UOL Notícias Internacional
 

11/03/2008

Empreendores franceses estão na Inglaterra à espera dos resultados da sarkonomia

The New York Times
John Tagliabue

Em Londres
Há quatro anos, Caroline Sivilia, uma parisiense que trabalhava para a agência de publicidade Publicis Groupe, deixou a França para iniciar uma revista sobre estilo de vida francês para Londres. "Eu era jovem, queria criar, e vim para cá sem nada, sem saber inglês", disse Sivilia, 34 anos.

Atualmente ela emprega oito pessoas e uma equipe de free-lancers e sua revista, a "London Macadam", está disponível em 300 pontos de distribuição em Londres e 50 em Paris. Ela está entre as legiões de refugiados empresariais que sobrevivem e prosperam na Inglaterra enquanto o presidente da França, Nicolas Sarkozy, tenta implantar uma agenda pró-capitalismo.

Sivilia disse que consideraria voltar à França, mas provavelmente não como empresária.

"Eu faria como os ingleses", ela disse rindo. "Eu compraria uma casa no sul da França. Mas enquanto estiver na minha fase empresarial, eu prefiro estar aqui".

Pontos de vista como estes se somam à batalha colina acima enfrentada por Sarkozy enquanto luta para transformar a alma econômica da França. A sarkonomia, como a imprensa rotulou as mudanças econômicas propostas por Sarkozy, ainda não atenderam às expectativas.

Seus números nas pesquisas estão caindo. Suas propostas para mudar o sistema de aposentadoria do governo foram recebidas com uma série de greves nos transportes no ano passado. Neste ano, os motoristas de táxi e controladores de tráfego aéreo realizaram greves.

A natureza franca e a vida pessoal colorida de Sarkozy também o deixaram vulnerável a críticas. Mas ele continua defendendo sua posição de como os generosos benefícios franceses do berço ao túmulo devem mudar.

Em dezembro, Sarkozy disse que estava considerando cem medidas que incluíam formas de reduzir a burocracia francesa e fornecer melhores serviços para empresas e ao público. As propostas incluíam o corte de 25% no custo da burocracia para as empresas.

Muitos empresários franceses continuam pressionando por mais mudanças. Olivier Cadic, 44 anos, abriu uma fábrica de computadores na França em 1982, a batizou de Info Elec e transferiu para Kent em 1997. Ele posteriormente vendeu a empresa e abriu outra, a Cinebook, que traduz histórias em quadrinhos como Lucky Luke e Asterix e as vende para mercados como os Estados Unidos e a Austrália. Em 2007, Cadic concorreu e conquistou uma das 12 cadeiras no Senado francês reservadas para representantes dos eleitores franceses no exterior, e não esconde seu entusiasmo por Sarkozy e suas políticas.

Mas os economistas dizem que a França terá que promover mudanças muito mais profundas na postura de sua cultura em relação ao capitalismo caso pretenda manter seus jovens empresários em casa.

O acesso ao financiamento para abertura de empresas permanece difícil e os mercados em muitos setores freqüentemente são monopolizados por grandes conglomerados, disse Elie Cohen, um importante economista francês.

Além disso, a legislação que limita a jornada semanal de trabalho a 35 horas prejudica mais as pequenas empresas do que as grandes. Comparando a França com a Alemanha e a Itália e suas redes de robustas empresas multinacionais -freqüentemente controladas por uma família- ele disse, "nós não contamos com um tecido de empresas de pequeno e médio porte; esta é uma fraqueza essencial".

"As regras são feitas para as grandes empresas, não para as pequenas", acrescentou Cohen.

Atualmente há cerca de meio milhão de homens e mulheres franceses vivendo e trabalhando na Inglaterra, a maioria com menos de 35 anos. A onda de empresários refugiados em fuga para a Inglaterra não exibe sinais de diminuição.

No momento, em meio aos pastos de ovelhas e campos de lúpulo do condado de Kent, mais de 5.200 pessoas, uma mistura de franceses e ingleses, trabalham em mais de 75 empresas francesas.

"A mudança poderá ocorrer, mas a França não é um país de evolução, mas de revolução", disse Jean-Claude Cothias, que deixou a França há uma década para fundar a Eikos, uma empresa de consultoria. "Algo precisa partir, ruir, e então você conserta", disse Cothias, 34 anos. "A Inglaterra conserta as coisas o tempo todo".

Enquanto a França luta para redefinir sua posição em relação ao capitalismo, os britânicos se beneficiam de políticas às quais oficialmente se opõem: o livre circulação de capital e trabalhadores pelas fronteiras européias.

Por grande parte do Reino Unido, a resistência a alguns aspectos da União Européia permanece forte. Por exemplo, o país continua rejeitando a adoção do euro ou do Acordo de Schengen, que elimina os controles de fronteira entre a maioria dos países da União Européia, incluindo França, Espanha e Alemanha.

Mas nestas bandas, políticos e líderes empresariais falam sobre os benefícios do comércio.

Ashford, em Kent, é a primeira parada na Inglaterra do trem do Canal da Mancha, a menos de uma hora de Lille e Londres e a menos de duas horas de Paris.

"Daqui é possível enxergar o norte da França", disse Alan Marsh, que é responsável pelas relações internacionais no Conselho do Condado de Kent. "É muito confortador".

Entre os primeiros jovens empreendedores a chegarem a Kent, Cothias fundou a Eikos em 1998, depois que a empresa francesa que o empregava ter se recusado a permitir que ele estabelecesse uma subsidiária no Reino Unido. O registro de sua empresa no Reino Unido lhe custou uma libra, ou cerca de US$ 2. Na França, seus pais teriam que hipotecar a casa da família para pagar as taxas envolvidas, ele disse.

Ele também descobriu que enquanto um empregador na França deve pagar taxas de aposentadoria, desemprego e seguro social que representam 48% do salário de um funcionário, os empregadores britânicos pagam apenas cerca de 10%.

Ele disse acreditar que essas diferenças revelam uma divisão filosófica mais profunda. "A economia é vista aqui como algo necessário, uma das partes mais importantes da sociedade, se você quiser que todos possam se vestir e se alimentar", disse Cothias. "Isto cria um ambiente de trabalho totalmente diferente para as empresas".

As queixas de empresários como Cothias não passam despercebidas nos salões do governo em Paris. Há três anos, ele foi convidado juntamente com outros donos de empresas emigrantes para uma reunião com um ministro do governo. Uma mudança resultante das críticas deles foi a redução da taxa para abertura de uma nova empresa na França para um euro, ou cerca de US$ 1,53.

Mesmo os britânicos sabem que não segurarão todos os franceses que vierem, e dizem que isto é bom para o Reino Unido e para a França. "Eles recebem qualificações que poderão então repatriar na língua francesa", disse Paul Wookey, executivo-chefe da Locate, em Kent, uma empresa de marketing que encoraja o investimento estrangeiro no país. "É isto o que move a economia francesa para frente".

Alguns especialistas em negócios alertam as empresas francesas que o Reino Unido nem sempre garante o sucesso na oferta dos benefícios que as empresas buscam. Patricia Goodenough, cuja agência, a Advent UK, ajuda jovens empresários franceses a emigrarem, disse que apenas um entre quatro cidadãos franceses que ela enviou para o Reino Unido conseguiu sucesso nos negócios. "Alguns não se saem bem", ela disse. "Os sonhadores, não os realizadores".

Em Paris, na sede do Centro para Jovens Líderes Empresariais, uma organização que encoraja o empreendimento, Thomas Chaudron, o presidente, disse que o sucesso empresarial em qualquer país é difícil.

Ele disse que desde o final dos anos 90, quando grande parte da migração para a Inglaterra ocorreu, o número de novas empresas na França vem aumentando de forma consistente. Em 2007, o número cresceu quase 6% em relação a 2006. Desde 1997, o número aumentou cerca de 26%.

Chaudron, 34 anos, abriu uma empresa perto de Chartres, França, em 1997, para produção de divisórias de escritório. Ela agora conta com 35 funcionários e US$ 10 milhões em receita. Em qualquer país, a atividade empresarial enfrenta desafios, independente do apoio do governo, ele disse.

"Não é como comprar uma baguete", ele disse. "É uma aventura." George El Khouri Andolfato

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