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11/03/2008

vc eh velho d+: O conflito de gerações chega à era do SMS

The New York Times
Laura M. Holson
Como presidente da unidade de publicação de livros e revistas da Walt Disney Co., Russell Hampton sabe algumas coisas sobre adolescentes. Ou assim pensava até o dia em que estava levando sua filha de 14 anos, Katie, e duas amigas ao teatro, no ano passado em Los Angeles.

"Katie e suas amigas estavam sentadas no banco de trás, conversando sobre algum astro do cinema; acho que era Orlando Bloom", lembra-se Hampton, cuja empresa produziu "Piratas do Caribe", no qual o ator trabalhou. "Fiz algum comentário sobre ele, não me lembro exatamente qual, mas recebi aquele suspiro gutural típico de adolescente, e Katie revirou os olhos para mim, como se dissesse: 'Ai pai, você está tão por fora.'"

Depois disso, a conversa no banco de trás parou. Quando Hampton olhou pelo espelho retrovisor, viu a filha enviando uma mensagem de texto em seu telefone celular. "Katie, você não deveria ficar mandando mensagens o tempo todo", lembra-se de ter dito a ela. "Você está com suas amigas. É falta de educação". Katie revirou os olhos de novo.

"Mas pai, estamos mandando mensagens uma para outra", ela respondeu. "Não quero que você ouça o que estou dizendo".

Andrew M. Daddio/The New York Times 
Savannah Pence usa o SMS para falar com as amigas sem que seu pai (ao fundo) perceba

Corrigido pela filha, Hampton voltou sua atenção para a estrada. É uma cena comum atualmente, que se desenrola em carros, cozinhas e quartos de dormir em todo o país.

Cada vez mais, as crianças dependem de seus aparelhos eletrônicos como telefone celular para se definir e criar círculos sociais separados de suas famílias, mudando a forma que se comunicam com os pais. As inovações, é claro, sempre geraram amplas mudanças na sociedade. Quando os telefones se tornaram comuns no século passado, os usuários -adultos e adolescentes- encontraram uma espécie de privacidade e fácil comunicação desconhecida para Alexander Graham Bell ou suas filhas.

O automóvel acabou inaugurando uma era em que os adolescentes podiam sair para namorar longe dos "chaperones". E o computador, junto com a Internet, deu até a crianças muito novas vidas virtuais distintamente separadas dos pais e dos irmãos.

Analistas de empresas e outros pesquisadores acreditam que a popularidade do telefone celular -junto com a mobilidade e intimidade que permite- acelerará ainda mais essas tendências. Até 2010, 81% dos americanos de 5 a 24 anos terão um telefone celular, subindo de 53% em 2005, de acordo com o IDC, empresa de pesquisa em Framingham, Massachusetts, que acompanha o setor. Psicólogos sociais como Sherry Turkle, professora do MIT, que estudou o impacto social das comunicações móveis, diz que essas tendências provavelmente continuarão, enquanto os telefones celulares vão se transformando em minicomputadores de mão, formadores de rede social e telas de cinema.

"Para as crianças, tornou-se um objeto que formula a identidade e modifica a psique", disse Turkle. "Ninguém cria uma nova tecnologia compreendendo realmente como será usada ou como poderá mudar uma sociedade".

Os fabricantes de telefones celulares ficam felizes em preencher essa nova lacuna de geração. No último outono, a Firefly Mobile introduziu o glowPhone para a pré-escola. O aparelho tem um pequeno teclado com dois botões de discagem automática, um com uma imagem de uma mãe e outro de um pai. A AT&T promove seu serviço sem fio com comerciais de televisão que zombam de uma mãe que não compreende o vernáculo de telefone celular da filha.

O IDC diz que a renda de serviços e produtos vendidos para consumidores jovens e seus pais deve crescer para US$ 29 bilhões (cerca de R$ 58 bilhões) em 2010, subindo de US$ 21 bilhões (aproximadamente R$ 42 bilhões) em 2005. Até agora, o celular tem mais vantagens do que desvantagens para a família, pois permite que os pais atinjam seus filhos a qualquer momento. Hampton, que é divorciado, diz que é fácil entrar em contato com Katie, apesar de viverem em fusos horários diferentes. E alunos universitários que estão sempre sem tempo, como Ben Blanton, calouro que joga beisebol na Universidade Vanderbilt em Nashville, Tennessee, envia mensagens aos pais pedindo para fazerem favores ou apenas para dizer oi.

"Um SMS fica entre ligar e enviar um e-mail", explicou, enquanto fazia uma pausa nos estudos. Agora, ele nem pensa em escrever uma carta para a mãe. "Toma muito tempo", disse ele. "Você tem que ir até o correio. Em vez disso, posso ficar sentado assistindo televisão e enviar um SMS, que é a mesma coisa."

Como acontece com qualquer mudança cultural envolvendo pais e filhos -o nascimento do rock e a revolução sexual dos anos 60, por exemplo- surgem vários vãos. A geração do baby boom, que décadas atrás advertiu que não dava para confiar em seus pais desconectados, agora algumas vezes se encontra criando filhos que -graças à Internet pelo telefone celular- também consideram mamãe e papai fora de sintonia. Os telefones celulares, a mensagem instantânea, a mensagem eletrônica e similares estimulam o usuários mais jovens a criarem uma linguagem escrita muito criativa, estranha e privada. Isso deu a eles uma oportunidade de essencialmente esconderem-se em plena vista. Eles estão mais conectados do que nunca, mas também muito mais independentes.

Em alguns casos, eles podem ficar mais alienados daqueles mais próximos deles, disse Anita Gurian, psicóloga e editora de AboutOurKids.org, site da Web do centro de Estudos Infantis da Universidade de Nova York.

"Os telefones celulares exigem um envolvimento diferente dos pais", disse ela. "Os jovens podem fazer muitas coisas na frente dos pais sem saberem." Certamente que os pais sempre estiveram preocupados com o bem-estar dos filhos, sua independência e comportamento -e o aumento da oferta de telefone celular é apenas a mais recente mudança nessa dinâmica.

Os desdobramentos levaram as empresas de comunicação a educar os pais sobre como melhor estar em contato com os filhos. Em uma pesquisa divulgada há 18 meses, a AT&T descobriu que, entre 1.175 pais, quase metade aprendeu a enviar mensagens de texto com os filhos. Mais de 60% dos pais concordaram que o celular ajuda na comunicação, mas que seus filhos, algumas vezes, não queriam ouvir sua voz de forma alguma. Quando perguntados se seus filhos preferiam receber uma ligação ou um SMS pedindo que voltassem para casa no horário combinado, por exemplo, 58% dos pais disseram que os filhos preferiam um SMS.

"Só porque você pode alcançá-los, não significa que responderão", disse Amanda Lenhart, pesquisadora especialista do Projeto Pew de Internet e Vida Americana, que está estudando o impacto da tecnologia sobre os adolescentes. "Os telefones celulares dão aos adolescentes uma vida mais privada. Seus pais não escutam todas suas conversas". As mensagens de texto, em particular, se tornaram um código desta geração. Para os pais espantados, a AT&T oferece um manual que decodifica as abreviações criadas para manter os pais no escuro. "Os adolescentes às vezes usam linguagem para que os pais não entendam suas conversas, tornando seus comentários indecifráveis", diz o tutorial. Algumas das abreviações usadas pelos jovens são: POS (das iniciais em inglês para "pai sobre seu ombro"), PRW ("pais estão olhando") e KPC ("mantendo os pais no escuro").

Savannah Pence, 15, diz que quer manter contato com os pais -mas também quer mantê-los a uma certa distância. Ela diz que o pai, John, só permitiu que ela e seu irmão de 19 anos, Alex, tivessem celulares no ensino médio, diferentemente dos amigos que desde o quinto ano já tinham telefones. Apesar de Savannah descrever seu relacionamento com os pais como próximo, ela ainda prefere manter seu espaço.

"Eu não envio muitas mensagens na frente dos meus pais, porque eles lêem" o que escrevo, disse ela. E quando perguntam quem está no telefone? "Eu simplesmente digo 'gente'. Aí não perguntam mais."

A princípio, John Pence, proprietário de um restaurante em Portland, Oregon, não soube sobre como se relacionar com a filha. "Eu não sabia como me comunicar com ela", disse Pence. "Tive que aprender." Então, ele fez um curso de SMS -com Savannah. Até agora, contudo, ele sabe digitar rapidamente apenas algumas palavras ou frases: onde você está? Por que não me ligou? Quando virá para casa?

Quando sua filha faz uma pergunta, ele em geral usa a mesma resposta: "Ok", para ser bem curto. "Eu ainda não usei ponto de interrogação". Ele diz que teve que aprender como enviar mensagens porque sua filha não retornava suas ligações. "Eu não deixo mensagem", disse ele, "porque ela sabe que sou eu".

Savannah disse que envia ao pai ao menos duas ou três mensagens por dia. "Não posso fazer perguntas, porque ele é lento demais", disse ela. "Ele usa palavras simples". Por outro lado, sua mãe, Caprial, é mais eficiente em enviar mensagens e pergunta como foi seu dia no colégio ou como estão suas amigas. (Sua mãe deve sua maior capacidade em digitar texto ao fato de ser ágil datilógrafa.)

Logo no início, os pais de Savannah não tinham regras estabelecidas. Primeiro, eles baniram o uso do celular à mesa de jantar e depois quando a família assistia televisão, porque John Pence se preocupava com as distrações. "Eles ficam inconscientes da sua presença", disse ele.

Pence tem bastante consciência de como os telefones celulares, iPods e jogos eletrônicos podem ser desestabilizadores nas relações familiares. "Vejo as crianças enviando SMS por debaixo da mesa nos restaurantes", disse. "Eles não ensinam mais a etiqueta". Algumas crianças, disse ele, até assistem vídeos nos restaurantes.

"Elas não sabem que é hora de conversar", disse ele. "Gostaria de me aproximar dessas mesas e dizer: crianças, guardem seus celulares e iPods e conversem com seus pais."

Contudo, até ele descobriu que impor regras é mais difícil do que se imagina. Ele permitiu que Savannah enviasse mensagens de texto enquanto assistia televisão, depois que a viu usando um cobertor no colo para esconder que estava enviando mensagens aos amigos. "Ou permitia que ficassem na mesma sala e enviassem mensagens ou não permitia, e eles partiriam", disse Pence. "São bons meninos, mas você tem que saber o que estão fazendo".

Outras famílias enfrentam desafios similares

Em 1999, Marie Gallick contratou um plano de família para ela e seus três filhos e descobriu que cada um deles tinha uma abordagem diferente no uso do telefone celular. Um de seus filhos gosta de falar, disse ela, enquanto o outro, Brandon, que mora perto da casa dela em Raritan, Nova Jersey, prefere enviar SMS. A freqüência da comunicação depende do humor deles, disse ela. Ela descobriu que tinha que tomar cuidado com o que dizia.

"Há emoção por trás", disse ela. Certa vez, um de seus filhos não atendeu o telefone quando ela ligou. Então, ela enviou mensagem dizendo: "LEGAL DE SUA PARTE LIGAR O TELEFONE".

"Eles acharam que eu estava irada", disse ela. Gallick não sabia que usar letras maiúsculas era o mesmo que gritar. (Ela disse que teve o mesmo problema quando começou a usar e-mail e que talvez seu problema seja mais de adaptação às tecnologias digitais do que de comunicação com os filhos.)

Brenda Ng, vice-presidente do setor de consumidor da T-Mobile, provedora de celular, disse que estudos de sua empresa mostram que, apesar do uso de telefone celular poder causar divisão também é "a cola" que cimenta os relacionamentos. "Talvez pareça lugar comum, mas mantém as pessoas unidas", disse Ng.

Considere o seguinte: Brandon Gallick, que tem 23 anos, lembra-se de uma noite no ano passado quando estava indo para casa em uma estrada perto de Hillsborough, Nova Jersey, e um grande burro passou na frente de seu carro. Ele não conseguiu esperar para ligar para a mãe. "Tive que mandar um texto para minha mãe naquele instante", disse ele, observando que também enviou mensagens para os amigos. "Queria contar a ela porque foi tão engraçado. A gente não vê muitos burros em Nova Jersey".

Marie Gallick gostou da mensagem. "Gosto quando faz isso", disse ela. "Faz-me sentir especial". Ainda assim há o problema da dificuldade de comunicação.

"Precisei de cinco mensagens antes de entender o que realmente significava", disse ela. "Acaba que você tem que enviar mais mensagens para entender o que outro quer dizer do que se você simplesmente usasse o telefone. Constantemente, você tem que perguntar o que você queria dizer? É uma forma de alienação ao mesmo tempo em que nos mantém em contato".

De fato, enviar SMS parece ser mais fácil do que falar para alguns usuários de celular, dando-lhes outra distração dentro de seus carros. Blanton em Vanderbilt, como muitos de seus colegas, envia mensagens para sua mãe e amigos mesmo quando suas duas mãos deveriam estar ao volante.

"Posso enviar um texto sem olhar para o telefone", disse ele. "Com certeza não é seguro. Algumas vezes eu olho em volta e não me lembro por onde passei."

Turkle, a professora do MIT, diz que os telefones oferecem outra forma para a geração do Facebook compartilhar toda e qualquer experiência de vida assim que ela acontece.

"Há uma diferença entre 'eu tenho a sensação que quero ligar' para 'preciso ligar'", disse ela. "Não dá mais tempo de ter uma sensação antes de compartilhar essa sensação."

Turkle lembra-se de umas férias que passou com sua filha em Paris, onde ela esperava mergulhar na cultura e na cozinha local. "Parte da idéia de Paris era ser Paris", disse Turkle. Contudo, durante um passeio à tarde, sua filha recebeu várias ligações e mensagens de texto em seu telefone celular de amigos em Boston. Sua filha sentiu-se compelida a responder todas.

Quando Turkle perguntou por que ela não desligava o telefone e apreciava a cidade, sua filha disse: "Sinto-me mais confortável conversando com meus amigos". Mas os amigos da filha nem queriam realmente conversar. "Eles só querem saber onde você está", disse Turkle. "É uma nova sensibilidade".

É uma nova sensibilidade em muitas frentes. Jan Blanton disse que seu relacionamento com o filho, Ben, é mais próximo por que o celular torna a conexão tão simples. Isso a levou a refletir em seu relacionamento com seus próprios pais.

No início dos anos 80, quando ela saiu de casa para fazer a faculdade, seu relacionamento com os pais ficou prejudicado. "Não tínhamos uma comunicação aberta", disse ela. "Eu não era próxima deles; ligava uma vez por semana, talvez. Meus pais ficavam felizes quando estávamos fora de casa".

Blanton se pergunta se as coisas teriam sido diferentes se houvesse SMS na época. Seu filho hoje envia mensagens freqüentemente para o avô, discutindo beisebol e pescaria. "Escrevo melhor do que falo", disse Blanton, cujo relacionamento com os pais hoje é próximo. "Acho que teríamos tido uma experiência melhor".

É provável que, em alguns anos, membros mais jovens dos letrados digitais considerarão os telefones celulares atuais como relíquias. Muitos consumidores estão cada vez mais atentos às tendências em aparelhos tecnológicos, e os analistas dizem que as crianças e adolescentes têm maior chance de sempre buscar algo novo.

Hampton diz que sua filha Katie recentemente pediu um BlackBerry para poder enviar e-mail aos amigos e ter acesso livre à Internet.

"Eu disse não", lembra-se ele. "Não é necessário".

Mas novamente, disse Hampton, talvez mude de idéia. "Ninguém ensina aos jovens como usar essas coisas", disse ele. "Mas, para ser justo, os adultos tampouco sabem usá-las". Deborah Weinberg

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