UOL Notícias Internacional
 

05/03/2008

Venezuela e Colômbia acirram a guerra de palavras

The New York Times
Simon Romero*

Em Caracas, Venezuela
Nos quatro dias desde que as forças colombianas penetraram em território do Equador e mataram um líder guerrilheiro que estava refugiado lá, as tensões entre a Colômbia -a principal aliada regional de Washington- e seus vizinhos esquerdistas explodiram, acentuando o fato de que a Colômbia e suas políticas são cada vez mais vistas aqui como representantes dos Estados Unidos.

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, chamou a Colômbia de "Israel da América Latina", dizendo que ambos os países bombardeiam e invadem os vizinhos invocando "um suposto direito de defesa", que ele disse ter sido ordenado pelos Estados Unidos. Ele enviou tropas para a fronteira e expulsou o embaixador da Colômbia; seu ministro da agricultura disse na terça-feira que a fronteira com a Colômbia seria fechada para impedir o comércio.

Por sua vez, a Colômbia disse que apresentará queixas contra Chávez no Tribunal Penal Internacional, o acusando de fornecer assistência ao maior grupo rebelde da Colômbia.

Enquanto isso, o presidente Bush defendeu fortemente a Colômbia, que recebe US$ 600 milhões por ano dos Estados Unidos em ajuda para combater os rebeldes esquerdistas e o tráfico de drogas. Ele usou a crise diplomática para pressionar o Congresso a aprovar um acordo comercial com a Colômbia que está parado há mais de um ano, devido às preocupações entre os líderes democratas com violações de direitos humanos lá.

Bush, que telefonou para o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, na manhã de terça-feira, disse aos repórteres na Casa Branca: "Eu disse ao presidente que a América apóia plenamente a democracia da Colômbia, e que somos firmemente contrários a quaisquer atos de agressão que possam desestabilizar a região".

Empregando uma nova estratégia visando retratar o acordo de comércio com a Colômbia como uma questão de segurança nacional, Bush aproveitou a ocasião para pedir ao Congresso que ratifique o acordo como forma de reagir a líderes como Chávez, que são flagelos para as políticas americanas na região.

"Se fracassarmos em aprovar este acordo, nós desapontaremos nosso aliado, prejudicaremos nossa credibilidade na região e encorajaremos os demagogos em nosso hemisfério", disse Bush.

Apesar da Colômbia, em seu ataque, ter violado a soberania do Equador, não da Venezuela, Chávez, um aliado do Equador, assumiu a liderança na acusação da Colômbia como sendo um fantoche americano. Este tem sido o tema favorito dele, especialmente desde novembro, quando a Colômbia retirou o apoio à mediação de Chávez com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, ou Farc.

Aumentando as tensões na terça-feira, o vice-presidente da Colômbia, Francisco Santos, disse que as forças colombianas encontraram evidência de que as Farc estavam à procura de ingredientes para produzir uma bomba suja radioativa.

Material encontrado em um computador laptop recuperado no ataque no Equador forneceu a base para as acusações de Santos sobre uma bomba suja, uma arma que combina material altamente radioativo com explosivos convencionais para dispersar pó mortífero que as pessoas inalariam.

"Isto mostra que estes grupos terroristas, apoiados pelo poder econômico fornecido pelo tráfico de drogas, constituem uma grave ameaça não apenas ao nosso país, mas para toda a região andina e América Latina", disse Santos em um encontro da ONU sobre desarmamento, em Genebra, em uma declaração que foi postada em espanhol no site da conferência. Os rebeldes estavam "negociando a obtenção de material radioativo, a base para a fabricação de armas sujas de destruição e terrorismo", ele disse.

Não ficou claro a partir da declaração de Santos com quem os rebeldes estavam negociando.

Santos fez sua declaração com base na informação fornecida na segunda-feira, em Bogotá, pelo chefe da polícia nacional da Colômbia sobre as negociações das Farc para obtenção de 50 quilos de urânio. Essa informação, por sua vez, teria sido obtida do computador laptop de Raul Reyes, o alto comandante das Farc morto no sábado, no Equador.

O governo da Colômbia também disse nesta semana que obteve informação no computador de que Chávez canalizou US$ 300 milhões para as Farc. A informação serve de base para seu plano de processar Chávez no Tribunal Penal Internacional, disse Uribe na terça-feira, em Bogotá.

As tensões produziram uma discussão diplomática acalorada durante a reunião de emergência da Organização dos Estados Americanos (OEA), convocada na terça-feira, durante a qual vários países condenaram as ações da Colômbia como uma violação da soberania equatoriana.

"Não há argumentos possíveis que justifiquem as ações que estamos discutindo hoje", disse o embaixador da Argentina, Rodolfo Hugo Gil. "A soberania, para nós, é um princípio inviolável."

A ministra das Relações Exteriores do Equador, Maria Isabel Salvador, exigiu que a OEA condene formalmente as ações da Colômbia, envie uma missão para investigar os eventos em sua fronteira com a Colômbia e convoque uma reunião dos chanceleres regionais para considerar uma futura ação.

"O Equador rejeita qualquer esforço por parte da Colômbia de evitar a responsabilidade por ter violado sua soberania, que é um direito que assegura a coexistência pacífica entre todas as nações", disse Salvador. "Pedidos de desculpas diplomáticos não bastam."

Um pedido de desculpas não foi tudo o que ela recebeu. O embaixador da Colômbia, Camilo Ospina, negou fortemente as acusações de que tropas colombianas usaram força militar em território equatoriano, dizendo que uma aeronave disparou no Equador do lado colombiano da fronteira. Ele reconheceu que após o bombardeio, as forças colombianas entraram no Equador para examinar o campo das Farc. E o que encontraram, ele disse, foi evidência de que o Equador tem abrigado membros das Farc.

A televisão da Venezuela também transmite imagens de batalhões de tanques seguindo para a fronteira, após a ameaça de Chávez, no domingo, de que a Colômbia estaria declarando guerra caso realizasse uma incursão na Venezuela semelhante a que realizou no sábado, na remota província amazônica do Equador, que resultou na morte de 21 guerrilheiros.

A ameaça de Chávez, que incluiu a provocação de que a Venezuela usaria seus caças Sukhoi de fabricação russa para atacar a Colômbia, foi interpretada aqui como um sinal de que Chávez está pronto para defender as Farc, um grupo classificado como terrorista nos Estados Unidos e na Europa, que opera sem impedimento ao longo da porosa fronteira de 2.090 quilômetros da Venezuela com a Colômbia.

Diferente da imagem das Farc na Colômbia, de um grupo que se financia por meio do tráfico de cocaína e seqüestros e que ainda planta minas terrestres nas áreas rurais, documentários na televisão estatal na Venezuela retratam as Farc como uma insurreição nascida dos esforços de combater a elite endinheirada da Colômbia.

Em seu programa de televisão dominical, Chávez chegou até mesmo a pedir um minuto de silêncio por Reyes, o líder guerrilheiro que foi morto, cujo nome verdadeiro era Luis Edgar Devia.

"Chávez está na prática apoiando os narcoterroristas que se refugiam na Venezuela e no Equador, ao mesmo tempo que diz que o líder democraticamente eleito da Colômbia não pode reagir", disse Diego Arria, um ex-embaixador da Venezuela na ONU, que é um forte crítico de Chávez.

Ainda assim, Uribe, o presidente da Colômbia, está lutando para convencer outros países na região da necessidade da Colômbia da realização da incursão no Equador, com a soberania territorial ainda considerada como sendo inviolável na maior parte da América Latina. Apesar de poderem concordar com Uribe de forma privada, os líderes hesitam em apoiá-lo publicamente.

"Uribe não desenvolveu uma estratégia de política externa além de depender dos Estados Unidos", disse Michael Shifter, vice-presidente para política da Diálogo Interamericano, um grupo de pesquisa em Washington. "Isto o coloca em uma espécie de amarra."

De fato, poucos lugares podem professar um apoio tão antigo aos Estados Unidos como a Colômbia, que enviou batalhões para combater ao lado das tropas americanas na Guerra da Coréia.

Apesar de continuar sendo a maior fornecedora de cocaína para os Estados Unidos, a Colômbia se tornou uma das maiores aliadas do governo Bush, com centenas de consultores militares americanos bem-vindos ali para auxiliar as forças de segurança colombianas em operações contra-insurreição e antinarcóticos.

Mas assim como Uribe pode estar sofrendo devido aos seus laços estreitos com os Estados Unidos, ele também pode ser afortunado por ter Chávez como seu principal adversário. Outros países na região estão cada vez mais incomodados com a beligerância de Chávez, com a preocupação surgindo da intromissão da Venezuela em um assunto envolvendo a Colômbia e o Equador.

"A América do Sul não está preparada para conflitos e não queremos conflitos", disse o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, aos repórteres no Brasil, na terça-feira, explicando que seu governo tentará mediar uma solução para a disputa juntamente com outros países.

Apontando para as pequenas chances de estourar um conflito de fato, o tom beligerante de Chávez também está enfrentando um crescente escrutínio na Venezuela.

O general reformado Raul Baduel, ex-confidente e atual crítico de Chávez que se aposentou no ano passado como ministro da defesa, e que acredita-se que ainda exerça grande influência nas forças armadas da Venezuela, disse que os soldados dificilmente apoiariam o presidente em caso de uma guerra.

"Nós temos que analisar esta situação sem fanatismo político", disse Baduel. "É absurdo qualquer país recomendar receitas para a Colômbia resolver o seu conflito."

* Jenny Carolina Gonzalez, em Bogotá, Colômbia; Uta Harnischfeger, em Zurique; e Ginger Thompson, em Washington, contribuíram com reportagem. George El Khouri Andolfato

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