhadores albaneses demitidos quando Milosevic assumiu a mina, nos anos 90. "Trepca não será a salvadora de Kosovo, ao menos não por enquanto", disse Mikullovci.

Mesmo com todos os desafios, há alguns investidores corajosos. Ekrem Luka, diretor de Dukagjini, um grande conglomerado proprietário de tudo, desde cervejarias até uma rede de televisão, disse que planeja construir um World Trade Center de 23 andares em Pristina, completo, com um hotel de 100 quartos, um shopping center de três andares e apartamentos privados. "A atração de Kosovo é que estamos começando do zero; precisamos de tudo", disse. "Exportadores, importadores, lojistas, o que for." Deborah Weinberg

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