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11/03/2008

Krugman: a teoria do tapa na cara

The New York Times
Paul Krugman
O relatório de emprego de sexta-feira -que foi tão fraco a ponto de levar muitos economistas a declararem que já estamos em recessão- foi uma má notícia. Mas na verdade foi muito menos perturbadora do que o que está acontecendo nos mercados financeiros.

A coisa mais assustadora que li recentemente foi o discurso dado na semana passada por Tim Geithner, o presidente do Federal Reserve de Nova York. Geithner chegou o mais próximo que pode um diretor do Fed de dizer que estamos em meio a um colapso financeiro.

Para entender a gravidade da situação, é preciso saber o que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) fez em agosto e novamente em dezembro.

Em agosto, a palavra favorita entre as autoridades financeiras era "contido": os problemas das hipotecas subprime, éramos tranqüilizados, não se espalhariam para outros mercados financeiros nem para a economia como um todo.

Logo depois, entretanto, o pânico financeiro pleno teve início. Os investidores retiraram centenas de bilhões de dólares de papéis comerciais apoiados em ativos, um mercado pouco conhecido mas importante que assumiu grande parte do trabalho que os bancos costumavam fazer. Esta corrida aos bancos de fato provocou ondas de choque por todo o sistema financeiro.

O Fed respondeu oferecendo dinheiro aos bancos, e os mercados em parte se acalmaram, por um momento. Mas em dezembro o pânico estava de volta.

De novo, o Fed respondeu oferecendo dinheiro aos bancos, desta vez por meio de um novo arranjo chamado Term Auction Facility (TAF, leilões de recursos). Novamente os mercados se acalmaram, por algum tempo.

Mas novamente, o respiro foi apenas temporário. No mês passado, outro mercado do qual você nunca ouviu falar, o mercado de US$ 300 bilhões de títulos de taxas variáveis (não pergunte), sofreu o equivalente a uma corrida aos bancos. Na semana passada, duas grandes empresas financeiras anunciaram que eram incapazes de levantar o dinheiro exigido por seus credores. Mesmo a Fannie Mae e Freddie Mac, as gigantes de hipotecas financiadas pelo governo e há muito consideradas como locais seguros onde colocar seu dinheiro, agora estão tendo dificuldades para atrair fundos.

Uma conseqüência da crise é que apesar do Fed ter reduzido a taxa de juros que controla -a chamada taxa de fundos do Fed- as taxas que importam mais diretamente à economia, como as taxas das hipotecas e títulos corporativos, estão aumentando. E isto certamente agravará a retração econômica.

O que está acontecendo? Geithner descreveu como um círculo vicioso nos quais bancos e outros integrantes do mercado que correram risco demais estão todos tentando escapar dos investimentos inseguros ao mesmo tempo, causando "danos colaterais significativos para o funcionamento do mercado".

Um relatório divulgado na última sexta-feira pelo JPMorgan Chase foi ainda mais direto. Ele descreveu o que está acontecendo como um "pedido de cobertura sistêmico", no qual todo o sistema financeiro está enfrentando exigências para produzir dinheiro que não tem.

O mais recente plano do Fed para romper este círculo vicioso é -como descreveu de forma cruel mas precisa o site financeiro interfluidity.com- se tornar o penhorista de Wall Street. Os bancos capazes de levantar dinheiro vendendo ativos serão encorajados, em vez disso, a tomar empréstimos junto ao Fed, usando seus ativos como garantia. No pior caso, o Federal Reserve se veria de posse de cerca de US$ 200 bilhões em títulos hipotecários.

Alguns observadores temem que o Fed esteja assumindo o risco financeiro dos bancos. Mas o que mais me preocupa é que a medida me parece trivial em comparação ao tamanho do problema: US$ 200 bilhões podem soar como muito dinheiro, mas quando comparados ao tamanho dos mercados que estão sofrendo colapso -há US$ 11 trilhões em hipotecas nos EUA- são uma gota no balde.

A única forma da ação do Fed poder funcionar é por meio do efeito tapa na cara: criando uma pausa no frenesi de venda, o Fed poderia dar aos mercados histéricos uma chance de recuperar seu senso de perspectiva. E para ser honesto, isto já funcionou no passado.

Mas o tapa na cara só funciona se os problemas do mercado forem basicamente de ordem psicológica. E dado que o Fed já deu dois tapas na cara do mercado, apenas para ver a crise financeira retornar, isto é difícil de acreditar.

A terceira vez poderá ser a que vale. Mas eu duvido. Em breve, nós provavelmente teremos que fazer algo real a respeito da redução dos riscos enfrentados pelos investidores.

Um plano para restaurar a credibilidade do seguro de títulos municipais seria um começo. (Que loucura é o fato do Estado de Nova York, em vez do governo federal, estar liderando esta idéia?) Eu também suspeito que os Feds terão que garantir explicitamente as dívidas de Fannie e Freddie, que realmente são grandes demais para quebrar.

Ninguém deseja fazer com que os contribuintes arquem com a estupidez do setor financeiro; mas nós todos podemos esperar que, no final, o socorro não seja necessário. Mas a esperança não é um plano. George El Khouri Andolfato

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