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10/03/2008

Amor Moderno: Ela não consegue se relacionar com os homens porque só tem olhos para a filha

The New York Times
Heidi Wendel*
Em Nova York
David Chelsea/The New York Times 

Meu homem mais recente, antigo de quatro semanas, estava passando sua primeira noite em família em nosso apartamento, no Upper West Side, e não conhecia as regras.

"Acho que vou assistir um filme no quarto", disse inocentemente olhando para nossa coleção de filmes como um turista.

"Mas estamos lendo aqui", disse eu. "A Sofia está fazendo o dever de casa."

Sofia e eu estávamos sentadas confortavelmente na sala de estar, com os pés em cima do mesmo pufe. Ela estava sublinhando passagens de seu livro de história do nono ano, sobre a luta pelo voto feminino, enquanto eu fazia companhia a ela, pensando nas complicações de um caso de fraude que estava preparando para enviar a julgamento. Um silêncio aconchegante enchia a sala.

"Eu sei", disse ele com tristeza. "Vocês terão que virar as páginas em silêncio para não me perturbar."

Ele foi ao cinema e não o esperávamos de volta, ao menos não no longo prazo. Mas ele continuou por outros seis meses, antes de partir para sempre. Estávamos apaixonados, e demorou um pouco para ele se desencantar com a situação na qual ele sempre seria secundário às prioridades da minha filha, seu bem-estar e sua educação.

Foi mais ao menos o mesmo que aconteceu com os outros que vieram e partiram durante os anos.

O primeiro, depois que Sofia e eu ficamos sozinhas, há doze anos, quando ela estava começando o jardim de infância, era perfeito. Era um músico de rock que freqüentemente passava a noite toda acordado compondo e raramente percebia que Sofia dormia comigo. Longe de reclamar que nunca saíamos sozinhos, ele se considerava sortudo por eu não reclamar dele passar tantas noites tocando em bares e clubes. Nos finais de semana, ele estava muito ocupado com ensaios para notar que nossos planos nunca o incluíam.

Certa noite, cerca de 18 meses depois de nos conhecermos, sob a romântica influência de uma música que estava compondo sobre nós e, algumas vezes, a Sofia, ocorreu-me que algo estava faltando.

Ele entrou na cama cuidadosamente, sussurrando a canção: "Não só agora, mas para sempre, compartilharemos uma casa juntos, querida." Era apenas meia rima.

Subindo do mar profundo do sono e sentindo-o ao meu lado, perguntei: "Onde estão seus pijamas? Você parece um bicho."

"Ah é, esqueci. Mas a Sofia está dormindo de qualquer forma. E mesmo vestido, eu estaria nu para o que eu tenho a dizer: que tal eu me mudar para cá e nos casarmos no ano que vem?"

Acordei rapidamente como se os caminhões do corpo de bombeiros tivessem descido a Broadway com as sirenes ligadas.

"Claro, vamos casar no ano que vem", disse lentamente, concordando por um instante.

Ele se tornou um instrumento de percussão com beijos vivos. Depois, interrompeu-se subitamente, como se tivesse sido desligado da tomada. "E obviamente que moraríamos juntos, certo?", disse ele.

Olhando para a Sofia e pensando em nossa vida perfeita juntas, não consegui abri a porta, nem para um cara maravilhoso como ele, que eu amava, um astro do rock. No dia seguinte, ele tirou suas cuecas da gaveta de baixo do escritório e seguiu com sua vida.

O próximo foi mais rápido. A princípio ele se jogou em nós, apresentando-nos aos seus pais e irmãos, comprando presentes para nosso apartamento, ensinando xadrez à Sofia. Ele guardava suas camisas feitas sob medida no armário e mantinha seus uísques na cômoda da sala.

A Sofia era a meia filha que ele sempre desejara. Sem ter que criá-la, teve o benefício de sua agradável companhia comendo "sushi" e "tapas". Ele nunca reclamou que minha vida não girava em torno dele. Ele apreciava ter um relacionamento que não requeria que reduzisse suas horas de trabalho.

A maré virou poucos meses depois, quando saímos de férias sem ele. Essa viagem era para ser apenas para a Sofia e eu, e, para evitar pressões, eu propositalmente não contei a ele sobre nossos planos, até uma semana antes de nossa partida. Ele pareceu muito ofendido por não ter sido consultado sobre onde nós iríamos e o que veríamos.

Como sócio de uma firma de advocacia proeminente, estava acostumado a ser consultado sobre importantes decisões por todos que conhecia. Se soubesse que estávamos planejando uma viagem para a Toscana, teria nos aconselhado a ficar em Lucca, que é menos cheia e onde a comida é melhor do que em Siena. E teria nos advertido a fazer reservas para ver o David e a Galeria Uffizi para que não tivéssemos que esperar em longas filas.

Além disso, ele ficou magoado por eu não querer que fosse conosco. Certo, ele provavelmente não teria podido, por causa de seu trabalho. Mas nunca tinha sido excluído de uma viagem de férias por alguém que ele amasse e que o amava.

Quando ligamos para ele de Pisa no último dia, ele fez perguntas sobre meus planos para nosso futuro e achou as respostas pouco claras. Eu me desviei das questões, evitando admitir qualquer coisa. Finalmente, porém, ele conseguiu me colocar contra a parede.

"Veja, não é verdade que você não tem a menor intenção de morar comigo em um futuro próximo?", perguntou. "Simplesmente responda a questão."

Não tive escapatória. A seu pedido, coloquei a Sofia no telefone para que pudesse dizer adeus para ela também.

Seguindo as pegadas de sua mãe, ela tentou mudar a conversa. "Esse Duomo de Pisa é o mais belo", disse ela. "Você realmente tem que vê-lo alguma hora."

"Melhor do que aqueles em Florença e Siena?", perguntou ele.

"Não sei", disse ela. "Para ser franca, não me lembro mais deles".

"Claro, vocês são assim" disse ele. "Um dia estão aqui, no outro, foram embora."

Os anos se passaram neste mesmo padrão, até que Sofia chegou ao ensino médio e eu comecei a confrontar o fato que nossa longa festa logo terminaria. Eu sabia que a transição para um ninho vazio talvez fosse menos dolorosa se houvesse outra pessoa na casa, mas era difícil tornar isso realidade quando a vida junto com Sofia tinha se tornado ainda menos fácil de compartilhar com um homem.

Quem estaria disposto a agüentar nosso silêncio monacal nas noites e finais de semana, enquanto Sofia fazia seu dever de casa? Quem toleraria minha necessidade de abandonar os planos no último momento, para passar qualquer tempo livre que tivesse com minha filha, nos poucos anos que me restavam?

Mas, com o fim do seu último ano, um candidato se apresentou.

Ele era sócio de uma firma de relações públicas que morava convenientemente a 5h de distância, em Washington. A cada quinze dias, ele vinha a negócios, ficava alguns dias com interrupções para participar de reuniões e jantares e depois voltava. Durante meses fomos perfeitamente felizes.

Como muitos dos meus romances, entretanto, seu próprio sucesso parecia provocar seu fracasso. Estava tão feliz que queria mais. Logo, começou a buscar uma firma de relações públicas em Nova York e a me perguntar quanto custava um apartamento de dois quartos em nosso bairro. De minha parte, comecei a pesquisar razões pelas quais o relacionamento deveria terminar logo.

Achei que tinha uma resposta quando ele anunciou que ia para a semana anual de caça na Virgínia Ocidental. Talvez parecesse ser um homem bom, generoso, pensei, o tipo que qualquer mulher gostaria de segurar. Mas, de fato, ele era daqueles que matavam animais por diversão. Enquanto ele relatava sua excitação em rever sua cidade natal e seus irmãos e primos, eu planejava minha escapada.

Em nossa última noite juntos, antes que ele saísse com sua camuflagem e armas, ele disse alegremente: "Vou trazer para você um bom pedaço de carne de cervo e uma cerveja da minha cidade natal e vou cozinhar um ensopado que vocês nunca comeram."

"Não comemos cervo. Não seríamos capazes de comer um veado assassinado."

Eu esperava que ele ficasse irado, saísse batendo a porta, reclamasse de mim para seus irmãos e recebesse o conselho de se livrar de mim logo.

Em vez disso, sempre um homem de relações públicas, ele mudou de discurso para se adequar à cliente. "O que a faz pensar que eu mataria um veado?"

"Você está indo para um acampamento de caça. Você vai matar um c."

"Talvez eu mate um veado", disse ele, sorrindo. "Se alguém invadir o campo e puxar a faca para mim."

"Estou falando sério", disse eu.

"Eu também. Se eu matar um veado, ele terá deixado uma nota de suicídio. Eu só vou lá para ver os amigos e atirar contra latinhas de cerveja".

Dois meses depois, ele ainda estava por aqui e tinha começado a ler os anúncios imobiliários para mim.

"Veja este de dois quartos com varanda na Riverside Drive", disse ele no domingo, enquanto a gente relaxava no sofá. "Vamos lá olhar com a Sofia?"

Sentei-me imediatamente. "A Sofia não poderia se mudar agora, quando ela está tão ocupada com a escola e com as inscrições para a faculdade."

Sem se deixar derrotar, ele olhou em torno do apartamento.

"Então talvez possamos falar com um arquiteto sobre fazer algumas modificações neste lugar e acrescentar um quarto."

"Eu não acho que poderíamos lidar com arquitetos aqui dentro fazendo reformas", disse eu.

"Mas você assina a Achitectural Digest", ressaltou ele razoavelmente. "Você tem três anos de revistas na prateleira".

"Não porque planejamos fazer uma reforma", disse eu. "Isso é só pornografia para quem mora em um apartamento em Nova York."

Assumi que isso seria o fim, mas, quando ele viu que não ia conseguir avançar, mudou de estratégia. Na próxima vez que veio à cidade, ele disse que estava negociando com novos clientes em Nova York e que era importante para ele ter um endereço na cidade, para que os clientes se sentissem mais à vontade com ele. Como me sentiria de compartilhar o endereço com ele? Só uma caixa postal, de 10cm por 20cm. Só o que eu precisava fazer era colocar um pedaço de papel com seu nome junto ao meu e o da Sofia na caixa de correio, onde o carteiro pudesse lê-lo.

Não era pedir muito. Eu acrescentei seu nome à caixa e dei a ele uma chave.

Anos mais tarde, quando ele e eu estávamos morando juntos em um apartamento de dois quartos com varanda na Riverside Drive, que descobri que ele não estava negociando com novos clientes em Nova York -nenhum, exceto por uma teimosa, que morava com sua filha em um apartamento no Upper West Side.

*Heidi Wendel é advogada. Deborah Weinberg

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