UOL Notícias Internacional
 

06/03/2008

Aquecimento econômico faz Índia ter fome de energia

The New York Times
Somini Sengupta
Em Gurgaon, Índia
É noite de sexta-feira no centro da nova ambição indiana. O ar está cheio de poeira da construção dos novos arranha-céus de vidro. O trânsito se move tão lentamente que os motoristas podem olhar à vontade para o anúncio da Burberry, que ilumina a fachada de um shopping center. No meio das buzinas e tratores, Sucharita Ratogi, 27, graduada em administração, espera cansada pela van do escritório que vai levá-la para casa; será uma lenta viagem de 90 minutos. "Estamos exaustos mentalmente, sentados, esperando", diz ela.

Símbolo da aquecida economia indiana, este novo subúrbio nos limites da capital, Nova Déli, também é uma demonstração do rápido crescimento da fome de energia. Pelas estimativas do próprio governo, o consumo de energia neste país de 1,1 bilhão de habitantes deve quadruplicar nos próximos 25 anos, expandindo inevitavelmente as emissões de gases de efeito estufa da Índia.

No momento, é uma bênção discutível o fato de Gurgaon continuar a ser uma ilha de shoppings com ar condicionado e torres de escritórios que funcionam 24h por dia e que, por trás de seus prédios iluminados, há uma vasta nação de escuridão e fogões aquecidos com esterco de vaca.

Ruth Fremson/The New York Times 
Trânsito em Gurgaon, subúrbio de Nova Déli considerado uma ilha "eletrificada"

Quase a metade da população indiana não tem acesso à rede elétrica, e muitos outros passam horas sem energia. Cerca de 700 milhões de indianos usam para cozinhar fezes de animais e lenha. Como resultado, a pegada [termo usado como indicador de sustentabilidade ambiental] de carbono per capita da Índia continua sendo uma pequena fração em relação ao mundo industrializado -o americano produz em média seis vezes mais emissões do que o indiano- e, por sua vez favorece, o argumento central da Índia por seu direito de consumir mais, e não menos, energia no futuro.

A Índia consistentemente evitou as pressões para estabelecer alvos e reduzir emissões, argumentando que nunca foi uma poluidora significativa nem ainda foi capaz de espalhar a energia moderna para seus milhões pobres. Em vez disso, prometeu assegurar que suas emissões per capita nunca excedam as do mundo desenvolvido.

"Não é lógico falar de cortes de emissões sem fazer referência aos níveis per capita", disse Montek Singh Ahluwalia, vice-presidente da Comissão de Planejamento da Índia. "É lógico falar em compartilhar a carga em termos de direito a emissões per capta ou algum outro princípio. O principal ponto é que precisamos concordar com um princípio justo."

A Índia ressalta que contribui com apenas 4,6% dos gases de efeito estufa apesar de seu povo representar 17% da população mundial.

Mesmo assim, cada vez mais o exterior está avaliando como a Índia vai lidar com sua pegada de carbono.

O diretor de clima da ONU, Yvo de Boer, apesar de admitir a resistência da Índia a cortes de emissões obrigatórios como "uma posição justa", disse em recente visita que era o momento da Índia oferecer alternativas. "Está claro para mim que os países em desenvolvimento não querem adotar alvos obrigatórios", disse de Boer. "Agora, quero ouvir o que eles querem."

O governo indiano ainda não revelou sua tão esperada política de mudança climática.

As emissões totais da Índia são a quarta maior no mundo, depois dos EUA, China e Rússia. Apesar disso, a pegada per capita permanece tão baixa quanto a de qualquer outro lugar no mundo em desenvolvimento: 1,2 tonelada anual, comparada com 20 toneladas nos EUA e a média mundial de 4 toneladas. Em novembro, a Agência Internacional de Energia, um grupo de pesquisa em Paris, previu que a demanda por energia da Índia mais do que dobrará até 2030. Se as políticas permanecerem as mesmas, as emissões per capita dobrarão, disse, mas ainda assim permanecerão bem abaixo do nível dos países industrializados hoje.

A agência acredita que o setor que mais rapidamente fará pressão por energia será o de transportes, enquanto a prosperidade leva mais carros para as ruas. As importações de carvão podem elevar em sete vezes, acrescentou relatório. O setor de construção também é altamente intensivo no uso de energia.

Gurgaon ilustra a assimetria peculiar na divisão do bolo na Índia e o difícil desafio que cria: como balancear o desejo dos cidadãos indianos com suas obrigações com o meio ambiente.

Como está, há necessidades profundas na Índia da escuridão e do esterco. Isso é o que se escuta na casa de chá de Chakai Haat, uma aldeia ordinária no Oeste do Estado de Bihar, de onde exércitos de trabalhadores viajam para centros em expansão como Gurgaon. Chakai Haat não têm acesso à rede de eletricidade, as pessoas cozinham com dejetos animais, e as bicicletas são o principal modo de transporte nas estradas de barro. Três geradores movidos a diesel oferecem poucas horas de luz a cada noite, para que o bazar possa ficar iluminado e os telefones celulares possam ser recarregados.

Na maior parte do tempo, o povo de Chakai Haat está no escuro.

Lakhan Lal Biswas cuida da sua loja de provisões sob a luz fraca da lamparina de querosene. Gita Devi compra suficientes gravetos e palha para cozinhar com uma refeição por dia. Em noite recente, era arroz com tomate e berinjela, e teria que durar até a manhã seguinte.

Shamshuddin Sadiruddin Shah, que mora em Mumbai na maior parte do ano, administrando uma cabine telefônica privada, sente falta dos banhos quentes aos quais ele se acostumou; ninguém tem aquecedor de água em Chakai Haat.

Os homens desta aldeia vivem em duas Índias. Na nova Índia, eles assistem televisão depois de um dia de trabalho e dormem com ventiladores nas noites quentes. Na velha Índia, eles passam as noites na casa de chá até o gerador se desligar, quando vão para casa com lanternas.

Muhammad Mumtaz Alam, que trabalha em uma fábrica de roupas em Gurgaon, falou sem rodeios: "Lá, vivemos na luz. Aqui, vivemos na escuridão."

Houve um tempo que Chakai Haat teve energia ao menos por algumas horas por dia, o que mudou o ritmo da vida da aldeia. Os incidentes de roubo caíram porque a aldeia ficava iluminada. O governo instalou poços para irrigar os campos. Foram abertos moinhos de arroz, oferecendo empregos.

O crescimento não durou muito. Fortes chuvas derrubaram as linhas de energia. Os moinhos fecharam. A escuridão voltou à aldeia.

A Comissão de Planejamento estima que Bihar tenha os menores índices de uso de energia, em contraste com a Região Capital Nacional, que inclui Gurgaon.

A geração de energia pela Índia aumentou, e o governo prometeu estender a eletricidade aos campos nos próximos cinco anos. Isso, contudo, também é uma bênção questionável. As usinas elétricas antigas da Índia, movidas a carvão, estão entre os maiores poluidores do país, de acordo com pesquisa divulgada recentemente pelo grupo ambiental americano Carbon Monitoring for Action.

Dentro do crescimento indiano, muitos ambientalistas vêem oportunidades para a capacidade energética. O Centro de Ciências e Meio Ambiente, um grupo ecológico de Nova Déli, pediu ao governo que removesse impostos sobre os ônibus, mas aumentasse as taxas cobradas sobre carros a diesel. Teve sucesso parcial: na sexta-feira (29/02), o governo anunciou cortes de impostos sobre os ônibus, assim como sobre motocicletas e carros pequenos.

Outros pediram um aumento no investimento do governo nas linhas de trem urbanas e regulamentos de construção que promovessem uma economia de energia nas novas construções. Eles argumentam que a Índia não pode desperdiçar energia como Ocidente fez todos esses anos.

"Fico com uma angústia profunda", disse Rajendra K. Pachauri, diretor do Conselho Inter-Governamental de Mudança Climática, que ganhou o prêmio Nobel. "A Índia não pode emular os países desenvolvidos. Temos que encontrar um caminho que seja claramente diferente." Deborah Weinberg

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