UOL Notícias Internacional
 

08/03/2008

Akdham: a miséria de um grupo marginalizado no Iêmen

The New York Times
Robert F. Worth
Em Sanaa, Iêmen
De dia, eles varrem as ruas da cidade velha, homens de macacões cor de laranja esfarrapados, de pele escura. À noite, eles se retiram para as favelas fétidas nos limites da cidade.

São conhecidos como "Al Akhdam" -os serviçais. Marginalizados por suas características africanas, eles formam uma espécie de casta hereditária na parte mais inferior da pirâmide social do Iêmen.

Mitos degradantes os perseguem: eles comem seus mortos; suas mulheres são prostitutas. Pior de tudo, são considerados estrangeiros em seu próprio país, descendentes de um exército etíope que teria cruzado o mar Vermelho para oprimir o Iêmen antes da chegada do islã.

Bryan Denton/The New York Times 
Alguns akdhans, considerados párias no Iêmen, moram em região periférica de Sanaa

"Estamos dispostos a trabalhar, mas as pessoas dizem que não somos bons para nada, só para serviçais; elas não vão nos aceitar", disse Ali Izzil Muhammad Obaid, homem de vinte anos que mora em uma favela de akhdans imunda nos limites desta capital. "Então não temos esperança".

De fato, os akhdans -que preferem ser chamados de "Al Muhamasheen", ou os marginalizados- talvez estejam neste canto sul da península árabe há tanto tempo quanto qualquer outro, e suas origens étnicas não são claras. Sua posição inferior é um resquício da hierarquia social antiga do Iêmen, destruída após a revolução de 1962 que derrubou o imamado de mil anos.

No entanto, enquanto as outras classes sociais hereditárias do Iêmen, os "sayyids", os juízes e xeques, e até as ordens mais baixas como os açougueiros e ferreiros, lentamente se dissolveram, os akdhans mantiveram sua posição marginalizada. Há mais de um milhão deles entre a população do Iêmen de 22 milhões que cresce rapidamente, concentrados em favelas segregadas nas principais cidades.

"Todas as portas estão fechadas para nós, exceto varrer as ruas e mendigar", disse Obaid. "Estamos sobrevivendo, mas não estamos vivendo."

Os akdhans não receberam o tipo de programa de ação afirmativa que o governo da Índia usou para melhorar a situação dos "dalits", ou intocáveis. Em parte isso aconteceu porque o Iêmen nunca teve um sistema de castas formal como a Índia.

Como resultado, os akdhans permaneceram à margem da sociedade, sofrendo uma discriminação persistente que ridiculariza as máximas igualitárias do Estado iemenita.

Até mesmo as recentes ondas de imigrantes da Etiópia e da Somália, muitos deles desesperadamente pobres, saíram-se melhor do que os akdhans e não compartilham seu estigma.

Os akdhans que trabalham nas ruas como varredores, por exemplo, raramente são contratados, mesmo depois de décadas de trabalho, apesar do fato que todos os servidores públicos deveriam ter contratos depois de seis meses, disse Suha Bashren, assistente social da Oxfam no país. Eles não recebem benefícios e quase não têm folga.

"Se um supervisor quiser despedi-los, pode fazer isso", disse Abdullah Saeed Hawdal, que começou a trabalhar como varredor em 1968. "Os supervisores usam de violência contra eles, sem medo de penalidades. Eles os tratam como pessoas sem direitos."

As condições de vida dos akhdans são chocantes, até mesmo para os padrões do Iêmen, um dos países mais pobres do mundo árabe.

Em uma favela akhdam no subúrbio de Sanaa, mais de 7.000 pessoas vivem apinhadas em um pombal de concreto fedorento, perto de uma montanha de lixo. Crianças, muitas delas descalças, correm pelas vielas estreitas e lamacentas, cheias de dejetos humanos e lixo.

Uma jovem chamada Nouria Abdullah, está em pé na frente do minúsculo cubículo -de 2m por 2m- com um teto baixo demais para que ela fique em pé- onde ela mora com seu marido e seis filhos. Dentro, um plástico fino cobre o chão de terra. Vê-se um pequeno espelho de plástico pendurado na parede e um único travesseiro imundo no canto.

Ali perto, uma única latrina, em um quarto de aproximadamente 1m x 1m, serve a cerca de 50 pessoas. Os moradores carregam água em jarras plásticas de um tanque no limite da favela, fornecida por um grupo de caridade.

Com um vestido vermelho e um trapo amarrado na cabeça, Abdullah disse que ela e sua família ganhavam mil riyals iemenitas por semana, cerca de R$ 10. Ela mendiga trocados enquanto seu marido, Muhammad, cata metal e componentes elétricos do lixo para vender.

Como a maior parte das pessoas na favela, eles não têm documentos e não sabem quantos anos têm.

"Vivemos como animais", disse Abdullah. "Cozinhamos e dormimos e moramos na mesma sala. Precisamos de mais moradias."

Quando as chuvas de inverno chegam, as casas ficam alagadas, disse ela. Nos dias frios de inverno, a família queima lixo para se manter aquecida.

Richard Bramble, médico britânico que trabalha em uma clínica de caridade dentro da favela, disse que metade das mortes no último ano foram de crianças com menos de 5 anos, e um quarto no primeiro mês de vida.

O índice de mortalidade por doenças que poderiam ser prevenidas são ainda piores do que a média nacional no Iêmen, onde a mortalidade infantil já é chocante, de uma em nove crianças, e a mortalidade materna é de uma em 10. A maior parte das mulheres akhdans começa a ter filhos na adolescência, dizem os moradores.

Parte do problema, dizem alguns membros da comunidade, é que muitos akhdans internalizaram sua posição inferior e não tentam se melhorar, encontrar emprego de verdade ou procurar estudar. A maior parte de sua renda miserável vai para comprar "qat", planta cujas folhas os iemenitas mascam por seus efeitos narcóticos leves.

"Elas nem estimulam seus filhos a se tornarem soldados", disse Muhammad Abdul Ali, diretor da clínica médica na favela e akhdam. "Elas desistiram de mudar a situação."

Nos últimos dois anos, os akhdans começaram a se organizar, criando uma frente política para fazer lobby e pedir ajuda de grupos de caridade para seu desenvolvimento. Em fevereiro, centenas de akhdans fizeram uma manifestação na cidade de Taiz para protestar contra os maus-tratos, e, depois, um supervisor do governo acusado de roubar dinheiro de varredores foi demitido.

No entanto, os esforços para ajudar os akhdans algumas vezes deram para trás. Doadores internacionais na maior parte preferiram trabalhar pelos mediadores iemenitas, que muitas vezes usaram mal ou roubaram o dinheiro destinado aos akhdans, disse Rashad al-Khader, advogado que representa a minoria há sete anos.

O governo iemenita ocasionalmente construiu abrigos para os akhdans, mas não deu os papéis das casas ou da terra, disse Khader. Além disso, fez pouco para ajudá-los a melhorar seu acesso à saúde e à educação, apesar das promessas à comunidade em anos de eleição, de acordo com os líderes akhdans.

O governo, entretanto, parece envergonhado da situação dos akhdans, disse Khader. Quando a nova frente política foi formada, há poucos meses, membros do governo insistiram que seu nome fosse mudado -removendo a expressão "os marginalizados" em favor de "em extrema pobreza".

A noção popular que os akhdans são descendentes de opressores etíopes parece ser um mito, disse Hamud al-Awdi, professor de sociologia da Universidade de Sanaa. A maior parte deles tem raízes nas aldeias da planície costeira do mar Vermelho do Iêmen, e muitos podem ter origens africanas, acrescentou. Muito pouco está claro sobre eles, apesar de uma série de estudos acadêmicos.

Alguns akhdans encontraram formas de melhorar sua situação. Hawdal, depois de trabalhar como varredor por vinte anos, tornou-se supervisor, e hoje mora no centro de Sanaa com sua mulher e cinco filhos em dois quartos que são relativamente limpos, a um mundo de distância das favelas nos limites da cidade.

Recostado em uma almofada e mascando "qat", com o barulho da televisão ao fundo, Hawdal apontou orgulhosamente para uma placa na parede em homenagem ao seu longo serviço como varredor. Ele mandou todos seus filhos para a escola, diferentemente da maior parte dos akhdans, e um deles chegou até o ensino médio.

Hawdal, contudo, admitiu tristemente que, desde então, todos seus filhos deixaram os estudos. Ele estava ficando sem dinheiro, disse ele. Mas essa não foi a única razão "Eles não tinham a esperança de fazer nada além de varrer as ruas", disse ele. Deborah Weinberg

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