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11/03/2008

Dieta não científica pode ajudar pessoas com esclerose múltipla

The New York Times
Jane E. Brody
O que você está prestes a ler não é uma aprovação de nenhuma dieta específica como terapia para a esclerose múltipla. E tampouco é uma sugestão de que se abandonem os tratamentos médicos tradicionais.

Mas contanto que o plano descrito aqui faça parte de um programa de tratamento aprovado pelos médicos, é improvável que cause problemas, exceto talvez o de fazer com que o planejamento das refeições torne-se um desafio. E, segundo o depoimento dos que o adotaram, pode valer a pena tentar, apesar da falta de provas científicas quanto à sua efetividade.

Existem bons motivos pelos quais nem essa nem nenhuma outra dieta foi submetida a um teste clínico aleatório controlado com placebo, o padrão tradicional para determinar o valor de qualquer terapia. Na verdade, tal teste poderia ser impossível. Mas Ann D. Sawyer e Judith E. Bachrach, co-autoras do livro "The MS Recovery Diet" ("A Dieta da Recuperação da Esclerose Múltipla"), dizem que isso não deve dissuadir as pessoas que enfrentam os sintomas debilitantes dessa doença degenerativa.

O plano dietético que elas descrevem foi desenvolvido há várias décadas pelo médico Roy L. Swank, professor emérito de neurologia da Universidade de Ciência da Saúde do Oregon, em Portland. Swank defendeu uma redução drástica das gorduras saturadas e o aumento do consumo de ácidos graxos essenciais como os óleos de peixe e de vegetais, medidas endossadas pela Sociedade Nacional da Esclerose Múltipla como parte de uma dieta saudável.

Em 2003, Swank relatou que entre os 144 pacientes submetidos à sua dieta 34 anos antes, 67% dos 70 indivíduos que a seguiram cuidadosamente sobreviveram, enquanto apenas 21% dos que eram "maus seguidores da dieta" não pereceram.

Allen C. Bowling, neurocirurgião e especialista em questões nutricionais do Centro Rocky Mountains de Esclerose Múltipla, no Colorado, escreveu: "Nenhum teste clínico bem elaborado foi realizado para determinar se a redução de fontes dietéticas de gorduras saturadas melhora o estado de quem sofre de esclerose múltipla".

Mas ele acrescentou: "Existem alguns estudos epidemiológicos que sugerem que em regiões nas quais as pessoas consomem menos gorduras saturadas existe um decréscimo do risco de se desenvolver esclerose múltipla". Ele disse em uma entrevista que há também estudos epidemiológicos, laboratoriais e com animais que vinculam uma maior presença de ácidos graxos ômega-3 na dieta ao decréscimo do risco e da gravidade da doença.

"A área dietética é ainda meio indefinida nos estudos da esclerose múltipla - os sinais são tentadores, mas não há conclusões definitivas", afirma Bowling. "Adotar mudanças sensatas na dieta não fará mal, mas ao mesmo tempo é importante que as pessoas que sofrem de esclerose múltipla tirem vantagem daquilo que a medicina convencional tem a oferecer e otimizem as suas opções de tratamento todos os dias".

Além da gordura saturada, Sawyer e Barach sugerem que outros potenciais vilões dietéticos são laticínios, grãos que contêm glúten, legumes, ovos e levedura. "Além dos cinco suspeitos usuais, cada pessoa pode apresentar sensibilidades alimentares bastante individuais a ervas, temperos ou alimentos de qualquer categoria", escrevem elas. Cada paciente deve determinar quais são as suas sensibilidades pessoais através do método da tentativa e erro.

Em uma entrevista, Sawyer afirmou: "Essa abordagem é simples, não custa nada e ninguém está lucrando com ela. Não estamos dizendo que a dieta é uma cura; ela é uma forma de controlar os sintomas da esclerose múltipla. Andar por aí verificando o que você come é bem melhor do que ficar sentado em uma cadeira de rodas".

Antes de iniciar a dieta, Bachrach, ex-dançarina e ex-instrutora de movimentos, não podia sequer usar uma cadeira de rodas porque a parte superior do seu corpo tornou-se demasiadamente fraca para manipulá-la. Ela tinha 35 anos quando descobriu que tinha esclerose múltipla; aos 49, ela estava quase que permanentemente acamada. Foi então que, em 2006, Bachrach conheceu Sawyer e decidiu tentar a dieta que esta sugeriu.

"Após seguir a dieta por uma semana, recuperei a sensibilidade dos dedos dos pés", escreveu ela. "Seis semanas depois, também melhorei progressivamente em termos de resistência e resposta muscular. Passei até a ser capaz de caminhar até a cachoeira no meu sítio, carregar lenha, esvaziar o depósito de cinzas, fazer molho de espaguete e ficar de pé para saudar o meu marido quando ele chegava tarde de uma viagem, tudo isso em um único dia, e ainda me sinto muito bem. Não há dúvida que, com esta dieta, os meus dias bons estão sem dúvida melhores. A cada mês eu continuo ganhando novas sensações, mobilidade, força e resistência".

O caso dela é uma das quase doze "histórias de sucesso" narradas no livro. Vários outros pacientes relataram que permaneceram em bom estado enquanto seguiram a dieta, tiveram recaídas ao descuidarem com a comida e voltaram a recuperar-se ao retornarem ao programa dietético.

Você pode estar se perguntando por que todos os pacientes de esclerose múltipla não estão seguindo essa dieta? A resposta diz respeito, em parte, à natureza complexa da doença.

A esclerose múltipla é uma desordem auto-imune altamente variável na qual o próprio sistema imunológico do corpo ataca as bainhas de mielina dos axônios dos neurônios, que transmitem sinais nervosos no cérebro. A forma mais comum da doença é chamada de recaída-melhora: os pacientes ficam bem durante algum tempo, e depois os sintomas retornam, para diminuírem de intensidade novamente mais tarde, com ou sem tratamento. Assim, é difícil saber se uma melhora deve-se ou não à dieta.

Patricia O'Looney, vice-presidente de pesquisa médica da Sociedade da Esclerose Múltipla, disse em uma entrevista: "Existe um forte efeito placebo na esclerose múltipla. É provável que qualquer mudança implementada pela pessoa - seja na dieta ou qualquer outra coisa - faça com que ela se sinta melhor pelo fato de estar agindo de alguma forma. Ingerir menos gordura saturada e mais óleo de peixe é bom para todos nós. Mas jamais sugeriríamos uma mudança de dieta como substituição de uma terapia aprovada pela Administração de Alimentos e Remédios (FDA)dos Estados Unidos.

Segundo a teoria da "dieta da recuperação", nas pessoas suscetíveis, proteínas parcialmente digeridas estimulariam uma resposta imunológica semelhante a uma alergia, fazendo com que os anticorpos confundissem a mielina com uma proteína prejudicial. A seguir esses anticorpos entram no cérebro e atacam a bainha de mielina, prejudicando a condução nervosa e finalmente causando a morte dos axônios. As autoras sugerem que o objetivo é identificar e eliminar os alimentos prejudiciais da dieta a fim de reduzir a resposta imunológica.

Existem vários problemas envolvidos para que se procure testar esse ou qualquer outro regime dietético de forma científica. Conforme explica Rosalind Kalb, vice-presidente da sociedade da esclerose múltipla, a natureza cíclica da doença significa que os estudos devem ser de longo prazo. "Durante períodos extensos os indivíduos precisam seguir uma dieta exata, e, a seguir, os resultados precisam ser comparados com os de outras pessoas que adotam uma dieta comum. E o simples fato de comprovar que um regime rigoroso como o da dieta da recuperação está sendo de fato adotado já é por si só um desafio", afirma Kalb.

E, como podem haver diversas sensibilidades individuais, existem muitas variáveis, e é difícil saber o que deve ser excluído da dieta que está sendo testada. Uma coisa é examinar um único nutriente, como os ácidos graxos ômega-3 ou a vitamina D, substâncias que são alvos de estudos apoiados pela sociedade, mas é muito mais difícil testar uma dieta composta de diversos nutrientes diferentes.

"Até o momento nenhum pesquisador interessou-se em levar tais estudos adiante", disse Kalb. "Os medicamentos parecem prometer mais resultados". UOL

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