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10/03/2008

Sociáveis e inteligentes, hienas ajudam a entender o ser humano

The New York Times
Carl Zimmer
Ao longo das últimas décadas, Kay E. Holekamp tem estudado a vida das hienas malhadas das savanas do sul do Quênia. Ela assistiu a filhotes deixarem seus ninhos e tomarem seu lugar na hierarquia do clã, viu alianças se formarem e se desfazerem. Ela observou guerras entre famílias, nas quais dezenas de hienas se juntam para defender seu território de caça contra invasores. "É como acompanhar uma novela", diz Holekamp, professora da Universidade Estadual de Michigan.

Durante toda sua carreira, Holekamp permaneceu atenta para não cair no antropocentrismo. Ela não vê as hienas como seres humanos de orelhas compridas correndo sobre quatro patas. Mas chegou à conclusão de que a vida das hienas malhadas tem uma profunda semelhança com a nossa. Em ambas as espécies, a complexidade da vida social levou ao desenvolvimento de um cérebro grande e complexo.

Os cientistas há muito tempo se questionam sobre o tamanho exagerado do cérebro humano. Ele é sete vezes maior do que é de se esperar para a média dos mamíferos do nosso tamanho. Boa parte de nossos neurônios está localizada numa região chamada de córtex frontal, onde acontece a maior parte do pensamento elaborado.

Kay E. Holekamp/The New York Times 
Hienas possuem semelhanças com o homem no que se refere à vida social e à inteligência

Para entender como viemos a desenvolver um órgão tão estranho, muitos cientistas se voltaram para os nossos colegas primatas. Eles também têm cérebros grandes, apesar de não tão grandes quanto o nosso. Os cientistas descobriram que os primatas que têm um córtex frontal maior geralmente vivem em grandes grupos.

Os primatas podem ser forçados a viver em grandes grupos por causa de predadores ou da escassez de fontes de alimento, tais como árvores frutíferas. Conforme as populações crescem em número, a seleção natural pode favorecer a inteligência social. Os primatas formam alianças duradouras entre si e competem com seus rivais. Assim, passam a reconhecer uma rede social cada vez maior.

Uma guinada na inteligência social pode significar uma vantagem evolucionária entre os primatas. As fêmeas de babuínos com boas conexões, por exemplo, dominam seus bandos. Elas têm mais filhotes do que as fêmeas menos importantes na hierarquia, e seus filhotes têm mais saúde e crescem mais rápido.

Estudos de imagens do cérebro revelam que quando seres humanos pensam sobre outros seres humanos, parte de seu córtex frontal torna-se ativo. Os que defendem a hipótese do cérebro social dizem que o córtex frontal se expandiu em nossos antepassados porque a seleção natural favoreceu a inteligência social.

A maior parte das pesquisas ligadas à tese do cérebro social está focada nos primatas. Uma das razões para essa preferência, diz Holekamp, é que muitos cientistas acreditam que não vale à pena estudar nenhum outro animal. "Os primatólogos defenderam durante anos que os primatas são únicos em termos de complexidade de vida social", diz ela.

Baseada em sua experiência com as hienas, Holekamp começou a duvidar disso. Começou então a fazer experiências com as hienas malhadas similares às feitas com primatas. Ela fazia as hienas ouvirem diferentes gravações, por exemplo, para saber se eram capazes de identificá-las. E de fato as hienas conseguiam. Em pouco tempo, Holekamp percebeu que a tese de que o cérebro social é privilégio dos primatas está profundamente equivocada.

"Posso afirmar que a tese não é verdadeira de forma alguma: as hienas malhadas vivem numa sociedade tão grande e complexa quanto a dos babuínos", diz Holekamp, e acrescenta que as hienas malhadas têm os maiores grupos sociais entre os animais carnívoros. "Estamos falando de 60 a 80 animais que se conhecem individualmente."

Para entender a inteligência social das hienas, Holekamp e seus colegas acompanham os animais desde o nascimento até a morte. O trabalho deles começa nas tocas comuns onde os filhotes vivem seus primeiros meses. Se arrastar pelas tocas, formadas por uma rede de câmaras subterrâneas, é a parte do trabalho que Holekamp menos gosta.

"As hienas são o último problema", diz. "Você sabe quando a mãe está ou não. Mas será que não tem nenhum javali africano lá dentro pronto para arrancar seu rosto com as presas? Ou então uma serpente?"

As hienas malhadas mais velhas visitam as tocas regularmente, dando aos filhotes a oportunidade de aprender sobre a rígida hierarquia em que vivem. As sociedades de hienas malhadas têm uma fêmea dominante no topo, e uma série de hienas abaixo dela. Cada filhote aprende exatamente qual seu lugar na hierarquia, e também qual é o lugar de todas as outras hienas.

A hierarquia se revela mais claramente na hora de comer. Quando uma ou duas hienas abatem uma presa, os outros membros do clã juntam-se a elas para brigar pela caça. Mas a fêmea dominante sempre ganha.

"Uma fêmea alfa", diz Holekamp, "pode dançar uma valsa sobre qualquer caça e comer o tanto que quiser."

Todavia, há momentos em que o grupo inteiro de hienas se une. Juntas, as hienas de um mesmo clã, patrulham as fronteiras de seus territórios, marcando-as com urina. Uma presa próxima à fronteira pode provocar um conflito com um clã vizinho. "Quando o território de um grupo inteiro está em jogo, todos os indivíduos, mesmo que não tenham parentesco, juntam suas forças para empreender uma guerra de clãs", diz Holekamp.

O que torna a complexidade social das hienas malhadas especialmente esclarecedora é a comparação com as outras espécies de hiena, diz Holekamp. Eles pertencem a uma família que têm quatro espécies, sendo que as outras três vivem em sociedades totalmente diferentes.

As hienas marrons, por exemplo, vivem em clãs bem menores que chegam a ter no máximo uns 14 animais. Apesar dos cientistas não saberem muito sobre as hienas marrons, parece que alguns clãs possuem hierarquia, enquanto em outros, as hienas desfrutam de mais igualdade.

As hienas listradas vivem em grupos ainda menores com uma única fêmea e não mais do que três machos adultos. Os machos cruzam com a fêmea, mas parecem não ter outro tipo de ligação com ela.

O parente mais solitário das hienas malhadas é o protelo, ou lobo-da-terra. Em vez de caçar ou comer carniça, esses animais optaram por uma dieta de cupins. A fêmea e o macho vivem como um casal monogâmico, tomando conta dos filhotes e defendendo os ninhos de cupins de invasores.

Holekamp imagina se essa diferença de configurações sociais se reflete na estrutura dos cérebros das hienas. Não é uma idéia fácil de ser comprovada. "Você simplesmente não encontra cérebros de hienas espalhados pela savana", diz. "É de fato muito difícil consegui-los".

Apesar de ser difícil conseguir cérebros intactos de hienas, os crânios, entretanto, são bem mais fáceis de achar. A partir de tomografias do crânio das hienas, é possível reconstruir a estrutura tridimensional que o cérebro tinha. "Pode-se ver todas as depressões e protuberâncias na superfície do cérebro", diz Holekamp.

Nos últimos meses, Holekamp tem trabalhado com Sharleen Sakai e Barbara Lundrigan, ambas da Universidade de Michigan, pesquisando dezenas de crânios das quatro espécies da família das hienas. Os resultados preliminares indicam que as hienas seguem a mesma regra dos primatas.

"É exatamente o que a hipótese da complexidade social prevê", diz Holekamp. "As hienas com os sistemas sociais mais simples têm o menor córtex frontal. A hiena malhada, que vive em sociedades mais complexas, tem de longe o maior córtex frontal."

As hienas marrom e listrada, com sistemas sociais intermediários, tem cérebros intermediários. "Há uma gradação", diz Holekamp.

Joan Silk, estudiosa das sociedades de macacos na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, elogia a pesquisa de Holekamp, afirmando que ela é "diretamente relevante para a compreensão das origens da complexidade social e da inteligência."

Enquanto a inteligência das hienas pode ser semelhante à dos primatas, Holekamp também se surpreende com as diferenças entre ambas. Os primatas são imensamente curiosos, mas ela não vê muita evidência dessa inventividade nas hienas.

"Mas esta talvez não seja uma comparação justa", diz. "Talvez tenhamos de compará-las com outros carnívoros, em relação aos quais se espera que as hienas sejam muito mais curiosas e inovadoras."

Para responder a essa questão, Holekamp e seus colegas estão fazendo testes de inteligência com as hienas selvagens. Eles colocam carne dentro de caixas e as espalham pela savana.

"O animal pode ver a carne e sentir o cheiro", diz Holekamp, "mas não pode pegá-la a menos que descubra como deslizar uma barra de metal da direita para a esquerda para abrir a porta da caixa."

Holekmap espera conseguir determinar o quanto inovadoras são as hienas em comparação com outros carnívoros. É possível que a inteligência também possa se desenvolver de outras formas não necessariamente relacionadas à complexidade social.

"Um animal pode ser favorecido por ser inovador, se isso ajudá-lo a conseguir comida, independentemente se ele vive em grupo ou não", diz Holekamp.

Comparando as hienas aos primatas, assim como a outros mamíferos, Holekamp acredita que será possível ter uma visão ampla de como a inteligência se desenvolve.

"Há muita ênfase na tese do cérebro social", diz, "mas acredito que para compreender a origem da inteligência temos que pensar mais além". Eloise De Vylder

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