UOL Notícias Internacional
 

11/03/2008

Viúvo de Benazir Bhutto sai da prisão para figurar no topo da política do Paquistão

The New York Times
Jane Perlez
Em Islamabad
Asif Ali Zardari, o viúvo da líder oposicionista assassinada Benazir Bhutto, encontra-se no ápice da política paquistanesa. Este é um retorno impressionante para um homem que, embora nunca tenha sido condenado aqui, passou 11 anos na cadeia no Paquistão, devido a acusações de corrupção e assassinato, na condição de uma das figuras mais estigmatizadas e isoladas do país.

A vitória eleitoral no mês passado do partido de Bhutto, que agora ele lidera, fez de Zardari, 51, a figura poderosa do Paquistão. Na semana passada ele chegou mais perto do que nunca da reabilitação legal, quando um tribunal daqui retirou diversas acusações de corrupção contra ele.

Os últimos dois processos judiciais no Paquistão deverão ser arquivados nesta semana. Nos dias de hoje a maior preocupação de Zardari diz respeito a quem ele nomeará primeiro-ministro, uma decisão que deverá ser tomada a qualquer momento.

Johan Spanner/The New York Times 
Asif Ali Zardari, viúvo de Benazir Bhutto, durante uma coletiva de imprensa em Islamabad

O súbito ressurgimento político de Zardari é um lembrete de como o Paquistão tem oscilado entre ditaduras militares e governos civis marcados por denúncias de corrupção, e como esses casos podem ser alimentados - ou descartados - de acordo com os ventos políticos.

A anulação dos casos de corrupção foi uma das principais exigências de Bhutto quando ela negociou o seu retorno ao Paquistão após oito anos no exílio, devido a um acordo de divisão de poder apoiado pelos Estados Unidos e que tinha como objetivo preservar o presidente Pervez Musharraf.

Mas foi Zardari que se tornou o beneficiário acidental do plano, que está em frangalhos. No último domingo, ele e o outro principal líder de oposição no país, Zawaz Sharif, disseram que procurarão reduzir o que resta dos poderes já diminuídos do presidente. Os dois prometeram acabar com a era Musharraf.

Em uma entrevista pouco antes da eleição, Zardari afirmou que as acusações contra ele tinham motivação política. Segundo ele, o acordo feito com Musharraf, conhecido como Ordem de Reconciliação Nacional, e que foi alvo dos trabalhos do judiciário na semana passada, o inocentam.

"Antes de dar a sua vida, ela garantiu que o mundo soubesse, que todos soubessem, que esses atos tiveram motivação política", disse Zardari durante a entrevista, referindo-se a Benazir Bhutto. "Portanto, creio que fui inocentado".

Durante a entrevista, Zardari praticamente não falou sobre as acusações de corrupção, e tampouco sobre o fato de ele ter permanecido sob liberdade condicional juntamente com outros doze réus devido a acusações de conspiração relacionadas ao assassinato do seu cunhado, Murtaza Bhutto, em 1996. Benazir Bhutto afirmou que o assassinato foi uma operação realizada pelas agências paquistanesas de inteligência para dividir e enfraquecer a sua família.

"Eles sempre me abordam sob o ponto de vista da legalidade", disse Zardari. "Sempre apresentam uma razão legal. Afinal, Cristo foi julgado. Não é que não tenham concedido um julgamento a ele. Eles concederam. Mas a qualidade do julgamento é outra história".

A Ordem de Reconciliação Nacional absolveu políticos, banqueiros e burocratas - mas não cidadãos comuns - acusados de crimes de corrupção de 1988 a outubro de 1999, quando Musharraf apossou-se do poder em um golpe no qual não houve derramamento de sangue.

Dentre as cinco acusações contra Zardari que foram anuladas na semana passada havia a de que ele teria recebido propinas no valor total de US$ 10 milhões relacionadas à sua companhia de importação de ouro, e usado verbas do governo de forma imprópria para a construção de um campo de pólo na residência da primeira-ministra em Islamabad.

No caso do ouro, Zardari foi acusado de receber propinas da ARY International Exchange, uma firma de comércio de barras de ouro situada em Dubai, em troca da concessão à companhia de uma licença exclusiva em 1994 para a importação de mais de US$ 500 milhões em ouro utilizado no setor joalheiro paquistanês.

Segundo um relatório do Congresso dos Estados Unidos de 1999 sobre lavagem de dinheiro e bancos privados, Zardari acumulou US$ 40 milhões em contas do Citibank. Ao descrever o caso ARY, o relatório citou alegações de que algumas das contas de Zardari referentes ao Citibank foram usadas para "ocultar US$ 10 milhões em propinas vinculadas a um contrato de importação de ouro para o Paquistão". Zardari sempre repeliu as acusações, e o diretor da companhia, Abdul Razzak Yaqub, negou ter fornecido propinas.

Um outro caso que foi arquivado pelo tribunal anticorrupção envolvia acusações de que Zardari recebeu comissões ilegais de duas companhias suíças, a Cotecna e a Société Générale de Surveillance, depois que as empresas obtiveram um contrato para realizar inspeções que precediam o transporte de produtos importados pelo Paquistão.

Esse caso também está sendo julgado na Suíça. Em 2003, um magistrado suíço declarou o casal culpado de lavagem de dinheiro, e ordenou que eles devolvessem US$ 12 milhões ao governo paquistanês. O casal lutou vigorosamente contra as acusações, e apelou da decisão, desencadeando uma nova investigação por parte das autoridades suíças, o que resultou em novas acusações de lavagem de dinheiro com agravantes.

Zardari, que é cardíaco e que se recusou a comparecer às audiências em Genebra após sair da prisão em 2004, sob a alegação de que estava muito doente, continuou a recorrer da sentença junto ao tribunal de apelações daquela cidade.

No Reino Unido, Zardari enfrenta um processo civil relacionado a uma propriedade rural com uma mansão e centenas de hectares no sul da Inglaterra, e na qual ele fez amplas reformas, incluindo a construção de uma imitação de um pub local.

O governo paquistanês está procurando reaver o dinheiro que Zardari usou para pagar pela propriedade, alegando que a quantia foi obtida de maneira ilegal. Na semana passada, pessoas envolvidas no caso ainda continuavam acusando-o e sendo contestadas por Zardari.

As acusações de corrupção contra Zardari dizem respeito às suas ações durante os dois mandatos de Benazir Bhutto como primeira-ministra, uma época em que ele era conhecido como "Mister Dez Por Cento" devido às alegações de que exigia uma parcela dos valores dos contratos depois que a sua mulher assumiu o poder em 1988.

Ela foi afastada em 1990, após dois anos no cargo, e Zardari ficou preso três anos, de 1990 a 1993, devido a denúncias de corrupção que jamais foram provadas.

No segundo mandato de Benazir Bhutto, de 1993 a 1996, ele contou com mais poderes como ministro do Meio-Ambiente e dos Investimentos. Quando ela foi afastada em 1996 pelo presidente Farooq Leghari, Zardari foi novamente preso devido a acusações de corrupção.

Ele permaneceu encarcerado até novembro de 2004, circulando entre prisões em Lahore, Rawalpindi e a sua cidade natal, Karachi. Zardari foi classificado como um prisioneiro classe A e recebeu certos privilégios: um quarto separado da prisão principal, dotado de banheiro privativo, ar condicionado e dois empregados.

Talib Rizvi, um advogado que o visitou com freqüência na cadeia, disse que Zardari sempre conseguiu ter a melhor comida, e invariavelmente demonstrava otimismo. "Comi um dos meus melhores almoços naquela prisão. Asif costumava receber a comida da Clifton House", conta Rizvi, referindo-se à grande mansão da família Bhutto em Karachi. "Ele recebia comida para 50 pessoas". Presentes caros para amigos eram comuns, incluindo abotoaduras de ouro "no valor de milhares de dólares", e vários conjuntos de canetas tinteiros.

E, assim como era generoso com os amigos, conta Rizvi, Zardari era duro com os inimigos. O advogado diz que Zardari ofereceu-se para organizar a vingança contra pistoleiros que atiraram contra o advogado na remota área do Baluquistão, quando Rizvi foi até lá para defender homens acusados de assassinar um líder tribal.

Depois disso, Rizvi, que diz que se considerava um grande admirador de Zardari, recorda: "Eu disse que não iria protocolar acusações. Asif disse que eu me assegurasse de que faria isso. De que neutralizaria as acusações".

Após a sua libertação em 2004 como parte de uma tentativa anterior mas fracassada de conciliação entre o governo Musharraf e Benazir Bhutto, Zardari passou a residir em Manhattan, morando no elegante bloco de apartamentos Helmsley Carlton, na Rua 61 com a Avenida Madison.

Zardari, sempre atento aos tratamentos de beleza, que incluem o cultivo de um bigode bem cuidado e tingido de negro, em vez da cor natural mesclada de claro e escuro, sempre gostou de um estilo de vida sofisticado, segundo os seus amigos.

Azher Khan, que freqüentou a escola de segundo grau com ele em uma área rural da província de Sindh, diz que no início dos anos setenta Zardari era um playboy, contando com a vantagem de o seu pai ser o proprietário do Cinema Bambina, que tinha uma fachada de néon com o desenho de uma mulher rebolando.

No início da década de 1970, Zardari foi para Londres. Lá, segundo ele disse na entrevista, freqüentou a Escola de Estudos de Negócios de Londres e recebeu um bacharelado em educação. Segundo a sua biografia oficial, ele freqüentou uma faculdade comercial chamada Pedinton School. Mas uma pesquisa sobre instituições de terceiro grau em Londres não revelou a existência de tal faculdade, e certas pessoas afirmam que ele não concluiu os estudos.

Determinar se Zardari possui ou não formação universitária é uma questão sensível, já que o presidente Musharraf baixou uma lei em 2002 que torna obrigatório que os candidatos ao parlamento tenham diploma universitário para que possam se qualificar para cargos eleitorais.

Atualmente existe a expectativa entre os seus colegas de política e a mídia paquistanesa de que Zardari pretende concorrer ao parlamento para que possa assumir o cargo de primeiro-ministro.

Na entrevista, Zardari afirmou que o gabinete do primeiro-ministro não o interessa porque seria "muito restritivo". Ele disse que, em vez disso, deseja injetar energia no Partido dos Povos do Paquistão.

Quando foi questionado na entrevista se possuía formação universitária, Zardari respondeu: "Tenho um diploma. Isso não é problema". "Freqüentei a Escola de Estudos de Negócios de Londres muito antes de ter me casado. Creio que é um bacharelado em educação. Realmente não examinei o diploma", disse ele.

Zardari, três anos mais novo que Benazir Bhutto, foi escolhido como marido dela pela mãe da ex-primeira-ministra no momento em que esta ingressava na política. O par foi considerado incomum: uma mulher cerebral formada em Oxford e Harvard e um sedutor amante dos jogos de pólo.

Assim que ela chegou ao poder, Zardari passou a ser visto muitas vezes como um problema para a carreira política de Benazir Bhutto.

Ahmad Mukhtar, que foi ministro do Comércio de Benazir Bhutto no segundo mandato dela, e que parece ser o candidato favorito de Zardari a primeiro-ministro na nova coalizão governamental, lembra-se de ter dito à primeira-ministra: "Existe propaganda contra ele, e os nomes utilizados não são bonitos. Da próxima vez que você chegar ao poder mande-o jogar pólo na Argentina".

Mas Mukhtar disse que passou a apreciar Zardari quando eles passaram um período juntos na cadeia em Karachi. Mukhtar foi preso em maio de 2000 pelo governo de Musharraf, devido a acusações vinculadas à sua atuação como ministro do Comércio. As acusações foram retiradas 17 meses mais tarde.

Zardari é um dentre os mais de 20 indivíduos acusados de uma conspiração em 1996 para matar o irmão de Benazir Bhutto, Murtaza, um oponente político de Zardari e da sua mulher, de acordo com Omar Sial, um advogado da família da ex-primeira-ministra.

Ao ser questionado na entrevista se estava em liberdade condicional, Zardari respondeu: "Correto. E isso não se refere a apenas um caso, mas não sei quantos mais".

O caso relativo ao assassinato ainda está ativo, mas arrasta-se há 12 anos, porque Zardari e os outros acusados, a maioria deles policiais, não compareceram aos tribunais.

"Ele alega estar seriamente doente e diz que não pode viajar", diz Fatima Bhutto, filha de Murtaza Bhutto e uma crítica de Benazir Bhutto e do seu marido. "Então, a mulher dele morre. Daí ele fica bem e em plena forma, perfeitamente saudável. Tudo isso parece ser mentira".

Porém, mesmo agora que Zardari está de volta ao país, ninguém aqui acredita que esse caso será investigado seriamente. UOL

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