UOL Notícias Internacional
 

06/03/2008

Mundo digital prepara o exército da revolução cubana 2.0

The New York Times
James C. McKinley Jr.
Em Havana
Uma crescente rede subterrânea de jovens armados de cartões de memória, câmeras digitais e ligações clandestinas à Internet tem criado certos problemas para o governo cubano nos últimos meses, ao divulgar notícias que a mídia estatal procura suprimir.

No mês passado, estudantes de uma prestigiada universidade de ciência da computação registraram em videoteipe uma discussão acalorada que tiveram com Ricardo Alarcon, o presidente da Assembléia Nacional. Ele pareceu ficar desnorteado quando o grupo exigiu que explicasse porque eles não podem viajar ao exterior, hospedar-se em hotéis, receber melhores salários e utilizar dispositivos de busca como o Google. O vídeo alastrou-se como um incêndio por Havana, passando de pessoa a pessoa, e prejudicando seriamente a reputação de Alarcon em certos círculos.

Algo similar ocorreu no final de janeiro, quando as autoridades tentaram impor impostos sobre as gorjetas e salários dos funcionários de companhias estrangeiras. Os trabalhadores protestaram com gritos e zombarias quando foram informados da nova taxa. O episódio foi gravado em uma câmera de telefone celular e passado adiante por meio de cartões de memória.

Jose Goitia/The New York Times 
Jovens cubanos usam computadores de cibercafé sob o olhar de uma funcionária

"As cenas passam de um flash drive para outro", diz Ariel, 33, um programador de computadores que, assim como todos os outros entrevistados para este artigo, pediu que o seu sobrenome não fosse revelado por temer perseguição política. "O governo perderá o controle sobre isso porque a tecnologia avança muito velozmente".

As autoridades cubanas há muito limitam o acesso público à Internet e a vídeos digitais, destruindo antenas parabólicas não autorizadas e reduzindo o número de cibercafés abertos aos cubanos. Apenas um cibercafé continua aberto em Havana Velha. Poucos anos atrás havia três.

Oculto em uma pequena sala nas profundezas do prédio Capitólio, o cibercafé estatal cobra um terço do salário mensal de um cidadão cubano comum - cerca de US$ 5 - para a utilização de um computador por uma hora. Os outros dois cibercafés fechados do centro de Havana foram transformados em "serviços postais" que permitem apenas que os cubanos enviem mensagens de e-mail em uma rede fechada da ilha, sem conexões com a Internet. "É uma espécie de serviço telegráfico", diz um jovem, dando de ombros enquanto aguarda em uma fila para usar os computadores de um desses ex-cibercafés na Rua O'Reilly.

Mas as tentativas do governo de controlar o acesso são cada vez mais ineficazes. Os jovens daqui dizem que há um mercado negro próspero que proporciona a milhares de pessoas uma conexão clandestina com o mundo externo, para além do país comunista.

Indivíduos que contrabandearam antenas parabólicas fornecem conexões ilegais à Internet mediante uma taxa, ou fazem download de filmes para vendê-los em DVD.

Outros aproveitam as conexões com a Web de empresas estrangeiras e estatais. Funcionários com habilidade para conectarem-se à Internet muitas vezes vendem as suas senhas e números de identificação para que as contas sejam usadas à noite.

Para agradar os turistas os hotéis fornecem serviços de Internet, e os cubanos também aproveitam esse canal para acessar a Web.

Até mesmo a principal escola de ciência da computação do país, a Universidade de Ciências da Informação, instalada em um campus que já foi usado pelos serviços cubanos de espionagem, tornou-se um foco agitado dos "ciber-rebeldes". Os alunos fazem downloads de tudo, desde os últimos programas televisivos norte-americanos até artigos e vídeo que criticam o governo, distribuindo-os rapidamente pela ilha.

"Existe todo um mercado clandestino desse material", afirma Ariel.

O vídeo do bate-boca entre Alarcon e os estudantes vazou para a BBC e a CNN, proporcionando ao mundo uma imagem rara do descontentamento dos jovens com o sistema. As respostas dele pareciam evasivas. Ao ser indagado a respeito da proibição de viagens, Alarcon alegou que se todos os que desejassem tivessem permissão para viajar, não haveria espaço aéreo suficiente para os aviões.

Um outro acontecimento visto por muita gente através da rede clandestina digital foi a chegada aos Estados Unidos de Carlos Otero, um popular humorista e apresentador de televisão de Cuba, que em dezembro último pediu asilo político durante uma viagem a Toronto.

Antenas ilegais captaram sinais das estações de televisão de Miami, que os jovens transformaram em vídeos digitais e distribuíram. Embora o programa cheirasse mais a notícia sobre celebridades do que a política, ele jamais teria sido exibido pela mídia oficial.

Alguns jovens jornalistas também criaram blogs e sites de notícias na Internet, utilizando servidores em outros países, e as suas notícias estão chegando às pessoas através da rede digital clandestina.

Yoani Sanchez, 32, e o seu marido, Reinaldo Escobar, 60, criaram o Consenso desde Cuba, um website sediado na Alemanha. Sanchez atraiu um número considerável de pessoas com o seu blog, chamado Generacion Y, no qual ela escreveu com talento críticas gentis ao governo, descrevendo a sua vida diária em Cuba. Sanchez e o marido dizem acreditar firmemente no uso dos seus nomes nos artigos, apesar das possíveis repercussões políticas.

Pouco antes de Raúl Castro, que foi eleito presidente em 23 de fevereiro, substituir o seu enfermo irmão Fidel, Sanchez escreveu um artigo descrevendo o tipo de presidente que desejava. Ela afirmou que o país não precisava de um soldado, de um líder carismático ou de um grande orador, mas sim de "uma dona de casa pragmática" que fosse a favor da liberdade de opinião e de eleições abertas.

Ao escrever mais tarde a respeito do primeiro discurso de Raúl Castro como presidente, ela criticou as vagas promessas de mudança feitas por ele, afirmando que tais promessas eram tão claras quanto a Pedra de Rosetta quando esta foi descoberta. Ambos os artigos seriam impossíveis de se publicar em Cuba.

"A Internet tornou-se o único terreno que não é regulado", disse ela em uma entrevista. Como Sanchez só pode permanecer online alguns poucos minutos de cada vez - assim como a maioria dos cubanos - ela escreve quase todos os seus ensaios antecipadamente, e a seguir vai ao único cibercafé, conecta-se, atualiza o seu website, copia algumas páginas fundamentais que a interessam, e sai com tudo armazenado em um cartão de memória. Os amigos copiam a informação, que é passada de mão em mão. "É uma rede clandestina sólida", disse ela. "O governo não é capaz de controlar as informações".

Essas informações são disseminadas por leitores como Ricardo, 28, um aluno de filosofia da Universidade de Havana que vende cartões de memória para outros estudantes. Amigos europeus compram cartões de memória vazios, e outros os trazem até Cuba, onde os cartões disponíveis através dos canais normais são muito caros e escassos.

Assim como vários jovens cubanos, Ricardo está imerso em um jogo de gato e rato com as autoridades. Ele duvida que o governo algum dia deixe os cidadãos comuns acessarem a Internet nas suas casas. "Isso é muito perigoso", diz ele. "O Papai Estado não quer que as pessoas se informem, de forma que as impede preventivamente de surfar na Internet".

Pedro, um funcionário de nível médio de uma agência do governo, conta que com freqüência acessa do trabalho sites como o da BBC e do jornal "The Miami Herald", buscando uma outra visão dos fatos além daquela apresentada pela mídia controlada pelo Estado. Ele prevê que, dentro de algum tempo, os 10 mil alunos que estudam a Internet e programação na Universidade de Ciências da Informação transformarão o país, abrindo cada vez mais rotas para a informação.

"Estamos treinando um exército de especialistas em informação", afirma Pedro. UOL

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